Houve 500 famílias a aderir às moratórias já em 2021

No espaço de um mês, foram mais 500 as famílias que suspenderam o pagamento da prestação da casa ao banco. Há 17,1 mil milhões de euros em moratórias no crédito à habitação.

O arranque de 2021 foi marcado por um aumento do número de famílias que aderiram às moratórias no crédito à habitação. Apesar de ter descido o total clientes bancários abrangidos pela medida, no crédito hipotecário a tendência é de subida.

Segundo dados divulgados ontem pelo Banco de Portugal, no final de janeiro deste ano existiam 302.900 famílias com o pagamento da prestação da casa ao banco suspenso. São mais 500 famílias do que o registado em dezembro de 2020. Quanto ao montante de moratórias no crédito à habitação, cresceu 71 milhões de euros entre dezembro e janeiro. Passou de 17.074 milhões de euros para 17.145 milhões de euros. Corresponde a 17,8% do total do crédito hipotecário devido pelas famílias.

Esta subida coincidiu com a aprovação das alterações ao regime da moratória pública, em dezembro passado, que vieram permitir a adesão ao regime até ao final de março de 2021. Mas se há famílias que aderem às moratórias para gerir as quebras de rendimentos, também há as que adotam a medida preventivamente devido ao clima de incerteza. "Há muitas famílias que aderiram às moratórias por precaução", disse Nuno Rico, economista da Deco. "Penso que a maioria das famílias viu as moratórias como uma boa maneira de atirar para a frente a prestação da casa", acrescenta Filipe Garcia, economista da IMF-Informação de Mercados Financeiros.

Para os economistas, o mês de abril vai servir como um primeiro barómetro para perceber como poderá evoluir o incumprimento no crédito em 2021. A moratória privada no crédito à habitação criada pela da Associação Portuguesa de Bancos termina o seu prazo no final deste mês de março e em causa está um montante de créditos de 3,7 mil milhões de euros, o que corresponde a 21,5% do total de crédito hipotecário que estava abrangido pelo regime de moratórias no final de janeiro. Em abril, serão milhares as famílias portuguesas que voltam a ter de pagar a sua prestação mensal da casa ao banco. "Estou curioso para saber como vai ser a evolução do crédito malparado em abril", admite Filipe Garcia.

Para Nuno Rico, o próximo mês vai servir como um teste. "Teremos um teste em cada trimestre. Em abril termina a moratória hipotecária da APB. A moratória no crédito ao consumo da APB acaba em junho", recordou. "No crédito ao consumo, os montantes em dívida são mais pequenos, mas os prazos muito mais curtos e o regresso do pagamento das prestações pode ser difícil para algumas famílias", refere.

Por fim, a moratória pública termina no final de setembro. A maioria das prestações ao banco que estavam suspensas vão retomar a normalidade em outubro e há receios em relação a um possível aumento acentuado no crédito malparado.

Os banqueiros têm pedido a criação de medidas que possam preparar a transição do fim do regime de moratórias. Também a Deco tem apelado a que possa haver um plano que permita às famílias que se consigam adaptar ao regresso ao pagamento regular das prestações dos créditos.
No total, o montante de créditos em regime de moratória ascendeu a 45,7 mil milhões de euros no final de janeiro. Trata-se de um recuo face ao mês anterior e está distante do máximo alcançado em setembro de 2020, acima dos 48 mil milhões de euros.

Segundo os dados divulgados pelo supervisor bancário, naquele mês eram 408 mil as famílias com prestação de crédito suspenso. O montante total em moratórias por parte dos particulares desceu de 20,066 milhões de euros em dezembro para 19,993 milhões de euros em janeiro. Corresponde a 16,1% do crédito total devido pelas famílias. "É natural que tenha havido uma descida, porque algumas moratórias entretanto venceram e há famílias que terão retomado o pagamento da prestação ao banco por não quererem acumular juros", disse Filipe Garcia.

No caso da moratória privada no crédito ao consumo, algumas empresas deixaram de disponibilizar a medida a partir do final de setembro e outras no fim do ano passado.
Quanto ao setor empresarial, são 54 mil as empresas abrangidas pelas moratórias, o que corresponde a 22,4% dos devedores do setor empresarial. Cerca de um terço dos créditos concedidos a empresas está com o pagamento das prestações suspenso.

"Os dados hoje publicados indicam que, no final de janeiro de 2021, 54 mil sociedades não financeiras tinham empréstimos em moratória, no montante global de 24 mil milhões de euros [33,2% do total de empréstimos obtidos pelas sociedades não financeiras junto de instituições financeiras]", referiu o supervisor num comunicado.

Elisabete Tavares é jornalista do Dinheiro Vivo

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