Investimento português no Reino Unido cai para metade

Investidores portugueses fogem do Reino Unido após decisão de sair da UE. Investimento dos estrangeiros cá recupera pelo quinto ano consecutivo, mas perde força.

O investimento total de Portugal no estrangeiro subiu 1,7% no ano passado, destacando-se destinos de forte crescimento como Holanda, Brasil e Espanha. Pelo contrário, os investidores nacionais saíram em força do Reino Unido, logo após ser conhecida a decisão do país de sair da União Europeia (brexit), com o valor lá aplicado a cair para metade, mostram dados do Banco de Portugal consultados pelo DN/Dinheiro Vivo.

Ontem, foram conhecidas mais notícias negativas do impacto do brexit nas economias, designadamente a britânica. O gigante bancário inglês HSBC anunciou uma quebra de 82% nos lucros de 2016, facto que atribuiu, em parte, ao resultado do referendo de 23 de junho do ano passado.

Douglas Flint, o presidente desse grupo bancário, falou de "incertezas no Reino Unido e na União Europeia à medida que começam as negociações do brexit". Em Bruxelas, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, avisou que "os britânicos devem saber que o brexit não será a custo reduzido ou zero", "a fatura será muito cara".

Para já, em termos de relações de investimento com o Reino Unido, Portugal parece sair a ganhar ligeiramente. Sendo verdade que os investidores portugueses recuaram totalmente no Reino Unido (o stock de investimento português caiu 48%, para 1,1 mil milhões de euros no final de 2016), os dados do Banco de Portugal também indicam que o total de IDE inglês cá até subiu um pouco (1%), para 8,5 mil milhões de euros ao longo do ano transato.

Muitas empresas inglesas ou sediadas em território britânico estão a desmantelar negócios, transferindo-os para outras regiões aparentemente mais estáveis.

O HSBC avisou ontem, por exemplo, que "podemos ter de deslocar cerca de mil posições de Londres para Paris progressivamente, ao longo dos próximos dois anos".

Além do Reino Unido, os investidores parqueados em Portugal desinvestiram fortemente em Angola (redução de 10% ou menos 409 milhões de euros) e em Moçambique (menos 154 milhões de euros, em termos líquidos).

A forma como a queda do preço do petróleo tem vindo a prejudicar as economias dos dois maiores países lusófonos africanos e como dificulta o aprofundamento ou o estabelecimento de investimentos de Portugal ajuda a explicar o sucedido em 2016.

A subir, estão Holanda e Brasil, que captam cada vez mais fundos portugueses. O investimento nacional na economia holandesa reforçou-se em mais 2154 milhões de euros. O Brasil absorveu mais 372 milhões.

Segundo um estudo das Nações Unidas sobre este tema, "a maioria das empresas cotadas de Portugal deve ter uma empresa holding na Holanda", pelo que "a Holanda se tornou o maior investidor em Portugal e o maior destino de fluxos de investimento direto português em anos recentes".

Os motivos dessas deslocalizações foram, sobretudo, para pagar menos impostos cá e para terem acesso mais fácil a crédito bancário, uma vez que os bancos nacionais dificultaram e muito a concessão de novos empréstimos nos últimos anos.

Mais Holanda, Espanha e China

No outro lado da balança, o investimento direto total do estrangeiro (stock de IDE) na economia portuguesa continuou a subir (4,4% em 2016), o que acontece pelo quinto ano consecutivo, indica o boletim estatístico do banco central, ontem divulgado, que no entanto sinaliza uma desaceleração face a anos precedentes. O total de IDE subiu 9,3% em 2014 e 8,5% em 2015.

O reforço de 4762 milhões de euros resultou em boa parte de uma entrada muito significativa de fundos procedentes da Holanda (mais 2,8 mil milhões de euros), de Espanha (1,4 mil milhões de euros) e da China (mais 518 milhões no ano passado). Espanha é o maior parceiro comercial de Portugal. Como já referido, por motivos de competitividade fiscais e bancários, Holanda é sede de inúmeras empresas que controlam grupos em Portugal.

Já o investimento feito por países como Angola, Áustria e Itália sofreu um revés importante, caindo 355, 284 e 268 milhões de euros, respetivamente, face a 2015.

As dificuldades do setor bancário italiano e o já referido efeito depressor da queda do preço do petróleo sobre os investimentos angolanos em Portugal ajudam a explicar o sucedido em 2016.

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