Mercado em queda: nem no tempo da troika se tinham vendido tão poucos carros

Comércio automóvel travou 84,6% em abril por causa do fecho dos concessionários. Estado perdeu pelo menos 30 milhões de receita fiscal e a quebra só não foi maior por causa das vendas online.

Abril marcou a maior travagem de sempre do comércio automóvel em Portugal. As vendas caíram 84,6% no último mês já que só foram matriculados 3803 veículos. No mês em que os concessionários estiveram encerrados por causa do estado de emergência, só as vendas online e as entregas em casa evitaram danos maiores. O Estado perdeu 30 milhões de euros de receita fiscal.

A queda do mercado foi tal que nem no tempo da troika tinha havido tão poucas matrículas. Até agora, a maior quebra datava de fevereiro de 2012, quando a descida de vendas foi de 52,3%, segundo os dados divulgados esta segunda-feira (4 de maio) pela ACAP - Associação Automóvel de Portugal. Na altura, foram vendidos 7926 automóveis novos, mais do dobro do que foi registado no mês passado em Portugal. "Estamos numa situação mais dramática do que a que vivemos na crise de 2011, durante a qual, apesar de tudo, a nossa organização comercial se manteve ativa e havia alguma procura no mercado", lembra Ricardo Tomaz, diretor de relações externas da SIVA, importadora de marcas como a Volkswagen, Audi e Skoda em Portugal.

Com os concessionários fechados pelo decreto presidencial, vender pela internet e entregar os carros em casa ou à porta dos concessionários foram as únicas opções que impediram um choque do mercado ainda mais forte, mesmo que apenas umas dezenas de unidades tenham sido vendidas com este sistema. Marcas como Renault, Mercedes, Volkswagen, Nissan, Tesla e Volvo assumiram ao Dinheiro Vivo que apostaram nesta estratégia.

"Em meados do mês de abril, passámos a mensagem que era possível entregar à porta do estabelecimento", destaca Hélder Pedro, secretário-geral da ACAP. "O registo de algumas matrículas vindas do mês anterior também deu uma ajuda", reconhece o mesmo dirigente. Apesar disso, o Estado "perdeu 30 milhões de euros em receita fiscal, tendo apenas em conta o ISV", imposto sobre o preço do veículo - o montante do IVA por arrecadar ficou de fora desta estimativa.

No último mês, a tabela de vendas foi liderada pela Peugeot, com 332 matrículas, seguida da Mercedes (311 matrículas) e da BMW (264 registos). Só para ter uma ideia do descalabro do mercado, no mesmo mês de 2019, a Peugeot registou 2510 automóveis e ficou no segundo lugar.

No segmento dos ligeiros de passageiros, pela primeira vez neste ano, venderam-se mais carros a gasóleo (37,4%) do que a gasolina (32,3%). O peso dos veículos alternativos ascendeu a quase 30%, com destaque para os híbridos plug-in, que representaram um décimo das matrículas por tipo de combustível.

Usados comandam recuperação

Com autorização do Governo, todos os espaços de venda de automóveis foram esta segunda-feira abertos ao público debaixo de um protocolo sanitário apertado. Os clientes são obrigados a usar máscaras e a intervenção em automóveis começa e termina com a desinfeção dos todos os pontos de contacto frequentes, como o volante.

Apesar das medidas rigorosas de proteção, a ACAP lembra que, em época de rendimentos reduzidos, "não haverá grande procura, infelizmente, mas é um sinal" que é preciso dar ao consumidor. Embora não espere grande recuperação na compra de carros novos, Helder Pedro reconhece que "vai haver um aumento da procura de carros usados".

A culpa é do receio dos trabalhadores em utilizarem os transportes públicos, com dificuldades no controlo de lotação, sobretudo na hora de ponta. "O carro usado é mais barato e pode ser uma boa opção. O ambiente a bordo é controlado pelo consumidor, o que agrada ao consumidor final", defende Vítor Gouveia, presidente da Associação Portuguesa do Comércio Automóvel (APDCA).

Ainda assim, marcas como a Renault e a BMW mantêm os planos de investimento na rede de concessionários para os próximos meses, embora com alguns ajustes depois do choque pandémico nas vendas de automóveis.

Diogo Ferreira Nunes é jornalista do Dinheiro Vivo

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