Miguel Almeida "Não tenho a certeza de que Pedro Nuno Santos saiba o que é o 5G"

Governo devia ter assumido desenho da política 5G e não delegado na Anacom, diz o CEO da NOS, que acusa o regulador de estar "numa cruzada" para destruir o setor. Operadora quer liderar no 5G.

A NOS investiu 384,9 milhões no ano passado. É para manter?
Vai ser difícil que não seja mais, até porque temos um leilão a decorrer. Apesar do contexto difícil e de as perspetivas económicas não serem as melhores, no ano passado reforçámos o investimento - nas telecomunicações em cerca de 6%. A nossa aposta no futuro e na preparação para 5G reforçou-se. Em relação a 2021 e ao futuro, queremos liderar o 5G, e isso implica investimento. Não o nível que gostaríamos, porque temos um regulador que não quer que as empresas invistam, pelo contrário, desincentiva o investimento privado, provavelmente para incentivar o público numa área que não carecia de recursos públicos, uma vez que o investimento privado tem assegurado um nível único de qualidade do setor. Apesar desse ambiente hostil, o objetivo é fazer um forte investimento no 5G para muito cedo chegar à liderança.

O leilão leva mais de 40 dias, já obteve mais 100 milhões do que previsto. Já investiu muito em frequências? Disse que depois seriam "os mínimos olímpicos".
Sobre o leilão não posso falar, posso dizer que um Estado que insiste em atacar o setor - entenda-se por ação do regulador - terá consequências em todos os agentes económicos. É evidente que se retirar interesse em investir no setor, o setor investe menos. Podemos esperar que seja uma tendência transversal. O que não impede, no nosso caso, a forte aposta no 5G.

O ministro da Economia, Siza Vieira, afirmou que parte das receitas do leilão serão usadas no reforço de infraestruturas de telecomunicações e o quadro financeiro plurianual terá verbas "apropriadas".
Não conheço nenhum plano, não está no Orçamento do Estado, no Plano de Recuperação e Resiliência não estão previstas verbas. Não sei bem do que o ministro está a falar. Preferia que o governo, tal como escreveu na resolução de Conselho de Ministros de fevereiro de 2020, tivesse sido consequente com essa mesma resolução, que diz, por exemplo, que não deve ser privilegiada a receita no leilão de atribuição de espectro, pelo contrário - e sabemos o que está a acontecer -, ou que se deve privilegiar o desenvolvimento da transição digital e da economia. O que vimos no regulamento do leilão é o oposto, é a tentativa de desincentivar o investimento. Portanto, não sei do que estão a falar. Temo que seja tarde, pois estamos a caminho de algo irreversível. Mas percebi bem o que ele quis dizer nas críticas ao regulador.

Mostrou-se insatisfeito com o regulamento do 5G, é isso?
Falou da importância do 4G e da cobertura 4G, que o regulador ignorou, de o regulador ter feito tábua rasa da resolução de Conselho de Ministros, algo politicamente inaceitável e ilegal. Falou, mas na verdade até agora o governo nada fez. O governo devia ter assumido desde o início o desenho da política para o 5G como previsto no nosso ordenamento, e não o fez. Delegou completamente no regulador, emanou um conjunto de princípios na forma de uma resolução de Conselho de Ministros que o regulador ignorou. Temos um regulador em autogestão em missão, em cruzada até, para destruir o setor. Absolutamente inaceitável.

Pedro Nuno Santos, ministro da tutela, disse estar solidário com o regulamento do 5G e o regulador.
Não tenho a certeza de que ele saiba o que é o 5G, o que é o leilão ou o que é que o regulador decidiu.

Em outubro, Mário Vaz, da Vodafone apontou perdas de 2000 empregos com a entrada de novos operadores. A Altice anunciou um programa de saídas voluntárias. Em 2020 disse que era preciso começar a pensar no que "teria de se limpar" em 2021. Quando ouço essas palavras vindas de gestores penso em reestruturações.
​​​​​​​O seu salto racional de associar a despedimentos é um bocadinho radical. Há muitas formas e áreas para reestruturar. No nosso caso, na nossa indústria, o peso dos custos com pessoas é relativamente limitado. Verdadeiramente pesados são os custos com infraestruturas, o investimento no seu alargamento e modernização contínua. É evidente que, perante este ambiente hostil, vamos ter de reduzir investimentos, a estrutura, mas não pode interpretar assim. Este ataque injustificado ao setor, ao investimento, vai levar a uma redução de investimento, à reestruturação de empresas para se acomodar a um ambiente hostil, a um Estado e regulador que privilegiam investimento público aos privados que têm posto Portugal na linha da frente das comunicações. Decidiu que não queria assim, que queria matar o setor ou, pelo menos, as empresas no setor, com objetivos que desconheço. Terá consequências, na NOS e noutras empresas.

Temos um regulador em autogestão, numa cruzada, diria até, para destruir o setor. É absolutamente inaceitável

A Altice aponta responsabilidades à Anacom e à Concorrência.
Falo essencialmente do regulador. Vamos ser claros: responsabilizo a Anacom por um ataque injustificado, pela implementação de medidas com objetivo destruir o setor, que visam desincentivar o investimento. O setor tem de ser coerente com o que o regulador definiu.

No vosso caso vão reavaliar investimento e cortar o que puderem?
Vamos adaptar o nível de investimento e a estrutura da empresa à realidade de um setor que está a ser destruído pelo regulador.

Uma dessas áreas será o cinema?
Cinema é outro campeonato.

Com impacto nas contas. Salas fechadas, estreia adiadas, o receio do vírus afastou as pessoas... Era bom, como nos filmes, que houvesse um super-herói anticovid..
As receitas com venda de bilhetes caíram 75%, é absolutamente dramático. E só é possível o negócio sobreviver graças ao apoio do grupo NOS. Não recorremos ao lay-off. Assumimos todos os custos. Em relação ao futuro, mesmo sem super-herói anticovid, mantemos a esperança de recuperação plena o mais breve possível.

E a Sport TV? Quem cortar serviço é-lhe proposto ficar por 19,90€ "para sempre". São valores comportáveis duma operação viável?
A Sport TV é deficitária há bastante tempo, talvez há dez anos. Deficitária crescentemente, por um desbalanceamento do que são custos e receitas. Não vou falar do futuro da Sport TV, sou minoritário, mas é um negócio deficitário. Nas contas da NOS tem contributo negativo.

E a Zap?
A economia angolana não está a gozar de grande saúde, mas é uma operação muito sólida com a qual estamos bastante satisfeitos.

A Sonae anunciou em agosto um acordo com Isabel dos Santos para desfazer a Zopt. No site da NOS a Zopt continua acionista de controlo. Em janeiro, o Expresso noticiou que a Unitel quer a posição porque teria sido comprada com o empréstimo da operadora.
​​​​​​​Fez várias referências à Zopt. Eu não faço parte da Zopt, faço parte da NOS. A Zopt continua a ser o acionista com 52%. O que se passa ao nível da Zopt tem de perguntar à Zopt ou aos seus acionistas.

Ana Marcela é jornalista do Dinheiro Vivo

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