Malparado só está a piorar devido às grandes empresas

Empresas com mais de 250 empregados ou pelo menos 50 milhões de euros em faturação anual têm 480 milhões atrasados em prestações ao banco. Mais 24% em outubro

Os rácios e os montantes devidos aos bancos em crédito vencido só estão a piorar nas grandes empresas. As sociedades de micro, pequena e média dimensão ainda têm o grosso da dívida atrasada, mas começaram a reduzir o malparado ao longo deste ano.

Segundo a base de dados do Banco de Portugal analisada pelo DN/Dinheiro Vivo, a banca portuguesa teria mais de 12,5 mil milhões de euros em empréstimos em incumprimento junto dos chamados clientes empresariais no final de outubro. Genericamente, entende-se por crédito vencido aquele cujo pagamento está por regularizar há mais de 90 dias (três meses).

As empresas de maior dimensão (250 trabalhadores ou mais e/ou faturação de pelo menos 50 milhões de euros ao ano) são o único segmento que está a piorar nos indicadores de incumprimento. Apesar de o rácio de malparado ainda ser relativamente baixo, ele piorou para 4,5% do total de crédito concedido, no final de outubro deste ano, o que, segundo as contas do Dinheiro Vivo, equivalerá a cerca de 480 milhões de euros em falta junto dos bancos. Há um ano estava nos 3,5%. Antes do programa de ajustamento esse fardo valia 1% apenas. Face ao total de crédito vencido, o valor também não é muito alto, mas em apenas um ano (face a outubro de 2015) teve uma subida pronunciada de 24%. Desde o início de 2015 que tem vindo a subir rapidamente.

A maior fatia do valor em incumprimento, no entanto, continua a vir das microempresas. Estas eram responsáveis por 6,8 mil milhões de euros em atraso, volume que se traduz num rácio de delinquência de 25,6% do total emprestado a este tipo de empresas (com menos de dez trabalhadores e faturação não superior a dois milhões de euros ao ano). Há um ano, esse mesmo indicador estava em 26,6%, pelo que o valor em incumprimento terá recuado 9% face a igual mês do ano passado, outubro de 2015.

É uma consequência de vários fatores em simultâneo. Numa primeira fase, até final do programa de troika, a concessão de crédito foi dificultada pelos próprios bancos por continuarem a enfrentar uma penúria forte nos seus níveis de capital (exigido pelo BCE). Além disso, a economia passou por uma recessão pesada, pelo que a procura também estava diminuída. Depois a retoma apareceu, mas débil, pelo que essa procura da parte das empresas continuou baixa, apesar das taxas de juro historicamente baixas. Além disso, muitos bancos executaram garantias por falta de pagamento ou chegaram a acordos com os seus devedores, o que lhes permitiu limpar créditos problemáticos do balanço. Desde finais de 2010 que a venda de crédito a microempresas está a cair.

No segmento das pequenas empresas (menos de 50 empregados e faturação anual não superior a dez milhões de euros), passa-se algo parecido. Os 2,8 mil milhões de euros em incumprimento no final de outubro traduzem-se numa diminuição de 11% face a igual mês de 2015. Aqui, o rácio de incumprimento ronda agora os 14,4%.

As médias empresas (menos de 250 trabalhadores, volume de negócios não superior a 50 milhões de euros), o rácio de malparado pesa aos bancos 12,7% do total de créditos vendidos, mas o valor em atraso caiu 2%, para 2,4 mil milhões em outubro. Desde final de 2010 que não havia uma redução neste indicador entre as empresas de dimensão média.

De acordo com dados dos bancos reportados a final de 2015, os casos mais difíceis de gestão do malparado pareciam ser os do Novo Banco (14,5% de malparado), da CGD e do BCP (ambos com 7,2%). No final do primeiro semestre deste ano, o Novo Banco registou quase 5,7 mil milhões de euros em "crédito e juros vencidos" por parte de todos os seus clientes (empresas e particulares). O segundo maior rombo pertencia à CGD (5,2 mil milhões) e em terceiro aparecia o BCP (3,6 mil milhões).

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