Governo em silêncio sobre o Montepio

Plano agressivo de despedimentos e eventual impacto de notícia sobre fusão do Montepio com o BCP passa ao lado da tutela. Mutualista garante que subscrição de produtos de poupança não está a ser afetada.

O Governo fechou-se em copas no que toca o tema Montepio e não profere uma única palavra sobre os mais recentes desenvolvimentos em torno do banco, que fez levantar muitas sobrancelhas com o anúncio de que vai despedir centenas de trabalhadores. Apontado como um dos bancos mais vulneráveis ao impacto da crise atual, o Montepio avançou com um plano de reestruturação para cortar custos. A notícia de que o BCP estaria disponível para uma fusão com o banco - entretanto desmentida - lançou mais achas para a fogueira de incerteza em torno da instituição, que é detida pela maior associação mutualista do país.

Questionado sobre a situação em torno do Montepio, o Ministério do Trabalho da Solidariedade e da Segurança Social remeteu-se ao silêncio. Cabe a este ministério ainda parte da tutela da Montepio Geral - Associação Mutualista, que gere as poupanças de cerca dos 600 mil associados. Ao todo, o ativo líquido da Mutualista era superior a 3,4 mil milhões de euros, no final de 2019. Quanto ao Ministério das Finanças, também se escusou a proferir uma palavra sobre as intenções do banco de avançar com os despedimentos. Os dois ministérios também não se pronunciam sobre como está a ser feita a monitorização do possível impacto das notícias na evolução das poupanças geridas pela Mutualista.

Contactada, a Associação garantiu que "naturalmente que as notícias veiculadas a respeito do Banco Montepio ou da Associação Mutualista impactam a comunidade de associados". "Ainda assim, a variação registada na subscrição e reforço de modalidades é significativamente positiva", assegurou, sem dar mais pormenores, nomeadamente sobre pedidos de resgate dos planos de poupança. A Mutualista comercializa planos de poupança e proteção aos seus associados. Os produtos são distribuídos pelo Banco Montepio. Estes planos estão garantidos pelo ativo da Mutualista, que, no final de 2019, assegurava ter um grau de cobertura de 124 euros em ativo por cada cem euros de responsabilidades.

A Mutualista é também supervisionada pela ASF - Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões. Ontem, em audição no Parlamento, a presidente da ASF, Margarida Corrêa de Aguiar, indicou que já está a analisar o plano de convergência que a Mutualista entregou ao regulador com vista à integração com o regime da atividade seguradora, que só acontecerá em 2030.

Entretanto, a Mutualista realiza nesta quarta-feira a sua assembleia geral extraordinária para aprovação das contas de 2019 e alteração do regulamento dos benefícios dos associados. Se a reunião não tiver quórum, os associados voltarão a reunir-se no dia 15 de outubro. Em 2019, a Mutualista fechou o ano com prejuízos históricos de cerca de 400 milhões de euros.

Exposição à crise

O Montepio é visto como um dos bancos portugueses mais expostos aos setores mais afetados pela crise provocada pelas medidas adotadas pelo Governo no âmbito da pandemia. Em julho, a agência de rating DBRS baixou a notação da dívida de longo prazo do Montepio para B, o que corresponde a uma revisão em baixa de três níveis. No dia 6 de outubro, o banco vai apresentar aos trabalhadores o seu plano, que passa pelo encerramento de dezenas de balcões e pelo despedimento de até 900 trabalhadores.

O objetivo é cortar os custos em 20%. No primeiro semestre deste ano, o banco registou prejuízos de 51,3 milhões de euros, que comparam com um lucro líquido de 3,6 milhões de euros em igual período de 2019.

Questionado sobre se está preocupado com a situação em torno do Montepio, o Banco de Portugal não respondeu às questões do DN/Dinheiro Vivo (até à hora de fecho desta edição).

Quanto à Mutualista, garante que o banco está sólido. "O Banco Montepio dispõe de soluções de capital ajustadas às suas necessidades. Estas soluções passam pela otimização do capital existente no contexto regulatório, que também permite a sua adequação às circunstâncias", apontou em resposta a questões do DN/Dinheiro Vivo.

Quanto a encetar uma operação de consolidação, tanto a Mutualista como o banco negaram. "O Banco Montepio faz parte integrante do Grupo Montepio no seu todo, seja porque constitui a rede de distribuição da Associação Mutualista, seja porque o seu capital são as poupanças dos associados, seja porque é prestador de serviços à Associação Mutualista ou, ainda, porque os seus clientes são, fundamentalmente, os associados", disse a Mutualista." Por todas essas razões, o Banco assume para a Associação uma elevada relevância estratégica, constituindo um ativo cujo valor de uso é muito superior ao valor de mercado. O cenário de venda ou fusão não se coloca", concluiu.

Elisabete Tavares é jornalista do Dinheiro Vivo

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