Mudanças na EDP dão mais peso a espanhóis e chineses

Alterações acionistas e nomeações previstas para a assembleia geral de 14 de abril deixam apenas cinco portugueses no CGS.

É um efeito colateral do emagrecimento do Conselho Geral e de Supervisão (CGS) da EDP. As cinco cadeiras que desaparecem do órgão de gestão que "assegura em permanência o acompanhamento e a supervisão da atividade da administração", analisando visão estratégica e decisões da elétrica, eram todas ocupadas por portugueses.

Na redução de 21 para 16 membros, que será levada a assembleia geral no dia 16 de abril, ganham peso naquela comissão de gestão os maiores acionistas da elétrica: os chineses da China Three Gorges (com os 19,03% de capital a somar cinco membros) e os espanhóis da Oppidum (7,2%, dois), que juntos ocupam sete lugares. A estes soma-se o chairman - João Talone substituirá Luís Amado, sob proposta desses acionistas -, ficando assim metade do CGS ocupado.

Nas outras oito cadeiras, vão sentar-se independentes - de acordo com os estatutos da empresa, o CGS tem de ter mais membros "do que o número de administradores, sendo certo que tais membros deverão, na sua maioria, ser independentes" - mas apenas metade deles portugueses. Deixam ainda de estar representados os restantes acionistas da elétrica: Blackrock (5,06%), Norges Bank (2,95%), Alliance Bernstein (2,68%), Sonatrach (2,19%) e Qatar Investment Authority (2,09%).

Esta alteração traduz-se, portanto não apenas no emagrecimento da presença nacional no CGS (passam a ser tantos portugueses quantos chineses), mas também numa redução de vozes e da diversificação de interesses no conselho, com prevalência dos maiores acionistas da companhia - que desde a saída do BCP já não tem donos portugueses. Com o domínio da maior fatia de capital da EDP, chineses e espanhóis garantem assim também o maior peso na balança do órgão de acompanhamento independente.

Esta alteração de equilíbrios de poder na EDP traz vantagens individuais aos dois acionistas principais, que também têm negócios entre si, à margem da elétrica portuguesa. Há menos de um mês, a maior acionista da elétrica portuguesa fechou um negócio de parques de produção de energia renovável em Espanha com a dona da segunda maior fatia da EDP. A China Three Gorges desembolsou cerca de 500 milhões de euros para ficar com todos os projetos de renovável (uma central solar e 11 parques eólicos) de um consórcio liderado pela Corporacion Masaveu. A família Masaveu detém mais de metade do capital da Oppidum.

O negócio vem na onda de passos que a China Three Gorges tem dado, seguindo os planos de reforço em renováveis com investimentos diretos (e não através da EDP) em diversos pontos do mundo, incluindo energia solar no Peru e aquisições no Brasil que já lhe permitiram ultrapassar a elétrica portuguesa em termos de capacidade e produção de energia renovável.

Com cerca de 40% do crescimento em energias verdes a vir dos Estados Unidos, a EDP não ajuda o seu maior acionista a fazer esse caminho rumo à preponderância nas renováveis. Um acordo estabelecido para assuntos dos Estados Unidos impede os chineses de obter domínio, interferir ou sequer estar ligados à decisão final nestes negócios, que passam obrigatoriamente por um comité independente sem representação de Pequim.

A CGT tem assim perdido algum entusiasmo com a elétrica, onde entrou em 2012 assumindo mais de 21% do capital, num investimento de 2,7 mil milhões de euros. Só com a venda de 100 milhões de ações em janeiro, a empresa chinesa encaixou quase um quarto desse valor, reduzindo a participação para os atuais 19%.

Este relativo afastamento, a par dos dois membros no CGS e sem outros acionistas ali representados, abre espaço aos espanhóis - cujos negócios comuns aproximaram da CTG -, que conseguem um peso maior do que o que lhes garante a fatia de 7% na EDP sem ter de investir num alargamento da sua posição acionista.

Mais longe da discussão estratégica sobre o futuro da elétrica portuguesa ficam, assim, quer os restantes acionistas quer os representantes portugueses, sem posição acionista e agora reduzidos a cinco cadeiras no Conselho Geral e de Supervisão. Mesmo que a EDP continue a ser, conforme sublinhou em entrevista ao ECO/TVI o CEO, Miguel Stilwell, "uma empresa orgulhosamente portuguesa, de matriz portuguesa".

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