Não há revolução nas mentalidades sem as cidades mudarem primeiro

Escolhas fáceis, baratas e diversificadas de transportes, mais espaços públicos ou políticas para reduzir as emissões terão de abrir o caminho à mobilidade sustentável nos centros urbanos, defendem os convidados da 4ª sessão do Portugal Mobi Summit.

As alterações climáticas e os efeitos da poluição atmosférica na saúde pública colocaram os centros urbanos num ponto de viragem. A natureza humana, porém, resiste à mudança. Estratégias que promovam estilos de vida sustentáveis são, como tal, urgentes e esse foi o mote da 4ª sessão do Portugal Mobi Summit. Maria Tsavachidis, CEO do EIT Urban Mobility, iniciativa do Instituto Europeu de Inovação e Tecnologia (EIT), um organismo da União Europeia, Miguel Gaspar, vereador do Município de Lisboa com o pelouro da Mobilidade, e Miguel Eiras Antunes, Líder Global de Smart Cities da Deloitte, apontaram vários caminhos para alterar os comportamentos, mas todos concordam que as mentalidades só mudam quando as cidades mudam também.

As políticas certas, cruzadas com escolhas diversificadas nas deslocações urbanas e ainda o envolvimento de todos no processo de decisão são os três eixos apontados pelos convidados para "re-imaginar o transporte sustentável e a mobilidade pública", o tema que esta manhã dominou debate do Portugal Mobi Summit nos estúdios da TSF. "Precisamos fornecer às pessoas várias ferramentas para que mudem o comportamento", adverte Maria Tsavachidis. Regulamentação para desincentivar as emissões e incentivar a sustentabilidade na mobilidade é, desde logo, o primeiro passo, diz a especialista do Instituto Europeu de Inovação e Tecnologia (EIT).

A estratégia, todavia, só faz sentido se acompanhada por um leque de opções na mobilidade partilhada: "Cruzar diferentes modos de transporte público - rápidos, baratos e confortáveis - com a micromobilidade no last mile é a forma mais eficaz de combater a dependência do automóvel particular." A consciência de que é necessário mudar rapidamente já existe, mas a resistência não será totalmente eliminada, avisa Miguel Gaspar: "Teremos ainda de conhecer quais os comportamentos com maior impacto na comunidade para produzir também regulamentação nas emissões de CO2, remover estacionamento ou redesenhar o espaço público, incluindo mais percursos pedonais."

Cidadãos envolvidos nas decisões da cidade

São bons exemplos de medidas "temporárias ou experimentais" para recolher o feedback junto dos moradores e perceber o impacto na sua qualidade de vida, explica Maria Tsavachidis. E, já agora, envolver também a todos no processo de decisão, sustenta Miguel Eiras Antunes: "As cidades tendem a ser planeadas para as pessoas, com ruas arborizadas, corredores pedonais, espaços públicos ou centros de socialização. Precisamos incluir as pessoas nesses processos para que se liguem emocionalmente a essas mudanças."

A diversificação das estratégias é a chave para um objetivo comum que passa inevitavelmente pela redução do automóvel particular na cidade, defende Miguel Gaspar: "Quando nasci, o rácio de carros era de 50 por 100 mil habitantes e hoje são 500 por 100 mil habitantes." Estamos, portanto, no pico do uso do carro, alerta o vereador da Camara de Lisboa.

Só que alterar velhos hábitos não pode ser um processo complicado e desajustado aos ritmos urbanos: "Deveria ser fácil comprar um bilhete, apanhar um Uber ou um Cabify, mudar de um transporte público para o outro, usar uma bicicleta ou alugar um carro elétrico. Tudo isso tem de ser flexível, mas há ainda muito trabalho a fazer." Um dos pontos centrais da mudança passará por libertar o espaço ocupado pelos carros e devolvê-lo às pessoas, defende o vereador. "O que temos visto, nos últimos anos, é que, a partir do momento em que esse espaço é criado, as pessoas apropriam-se dele", conclui o autarca.

O impacto na hora de ponta

Há "seguramente" uma nova relação das pessoas com os modos mais suaves - reforça Miguel Gaspar, acreditando que essas tendências irão continuar a impulsionar os sistemas partilhados de bicicletas e as suas infraestruturas, acelerando, com isso, a transformação do espaço público. Mas, será igualmente importante debater o futuro do trabalho. "Descobrimos que é possível trabalhar a partir de casa, especialmente no setor dos serviços - recorda o vereador. Esse comportamento em Lisboa, onde "dois terços dos funcionários não residem da cidade", terá um impacto significativo na mobilidade.

Desde logo, se os pais não tiverem de sair de casa para o escritório com tanta frequência, terão maior disponibilidade para novas soluções de mobilidade com vista a levar os filhos até à escola, conclui Miguel Eiras Antunes. "Essa dinâmica poderá provocar uma significativa mudança nos padrões de tráfego", explica o Líder Global de Smart Cities da Deloitte, relembrando a "grande percentagem" que essas viagens representam nas deslocações diárias nas cidades. Esse será, aliás, um dos principais efeitos que poderá assumir um carácter definitivo após a pandemia, salienta o especialista: "O teletrabalho irá provocar não apenas um decréscimo nas deslocações, como concentrações mais baixas da circulação automóvel em horas de pontas ao início e ao fim do dia."

Em tempos de pandemia, será sempre difícil entrar em exercícios de futurologia. A pergunta mais repetida no último ano e meio tem sido, aliás, sobre o novo normal que irá imergir após a covid-19. Mas a interrogação acarreta muitas incógnitas - alerta a CEO do EIT Urban Mobility. Sobretudo porque a "grande transformação que se assiste na mobilidade urbana" está apenas no início: "Espero muito que o novo programa da União Europeia para reduzir as emissões em 55% até 2030 seja uma meta alcançável - é algo que teremos ainda de ver -, mas acho que as pessoas veem o novo normal como algo em constante inovação para um sistema de transporte público mais sustentável", conclui a especialista.

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