Moreira Rato contratado para criar agência de dívida no Koweit

Recuo nas receitas do petróleo obrigou o país a considerar a emissão e a colocação global de títulos de dívida soberana. Ex-presidente do IGCP foi o escolhido por gestora de topo

Um percurso que inclui cargos de direção nos bancos de investimento Morgan Stanley, em Londres, Lehman Brothers e Goldman Sachs pesou na escolha, mas a forma como João Moreira Rato, de 44 anos, geriu a dívida pública de Portugal foi determinante. A convite da consultora Oliver Wyman, o gestor que o antigo ministro das Finanças Vítor Gaspar escolheu para liderar o IGCP entre 2012 e 2014 foi recrutado para criar uma agência de gestão de dívida pública no Koweit.

Até recentemente, o país do Médio Oriente não emitia dívida para fora do país - só para o mercado nacional. Mas há cerca de dois meses decidiu recorrer à consultora de topo para preparar uma estratégia que lhe permita começar a emitir e a colocar globalmente dívida soberana do Koweit, de forma a compensar os cofres do Estado pela perda de receitas do petróleo. E João Moreira Rato foi o homem escolhido para a tarefa, que passa por desenhar uma espécie de IGCP naquele país - ou seja, criar regulamentos, métodos e estruturas e garantir que a máquina, uma vez instalada, funcionará com eficácia.

A tarefa do gestor português deverá terminar quando a agência de gestão de dívida estiver montada - tarefa que ainda vai levar alguns meses a cumprir. Caberá ao Koweit encontrar os especialistas em mercados financeiros, gestão de risco e de dívida - que recrutará localmente - para pôr a casa a funcionar.

Em Portugal, o IGCP - entidade pública à qual compete assegurar o financiamento e fazer a gestão da dívida pública direta do Estado português - conta com cerca de uma centena de funcionários. A agência de crédito portuguesa, porém, não se limita a fazer a gestão da dívida da República, sendo também da sua responsabilidade, por exemplo, a coordenação das contas do Tesouro, em que fundos e empresas depositam capital - a chamada almofada financeira. Exclusivamente em funções ligadas à dívida soberana chegará a 30 pessoas.

Numa entrevista à Bloomberg em maio, o ministro das Finanças do Koweit admitiu a necessidade de prosseguir uma nova estratégia e avançou que o país começou recentemente a emitir títulos de forma a cobrir um défice de cerca de oito mil milhões de dinares (cerca de 23,88 mil milhões de euros), provocado pela crise do petróleo (ver texto ao lado). "De uma forma ou de outra, temos de financiar o défice", afirmou Al-Saleh. "Começámos por tentar fazê-lo junto do mercado regional, através do banco central, e estamos a trabalhar para aumentar as emissões. E há um grande apetite pela dívida do Koweit." Razão pela qual a aposta no mercado global de dívida faz todo o sentido para aquele Estado do golfo Pérsico.

À frente do IGCP, Moreira Rato prosseguiu uma estratégia de antecipação, garantindo até ao final de um ano cerca de dois terços das necessidades de financiamento do Estado para o ano seguinte. Os seus métodos de gestão passaram pela recompra de dívida para poupar nos juros, sobretudo nos prazos mais curtos, e incentivar os investidores a procurar títulos de maturidade mais alargada. A amortização antecipada de dívida que vencia em 2014 e 2015 permitiu ao Estado poupar mais de 21 milhões de euros em juros. Foi ainda enquanto João Moreira Rato era presidente do IGCP que Portugal cumpriu a primeira emissão de títulos de longo prazo e de dívida pública em dólares desde o resgate financeiro.

Durante o seu mandato - que deixou a meio para assumir a posição de administrador financeiro do BES, no verão de 2014 - , as taxas de juro da República a dez anos caíram de 7% para cerca de 2,5%, a cinco anos baixaram de 5,17% para 1,41% e a dois anos reduziram-se de 3,53% para 0,37%.

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