Governo quer choque elétrico nas fábricas de automóveis

Portugal já produz minicamiões elétricos e autocarros a hidrogénio. Futuro da PSA Mangualde depende dos híbridos. Autoeuropa será a última a mudar.

Só um choque elétrico é que pode salvar a indústria automóvel em Portugal. Depois de as fábricas nacionais terem montado mais de 300 mil unidades no ano passado e da entrada na primeira liga dos produtores de carros, chegou a hora de responder às novas tendências do mercado.

Esta foi a principal mensagem deixada pelo ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, no dia e meio do roteiro automóvel, indústria que valeu 13,7 mil milhões de euros no ano passado.

"À medida que a procura de veículos e de mobilidade vá mudando, os produtores vão ter de se adaptar. Se a procura por veículos elétricos acelerar, estou convencido de que o que temos de fazer é ajudar as empresas portuguesas a acompanhar essa mudança, para serem capazes de responder", salientou o número dois do Governo no final do roteiro, em Vila Nova de Gaia. Autoeuropa, PSA Mangualde, Mitsubishi Fuso e CaetanoBus foram as paragens do programa, acompanhado pelo DN/Dinheiro Vivo.

É a partir de Gaia que a fábrica de autocarros da CaetanoBus toma a dianteira desta transição. Há dezenas de autocarros elétricos vermelhos prontos para serem exportados para o Reino Unido e para transportarem passageiros no serviço urbano. São inovadores ao ponto de os espelhos retrovisores terem sido substituídos por câmaras. A solução foi desenvolvida internamente pelos especialistas desta histórica empresa nacional, detida pela Salvador Caetano.

A inovação não fica por aqui: este ano, vão ser exportados os primeiros cinco autocarros com pilhas de hidrogénio, mais eficientes do que um veículo elétrico. Três destes autocarros foram comprados pela Toyota e vão circular em novembro na cimeira do G20, em Riade, na Arábia Saudita.

"Em 2021, deveremos chegar perto das 100 unidades e queremos mesmo que algumas delas circulem em Portugal durante a presidência da União Europeia", ambiciona José Ramos, o presidente do conselho de administração da Salvador Caetano. Para responder à procura pelos autocarros sem emissões, a CaetanoBus vai ampliar a outra fábrica da empresa, em Ovar, onde já são fabricados os chassis. Este investimento estará concluído em 2025, com a contratação de 100 pessoas.

Também cruciais para o futuro das cidades vão ser os camiões ligeiros fabricados pela Mitsubishi Fuso, no Tramagal. A empresa detida pelo grupo alemão Daimler já abraçou a corrente elétrica desde 2017, com a produção do camião elétrico eCanter, em séries limitadas de 100 unidades, para cidades como Lisboa, Nova Iorque, Amesterdão, Londres, Berlim e Tóquio.

Entre o final de 2021 e o início de 2022, será iniciada a produção em série destes "minicamiões" elétricos, que vão representar até 40% das montagens no Tramagal, prevê Jorge Rosa, líder da fábrica. Com soluções deste género, "as cidades no futuro vão ser mais silenciosas", no entender de Siza Vieira. Só que o ministro da Economia também ouviu várias queixas dos "motores" da economia.

No Tramagal, por exemplo, a linha de comboio que está mesmo à porta da fábrica ainda não é utilizada para escoar a produção e as estradas mais próximas são estreitas, aumentando os custos. "As nossas empresas precisam de um contexto de funcionamento favorável. As infraestruturas são também uma componente importante", lembra Siza Vieira num "recado" para o colega das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos. As maiores fábricas de automóveis, como a Autoeuropa e a PSA Mangualde, ainda não chegaram à nova era automóvel, embora estejam na luta pelo campeonato das baixas emissões.

Ano decisivo

2020 vai ser decisivo para a PSA Mangualde. Até ao final deste ano, terá de ser aprovado um projeto de 18 milhões de euros para a produção de carrinhas comerciais híbridas. Sem esse projeto, o futuro desta fábrica fica em causa. "A fábrica que estamos a imaginar para 2025 terá perto de 70% dos volumes de produção em versões eletrificadas. Sem esse projeto, ficaria com apenas 30% de volume, o que neste mundo não é viável. Tenho dificuldades em imaginar a fábrica sem conseguir este projeto", admitiu José Maria Castro, diretor-geral da unidade do grupo em Portugal. Se o projeto para Mangualde avançar, além de a fábrica ganhar mais espaço de produção, as primeiras carrinhas comerciais híbridas serão montadas a partir de 2023.

Na Autoeuropa, os modelos híbridos e elétricos ainda não têm data marcada para chegar, embora a visão do governante para 2030 já inclua carros sem emissões fabricados a partir de Palmela. "Mudar a produção para estes veículos depende da sua aceitação, da criação de infraestrutura que suportem a compra e utilização destes modelos e a evolução do mercado. Se a Autoeuropa mantiver os níveis de excelência" é uma questão de tempo" até os elétricos começarem a ser montados em Palmela, espera o diretor-geral, Miguel Sanches.

E novas fábricas?

O périplo de Siza Vieira às fábricas ainda foi realizado em carros a gasóleo, exceto na visita à Autoeuropa. No próximo roteiro, o ministro conta juntar mais etapas elétricas ao sinuoso percurso da indústria.

"Vamos continuar atentos às possibilidades de investimento nacionais e estrangeiras. A primeira coisa é criar condições para que as empresas que cá estão possam continuar a crescer e a afirmar-se internacionalmente. Se fizermos isso, seguramente outros vão verificar que este é um país excelente para poderem localizar as suas atividades, poderem investir, confiando na qualidade dos recursos humanos, da engenharia, da capacidade de inovar e de nos relacionarmos com o mundo inteiro."

Diogo Ferreira Nunes é jornalista do Dinheiro Vivo

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