"Não nos podemos limitar ao baixo valor. O que produzimos tem de ser gerado cá"

Estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos defende mudanças no paradigma económico. Apostar no conhecimento para que a indústria crie produtos únicos e que possam até ser chamariz para multinacionais.

Com a viragem do milénio, a economia nacional entrou num caminho de estagnação e a pandemia ditou uma travagem no processo de convergência face à UE. A Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) promoveu um estudo, coordenado pelo professor universitário Fernando Alexandre, que assume que a interrupção da "retoma do processo de convergência" torna mais "premente" a recuperação e o crescimento da economia nesta década. E isso implica uma mudança de paradigma. Passar de um modelo que se pauta pelo made in para um de created in, que exige uma aposta no conhecimento, na inovação e no talento. Sem esquecer as infraestruturas, que precisam de melhorias para se diminuir a distância para a Europa. Até porque, as empresas que vão transformar a economia "ainda não existem" e precisam de ser globais.

"O que fazemos neste estudo é partir de um princípio: a economia tem uma dualidade que está identificada há muito. Temos algumas ilhas de excelência que se conseguem aproximar da fronteira do que é feito ao nível global. Mas são pequenas e não têm uma expressão que permita arrastar a economia e fazer Portugal convergir para os níveis de rendimentos dos países mais desenvolvidos. O ponto de partida é que estamos presos na armadilha dos países de rendimentos intermédios", explica o coordenador do estudo Fernando Alexandre.

Para o desenvolvimento desta nova estratégia, aponta o estudo, é necessário ter em conta seis "ventos". Dois adversos - endividamento da economia e o envelhecimento da população - e quatro de feição - a melhoria das qualificações, o novo paradigma energético, a extensão da plataforma continental e a vaga de fundos europeus. Aliás, o envelhecimento da população e a transição climática são dois dos grandes desafios que o país tem pela frente e que tem de responder.

Created in

A expressão made in é cmummente associada ao fabrico de bens. E o que é proposto não é que a indústria deixe de produzir, mas sim que a cadeia de valor seja ampliada. "Quando dizemos do made in ao created in, não estamos a dizer que não é preciso fazer coisas. O made in, ter uma indústria em Portugal que produz bens industriais, já era importante e vai ser ainda mais. A questão do created in é que aquilo que fazemos cá tem de ter inovação e estar embebido de um conhecimento que é gerado também em Portugal", defende. "Não nos podemos limitar a fazer bens de baixo valor, facilmente reproduzíveis o que nos obriga a competir apenas pelo preço. Mas temos de fazer coisas diferenciadas, inovadoras, e únicas e que vão ter mais valor e entrar em segmentos de mercado em que o que conta não é apenas o preço mas a qualidade. Os produtos que produzimos têm que ser gerados em Portugal."

Coordenador do estudo diz que Portugal tem de ter uma região "estrela", que se deve estender por toda a faixa litoral, de Braga a Lisboa.

Tal como é referido no estudo, as grandes cadeias globais de valor são responsáveis, direta ou indiretamente, por mais de 50% do comércio mundial. E para que o produto interno bruto (PIB) nacional, e as empresas cresçam mais, vai ser necessário uma maior integração nestas cadeias. Tendo em conta que, tipicamente, a produção de bens e serviços das cadeias tem estado concentrada em termos regionais em locais que contam com centros de investigação e mão-de-obra qualificada, Portugal tem de apostar em desenvolver uma região "estrela". Fernando Alexandre explica que as regiões "estrela" não serão as grandes áreas metropolitanas mas, como é apontado no estudo, a faixa litoral - de Braga a Lisboa - onde reside cerca de 80% da população e onde estão muitas universidades. "Portugal precisa de uma região estrela", diz. "É possível criar essa região; não é muito fácil porque essas regiões têm vindo a afastar-se do resto. Apesar da diminuição da importância da distância com as novas tecnologias, a verdade é que a concentração de talento, capital e infraestruturas ganhou importância. Portugal tem de ter essa região estrela; não podemos ter o novo paradigma do created in sem termos essa região."

E para que haja esta região, as infraestruturas têm de permitir reduzir o tempo de deslocação, o que pressupõe uma melhoria das acessibilidades. Entre as recomendações políticas presentes no estudo, é apontada a necessidade de uma melhoria dos serviços aduaneiros dos portos e aeroportos de forma que fiquem entre os cinco mais eficientes no índice internacional de desempenho logístico do Banco Mundial até 2025. Além disso, apontam que deve haver um encurtamento dos tempos de viagem de comboio, em 50%, no eixo Setúbal-Lisboa-Porto-Braga-Vigo até 2030. E reforçar as linhas de metro e de comboio nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto.

Competências para inovar


O estudo sustenta que "as empresas que vão transformar a estrutura da economia portuguesa ainda não existem ou não estão no radar dos investidores". E para haver uma região "estrela" e empresas inovadoras que consigam impulsionar a economia, acabando por levar outras com elas através do desafio que representam, as competências e produção de ciência de acordo com os mais elevados padrões internacionais em áreas como Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática é de grande relevância. Até porque, assim, será possível criar produtos ou bens inovadores e de excelência que possam ser apresentados às grandes empresas mundiais, abrindo a porta a que se instalem no país, criando, desenvolvendo e produzindo bens. "Temos de abordar as multinacionais para lhes dizer que podem fazer coisas diferentes com o nosso sistema científico e tecnológico e com as nossas empresas. Produzir para o mercado global, pensando sempre nas multinacionais como uma enorme estrutura logística que tem capacidade de transportar os nossos produtos para o mundo todo. Mas é preciso que vão lá com a marca portuguesa e, para isso, ou levam a marca do nosso sistema científico e tecnológico ou dos parceiros industriais e de serviços", diz.

Há espaço para o turismo

O turismo foi até à pandemia um dos motores da economia. O estudo não aborda muito este setor de atividade mas o seu coordenador explica que "no novo paradigma há espaço para o turismo - ou seja, o turismo continuará sempre a ser muito importante para a economia portuguesa". Mas, como toda a economia, deverá adaptar-se às novas realidades, entre elas o envelhecimento da população.

Ana Laranjeiro é jornalista do Dinheiro Vivo

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