Ministro das Finanças rejeita "dramatismo" com fim das moratórias

"Temos a expectativa de que teremos agora, antes do fim da moratória, uma forte recuperação da economia", considera o ministro das Finanças.

O ministro de Estado e das Finanças, João Leão, considerou, em entrevista conjunta com o presidente do Eurogrupo, que o fim das moratórias bancárias concedidas no âmbito da covid-19, marcado para setembro, não deve ser levado com "dramatismo".

"Falei aqui com o meu colega irlandês que também na Irlanda conseguiram atravessar bem o fim das moratórias, e noutros países também conseguiram. Não tem que ter o dramatismo que muitas vezes se coloca em Portugal", considerou João Leão em entrevista à Lusa.

Ladeado por Paschal Donohoe, presidente do Eurogrupo (grupo de ministros das Finanças da zona euro) e seu homólogo irlandês, o governante português frisou que noutros países "a evolução foi menos dramática do que muitas vezes se antecipa", podendo o mesmo suceder em Portugal.

"Temos a expectativa de que teremos agora, antes do fim da moratória, uma forte recuperação da economia", disse, alicerçando-se em dados dos "principais indicadores avançados" que demonstram a retoma.

"O exemplo que demos é que os pagamentos do multibanco nas últimas três semanas estão bastante superiores ao que eram antes da pandemia, em 2019", algo que demonstra que "o consumo está a recuperar de forma muito rápida", no entender do ministro.

João Leão crê também que os setores "de retalho e do turismo vão estar mais bem preparados para o momento de quando chegar o fim das moratórias, em setembro", devido ao verão que se avizinha, com uma recuperação "muito forte".

"Governo já aprovou um conjunto de linhas de empréstimo que dão financiamento adicional" ás empresas dos setores mais afetados

No entanto, o ministro considerou "muito importante" que se olhe "com atenção para o efeito que a crise teve nos balanços" das empresas dos setores mais afetados, e "perceber como é que elas têm a capacidade para enfrentar a moratória".

"Por um lado, o Governo já aprovou um conjunto de linhas de empréstimo com garantias do Estado que dão financiamento adicional a estas empresas, que são importantes para enfrentar também esse período, e por outro lado também é importante percebermos como é que chegando ao fim da moratória, onde estas empresas se vão situar", prosseguiu.

O governante destacou ser necessário avaliar "que mecanismos adicionais o Estado pode trazer" para ajudar as empresas com as suas obrigações "no momento em que, sobretudo nos setores mais atingidos, passam a ter que fazer a amortização normal que faziam antes da crise".

Por sua parte, o presidente do Eurogrupo reconheceu que "poderão existir desafios" em termos de "crédito malparado e riscos bancários", mas "é por os governos terem intervindo de forma tão forte nas economias para ajudar os empregadores em tempos de dificuldade", que isso "deverá reduzir o nível do desafio".

"A mera razão, por exemplo, pela qual os governos estão a gastar tanto dinheiro atualmente, é para que, quando começarmos a recuperar, se reduzam os danos nos balanços de muitos empregadores, particularmente os mais pequenos", vincou Paschal Donohoe.

A adesão às moratórias públicas por parte de empresas e particulares terminou em 31 de março, permitindo que, no máximo, os encargos com o crédito (capital e/ou juros) possam ser diferidos por mais nove meses.

Regra geral, contudo, a moratória pública termina em 30 de setembro.

Crescimento do PIB pode chegar aos 5% este ano, estima ministro

Na mesma entrevista, João Leão admitiu que o Produto Interno Bruto (PIB) português poderá crescer até 1 ponto percentual acima dos 4% esperados, devido a uma mudança "muito rápida" das condições económicas.

"É um crescimento relativamente superior, pode ir até quase um ponto acima do que temos previsto, mas ainda é um bocado cedo", disse.

O ministro das Finanças lembrou que "Portugal teve um inverno muito duro" e que "o primeiro trimestre foi muito intenso" de uma forma negativa, o que levou o Governo a rever em baixa as suas previsões para o crescimento da economia para 4% aquando da divulgação do Programa de Estabilidade, em abril, quando anteriormente previa 5,4%.

Porém, "a mudança está a ser muito rápida", salientou o ministro, justificando o maior otimismo com o facto de que, com a reabertura da economia nacional, "o número de casos mantém-se muito baixo" e o plano de vacinação contra a covid-19 "está a ajudar".

"Com os indicadores que temos quer do mercado de trabalho, quer do consumo, quer das exportações, que estão a ser muito mais positivos do que esperávamos, temos a expectativa, se a pandemia continuar controlada e evoluir de forma positiva com a campanha de vacinação, que o crescimento possa ser bastante superior ao que tínhamos previsto", disse.

Comissão Europeia reviu em baixa o crescimento económico esperado para Portugal, apontando para 3,9%

No entanto, o governante ressalvou que a previsão oficial do Governo "mantém-se nos 4%", sendo apenas revista quando for apresentada a proposta de Orçamento do Estado para 2022, em outubro.

O otimismo do ministro contrasta com as previsões económicas de primavera da Comissão Europeia que, na semana passada, reviu em baixa o crescimento económico esperado para Portugal, apontando para 3,9% quando em fevereiro esperava 4,1%.

Em termos trimestrais, Bruxelas aponta para uma recuperação do PIB português do segundo ao quarto trimestre, quer em cadeia (3,2%, 3,9%, e 1,0% respetivamente), quer face aos mesmos trimestres do ano passado (13,5%, 4,0% e 4,9%, respetivamente).

Em termos anuais, as previsões da Comissão Europeia estão exatamente alinhadas com as do Banco de Portugal (BdP) e as do Fundo Monetário Internacional (FMI), estando uma décima abaixo dos 4,0% esperados pelo Governo e acima dos 3,3% do Conselho das Finanças Públicas (CFP) e dos 1,7% da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

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