Ferraz da Costa: "PRR pode reforçar distorções no mercado e criar elefantes brancos"

Pedro Ferraz da Costa, líder do Fórum para a Competitividade, lamenta a falta de visão de futuro e de ambição para o país. E não vê mudança com este governo, preso à esquerda, e sem uma reorganização da direita. Critica o alarmismo na gestão da pandemia e diz que é essencial rever a matriz de risco e dar menos palco a "especialistas". Imprevisibilidade, burocracia e justiça lenta e em constante mudança são "empecilhos à atividade económica".

A nota de conjuntura do Fórum para a Competitividade refere que no segundo trimestre houve clara recuperação da atividade, exceto nos serviços. O ministro das Finanças disse na semana passada acreditar numa recuperação económica robusta. É o que aí vem?
Depende mais do governo do que da classe empresarial. Se houver perspetivas de andarmos a entrar e a sair de confinamento, as coisas pioram com certeza. Se não, acho que vão recuperar - não é difícil crescer porque desceu-se bastante, ainda estamos abaixo do nível de 2019 e Deus queira que em 2022 se consiga chegar a esse nível. Era preciso ter atenção especial às exportações, o mercado interno vai depender fundamentalmente das decisões de saúde porque turismo e comércio têm um peso relativamente grande e são diretamente influenciados por isso. Se não houver depressa um descongestionamento, como os ingleses vão fazer e nós podíamos fazer quando acabasse o programa de vacinação, vamos perder o verão em termos turísticos e vamos ter uma recuperação mais lenta do comércio. Isso vai ser decisivo. Mas não é só o vírus que é difícil de prever, a Direção-Geral de Saúde (DGS) também é muito difícil de prever.

E dá informações por vezes contraditórias. Há um problema de comunicação e previsibilidade?
Há um problema de compreensão, há um problema quase estrutural porque os médicos de saúde pública sempre foram os parentes pobres da medicina e neste momento sentem-se as criaturas mais importantes do mundo e não querem sair da cena e da primeira linha dos noticiários - e os pivôs de TV fazem-lhes a vontade todos os dias. O tempo que demoram a dizer coisas banais, ao contrário do que tinham dito um mês antes e nada coincidentes com o que diz o colega a seguir, é impressionante, e a generalidade da população é muito ignorante nessas matérias. Houve mais notícias sobre uma variante que eventualmente é mais contagiosa mas muito menos perigosa - estamos a ter incomparavelmente menos mortos, se calhar já ninguém se lembra dos 300 mortos por dia, mas agora andamos em 3 ou 4, é 1% do que tínhamos, não é nada. Se nos lembrássemos disso não estaríamos na situação em que estamos, porque as pessoas ficam logo com medo de sair. É péssimo.

Já que falamos de pandemia, seria importante rever a matriz de risco, até para ajudar a economia?
Para ajudar a economia e as pessoas. Já viu quantos têm moratória? Como é que vão resolver essa montanha que têm em cima da cabeça? Era preciso voltar rapidamente à vida e não há muita razão para isso não ser feito. Eu lembro-me tão bem quando no princípio toda a gente dizia "enquanto não houver uma vacina isto não tem solução". Quando apareceu a vacina devia ter havido marchas nas ruas de agradecimento, mas ninguém agradeceu e veio logo uma série de especialistas, ou pseudo-especialistas, a dizer "ah, isto não é garantido". Garantida é a morte. Não há vacinas que sejam eficazes a 100%, mas o risco reduziu-se de forma impressionante, é indiscutível.

E estará o governo a pecar por atraso nesta revisão da matriz?
Eu nunca vi as sondagens que o governo mandará fazer de certeza a saber o que é mais popular, se tomar medidas ou não. Acho que estão convencidos que é mais popular tomar medidas, logo, tomam.

Os portugueses estão contentes em teletrabalho? É uma realidade que preocupa os empresários?
Então não estão? A maioria das pessoas está sem trabalhar há ano e meio. Uma das coisas mais difíceis vai ser voltar a hábitos normais. E não é só na administração pública, onde esse problema vai ser muito grande. Já trabalhavam muito pouco e agora desabituaram-se disso. Mas mesmo nas empresas privadas, em determinadas áreas, o trabalho ficou muito limitado e criou situações desagradáveis de viver. Nós temos atividade industrial, como a fabricação de medicamentos, que sempre funcionou a dois turnos. Tínhamos uma parte das pessoas a trabalhar em dois turnos em condições mais difíceis do que o normal - começar mais cedo, acabar mais tarde, tinha de haver um intervalo sem pessoas, um esforço especial de desinfeção. E os outros todos que eram colegas deles, com quem às vezes almoçavam, estavam em casa.

Criou-se aqui uma realidade de injustiça social, eventualmente?
Acho que sim, era desagradável. E para os que estão em teletrabalho, eu não ponho em causa o esforço. Mas fazer a mesma coisa que se fazia em teletrabalho é mais difícil.

Voltando à nota de conjuntura, fala também em algum pessimismo para os próximos trimestres, sobretudo por causa do turismo. É porque a pandemia se está a prolongar com esta quarta vaga?
Uma parte importante das nossas exportações são bens de consumo e, portanto, isso vai depender muito da conjuntura nos outros países europeus. Em alguns as coisas não estão a andar muito bem: Espanha, França, Itália também não. Portanto, temos dificuldades. Teríamos de ganhar quotas de mercado noutros países, o que é muito difícil neste ambiente de confinamento. Nós deixámos cair muito as nossas relações com os EUA. E é um mercado onde temos uma quota francamente abaixo das possibilidades. É um mercado ótimo, com muito poder de compra. Houve um tempo em que o crescimento dos têxteis-lar derivava fundamentalmente das exportações para os EUA.

Seria uma nova era a explorar agora com Biden?
Não é bem com Biden porque já era assim com Trump. A grande oportunidade é haver uma posição diferente de qualquer dos dois presidentes em relação à China. Vai haver uma alteração nas correntes comerciais a nível mundial e temos de nos preparar, na medida do possível, tirar partido disso e não sermos vítimas. Há coisas em que perdemos tempo; a parte portuária, transportes marítimos é sem dúvida uma área importante. Não são coisas que se façam muito rapidamente. Estes investimentos do PRR que têm de ser concluídos em prazos muito curtos não são bem o que precisávamos. A articulação de portos e ferrovia, enfim, são tudo coisas em relação às quais há grande pobreza de planeamento praticamente desde o 25 de Abril.

Do que precisávamos então?
Há dois problemas: um, mais conceptual, é que quando surge oportunidade de fazer investimentos estratégicos isso normalmente significa fazer o que não é economicamente viável. Se é estratégico é porque ainda não existe, não é assim tão importante, não é assim tão estratégico. De modo que a seleção de investimentos para estes programas, muito voluntaristas, para fazer no curto prazo dificilmente vai ao encontro das nossas necessidades de médio e longo prazo. Até podem vir a reforçar distorções porque vivemos em economia de mercado - mesmo que uma parte importante da população ache que era possível viver em comunismo ou numa república socialista -, as decisões que os agentes económicos vão tomando, não todos de uma vez, reduzem o risco e reorientam a atividade das atividades de hoje para as de amanhã. E é importante que as pessoas estejam despertas para os sinais dos tempos, tenham acesso a informação económica, deem importância e vejam o que vai ser melhor para elas em cinco ou dez anos, porque a maioria das boas decisões que se tomam nas empresas não se referem aos problemas de ontem, mas aos do futuro. Uma quantidade apreciável de dinheiro vai cair sobre a economia portuguesa e conjunturalmente isso vai ajudar muita gente, e em termos estruturais eventualmente levar a investimentos que em muitos casos não seriam os ideais. E depois há um aspeto mais fino nos projetos de inovação e novas tecnologias: se isso se vai dirigir a onde temos oportunidades que estavam a ser exploradas ou se vamos fazer coisas tão modernas e novas que ninguém sabe quais serão os resultados.

Está a referir-se a algum projeto em particular? Hidrogénio?
Posso referir-me aos hidrogénios, a muita coisa das economias verdes e azuis e das cores mais variadas, algumas com características para virem a ser elefantes brancos. E manifesto também a minha surpresa grande por não se fazer nada nalgumas coisas que são estratégicas e poderiam, somando-se a características económicas positivas, ser grandes apostas. Um exemplo evidente: a barragem do Alqueva atrasou-se porque não era muito evidente que fornecesse vantagens económicas suficientes para compensar o custo e os inconvenientes ambientais. Hoje ninguém pode recusar - e eu tinha dúvidas - que trouxe imensos aspetos positivos. É difícil imaginar o que seria aquela zona sem água. Aqui há tempos tinha separado a barragem da Rocha da Galé a jusante da barragem quase em cima do Pulo do Lobo. É uma bacia hidrográfica portuguesa. Podia-se fazer, porque é que não se faz? Na altura não havia financiamento, agora há. Há um projeto muito importante para melhorar a água no Tejo, as zonas onde hoje se passa a pé - é uma coisa assustadora. Não se faz porque o ministro do Ambiente é contra, porque são contra as barragens... faz-me confusão porque às vezes converso com essas pessoas e eles não sabem nada do assunto. Onde é que vão buscar aquela firmeza de convicções? É impressionante. Nós podíamos fazer agroalimentares de grande qualidade. Os produtos agroalimentares portugueses são do melhor que se pode fazer na Europa, há uma procura enorme, nós temos uma posição, uma quota muito pequena nos países do norte da Europa. Vendemos para a Alemanha menos de um décimo que a Espanha vende. Porquê? Nós temos mais água que os espanhóis. Podíamos aproveitar isso. Não temos essa ambição de crescer e de aproveitar. "Ah, isso implicava mais imigrantes". Está bem! Se não houver mais imigrantes qualquer dia temos metade da população.

O PRR deveria ter inscritos projetos desse tipo?
O da água era muito importante porque se deixamos desabitar mais o interior criamos uma situação ambientalmente insustentável. Aquilo arde tudo, vai-se transformando em matos e não há lá ninguém para tomar conta. Se vier de Trás-os-Montes até Alcoutim, se a tendência for a que foi até agora, da desertificação, de não haver crianças, não se percebe onde é que aquilo vai parar. E era muito fácil, porque há gente que sabe fazer os investimentos na indústria agroalimentar, são baratos por posto de trabalho, não absorvem muito capital e temos porto de exportação.

Que outros projetos gostaria de ver inscritos no PRR?
Nós vamos fazer uma conferência dia 21, encerrada pelo senhor Presidente da República, na qual vamos apresentar uma visão de algumas reformas estruturais que deviam ser feitas para melhorar a eficiência da economia, os resultados a obter com esses investimentos, e em profundidade vamos analisar um pouco mais o que se pode fazer em termos de digitalização na área da saúde. Há grande preocupação com a saúde, natural neste enquadramento e eventualmente até excessivo, e qualquer governo vai ser tentado a fazer mais. Se não melhorarmos os procedimentos, a gestão das unidades hospitalares, não há dinheiro que chegue. A digitalização tem de ser pensada para isso, não é para reproduzir em computadores o que já se faz em papel, mas melhorar a gestão.

Além da saúde que propostas há?
Vamos falar em temas que são um travão ao investimento português e estrangeiro.

Por exemplo? A parte fiscal?
A parte fiscal e a lentidão da justiça. Para um estrangeiro é completamente incompreensível que possa andar dez anos a discutir um assunto até o resolver. É um dissuasor absoluto. Aliás, começamos a notar algo relativamente surpreendente: os estrangeiros só querem fazer investimentos com verbas que lhes deem acesso à negociação de um contrato, porque acham que isso vai ser cumprido. Ninguém sabe o que o governo vai apresentar de novo no próximo Orçamento do Estado. Isso cria uma incerteza brutal. A maior parte dos ministros não faz a mais pequena ideia do que é a atividade económica porque não vem dessas áreas, não se interessa. Era difícil fazer pior nessas áreas do que aquilo que se faz com os constantes avanços e recuos e alterações na legislação. Já ninguém sabe como é que se tributa um Alojamento Local, as compras e as vendas dos imóveis, como é que as empresas se podem fundir, as perguntas não têm respostas seguras e as pessoas não confiam.

Seria esta também a oportunidade para descer o IRC às empresas?
Não se apanham moscas com vinagre, toda a gente sabe e o ministro das Finanças também. Era preciso que o governo estivesse disposto a controlar a despesa pública e não está, por razões políticas, porque acha que as pessoas que votam neles gostam mais de despesas públicas - e é capaz de ser verdade, como não pagam impostos... 58% das famílias não pagam. Enquanto tivermos um governo PS minoritário, sustentado no BE e no PCP não vai ser diferente, vão votar de acordo, até porque o que gostavam era de acabar com a iniciativa privada. Mas o que estamos a dizer é simplificar, introduzir segurança jurídica para as pessoas saberem a que estão sujeitas. Isso nem dá quebra de receita, na minha opinião até dá aumento, porque se as coisas funcionam melhor, as empresas têm melhores resultados. Seria completamente demagógico dizer que este é o momento para uma grande baixa do IRC. Isso só com mudança governamental.

Essa conferência vai marcar a agenda, sem dúvida, no dia 21. Estamos a falar de PRR e naturalmente a outras questões que importam nesta análise. Os empresários têm muitos deles criticado o facto de o PRR ser muito dirigido ao investimento público, às tais opções estratégicas que falava há pouco, e muito pouco à componente privada. Enfim, depois o Governo veio dizer que serão as empresas privadas a executar as obras públicas...
Sim isso é verdade, isso é verdade.

...Em que é que ficamos? Que análise é que faz quando olha para o PRR e as linhas que ele traça para Portugal? Que balanço, que análise faz?
Como não acho que o PRR seja a nossa jangada salvadora, não consigo ter um grande entusiasmo nessa discussão. Tem aspetos positivos, tem aspetos negativos que já falámos, de distorção de decisões de investimento. Vai dar com certeza muito desperdício, já se sabe que é sempre assim quando se fazem estas coisas à pressa e para estar pronto em pouco tempo é fatal, é assim. São opções que vão ser tomadas, normalmente em cima de um mau planeamento, porque se nós tivéssemos um bom planeamento de como é que devia evoluir a rede rodoviária, articular-se com a ferroviária, com os portos, se isso já estivesse feito, é evidente que era mais fácil agora acelerar. Agora, nalguns casos, vai fazer-se aquilo que já tiver projeto, independentemente de ser o melhor ou não. Às vezes quando se tem projetos já há muitos anos e não se fez é porque não era assim tão importante. E agora vai se fazer. Eu acho que aí é difícil. Acho que conjunturalmente esse dinheiro que vai cair sobre a economia portuguesa é evidente que vai sustentar a procura interna e, portanto, isso vai dar aí alguma animação. Eventualmente dará alguma inflação. É muito difícil prever exatamente quais são as medidas porque nós ultimamente temos tido má execução dos quadros comunitários. Quer dizer, do quadro comunitário anterior está 50% por gastar. Devia-se pensar porquê. Por um lado, são os critérios de elegibilidade que são irrealistas? Estou convencido que sim. Por outro lado, é porque fazer uma empresa em Portugal não é assim tão bom e portanto não há muitas manifestações de interesse e muito entusiasmo? Ainda vamos ter o 20-30 em cima, portanto, é muito dinheiro e eu gostava que pelo menos houvesse uma declaração governamental solene e com, enfim, um compromisso forte com uma taxa de crescimento que se quisesse obter a 4 ou 5 anos com este dinheiro todo a que vamos ter acesso e que se vai gastar.

Falta também um pacto de regime para a próxima legislatura?
Temos estado a mostrar todos os dias que nunca haverá pacto de regime. António Costa não perde uma oportunidade para dizer que não haverá. Rui Rio que ainda não percebeu ou resolveu insistir, mas de facto parece que não há.

Não tem qualquer esperança nessa possibilidade, pelas suas palavras?
Não vejo muito essa possibilidade. Aliás, acho que foi um sinal péssimo o acordo entre o PSD e o PS sobre a taxa de IRC ter sido rasgado pelo Dr. António Costa praticamente no primeiro dia a seguir a ter ganho as eleições internas do PS.

Também não vê certamente a direita como uma alternativa neste momento, ou vê? Que análise é que faz daquilo que tem sido a posição da direita e a forma como se tem ora reunido, ora desunido?
Não sei bem o que é que é isso da direita. Há muitos anos que acho que enquanto não houver uma diminuição grande do peso do PSD dificilmente a área à direita do centro se organiza.

É preciso um redesenho da direita em Portugal?
É preciso um redesenho... Aliás, não sei se é da direita porque um centro alargado construiu uma grande parte do progresso que a Europa viveu nas últimas dezenas de anos. Não era direita nem esquerda. Aliás, as pessoas da minha geração, que nasci logo a seguir à guerra, olhavam para qualquer país europeu como se fosse governado da mesma maneira. Não havia mudanças radicais entre o centro-esquerda e o centro-direita e isso não afetava a vida nem das pessoas nem da economia nesses países. Não havia grandes diferenças nem havia discussões extremadas nem o radicalizar de posições a que se chegou agora. Que se chegou agora e que não foi só na Europa. Mesmo nos Estados Unidos também as coisas radicalizaram-se brutalmente e nos sítios onde ainda não se radicalizaram vão em vias disso. Quem está na oposição ataca os governos com uma energia como se fosse uma luta de vida ou de morte. E nós aqui também sofremos disso, sofremos muito de haver muito pouca ambição de crescimento. Acho que se construiu uma história, ou que se construiu uma narrativa, a seguir ao 25 de Abril, de que tudo o que nós fazíamos no passado era muito mau, em termos de crescimento económico, isso não é verdade, e noutras coisas também não, mas refiro-me concretamente a essa. Não há razão nenhuma para nós não crescermos há 20 anos. Não acho que o sistema de ensino seja assim tão mau ou que as pessoas sejam tão desprovidas de capacidade de produzirem coisas melhores do que as que se fazem atualmente.

E a prova é que o talento português é requisitado pelo mundo.
Desde que saia deste caldo de indefinição, burocracia e complicação. O problema da burocracia é muito complicado porque reflete a posição de grande parte da população contra a atividade privada e as empresas. A pessoa que no guiché nos levanta dificuldades quando queremos fazer qualquer coisa acha que tem uma missão sagrada de impedir que mais um malandro consiga abrir uma indústria ou fazer uma casa.

Isso não vai mudar, ou vai, com o PRR e a digitalização, com este investimento na simplificação da administração pública?
Nos processos de licenciamento já se tentou tudo dentro do modelo existente. José Sócrates, que era do PS, tentou criar os Projetos de Interesse Nacional para ultrapassar essas barreiras. Nem assim conseguiram, portanto a alternativa é ir aos processos de licenciamento, estudar isso e fazer por via digital. Definir de forma simples e objetiva o que não se pode fazer. Eu teria mais confiança numa máquina do que numa comissão ou repartição.

As exportações e a internacionalização das empresas serão a alavanca do tal crescimento robusto de que fala o ministro das Finanças? O Estado está a fazer o que é preciso para dinamizar exportações e internacionalização, quer através da AICEP, quer com os instrumentos que tem? E como é que podemos preparar o crescimento também com essas alavancas?
Eu acho que não há uma linha clara de orientação governamental em relação a estas matérias. Coordenação entre a Ciência, os Negócios Estrangeiros, a Economia, as Finanças... e acho que com certeza que o ministro dos Negócios Estrangeiros esteve muito sobrecarregado durante a presidência portuguesa e, se calhar, tinha sido uma ocasião privilegiada para encontrar uma tutela que pudesse acompanhar com mais facilidade a AICEP do que o ministério dos Negócios Estrangeiros.

Devia ter passado para a Economia, como se chegou a falar?
Acho que era o mais natural.

Em relação àquilo que será a pós-presidência portuguesa...
Mas eu acho que a AICEP faz um bom trabalho dentro das condições existentes. As condições existentes é que deveriam ser alteradas.

E agora que acabou a presidência portuguesa que oportunidade temos de dar um empurrão novo?
Ter uma remodelação.

Ter uma remodelação que se falou tanto nos últimos dias, nomeadamente na última semana.
Sim, acho que sim.

O país precisa dessa remodelação governamental.
Precisa de entusiasmo.

Não sente esse entusiasmo no governo atual?
Não é possível sentir ao fim destes anos todos. Nem sequer pode ser visto como uma crítica. Eu acho que os ministros que fazem alguma coisa e que estão expostos ao público e à ribalta são muito, muito poucos. Quem só conheça de ver a televisão, julga que é o primeiro-ministro e dois ou três ministros. Enfim, é verdade que Portugal inteiro é mais pequeno do que Paris, em termos económicos, mas se calhar precisávamos de uma equipa maior porque temos muita complicação para desmontar, se quiserem desmontar as complicações.

E se tivesse a faca e o queijo na mão, se fosse agora, vamos imaginar, primeiro-ministro, qual seria o primeiro ministro que remodelaria?
Ah, não! Isso tinha que substituir todos e convidar de novo, não ia agora fazer saídas seletivas.

Portanto, não há nenhum com o qual esteja particularmente desagradado naquilo que toca, por exemplo, às pastas económicas, finanças, trabalho...
Nesse caso, remodelava era o primeiro-ministro, se eu estivesse em posição de remodelar era sinal de que ele já cá não estava. Eu acho que o futuro do país não é uma sucessão de curtos prazos. E acho que não há uma visão estratégica do futuro.

Em nenhum órgão de soberania?
Em nenhum? (silêncio) Nós temos um sistema político difícil de perceber. Isto do semipresidencialismo é assim um... não é uma descoberta famosa e está neste momento a passar um período complicado, com o primeiro-ministro a querer demonstrar na pratica e perante toda a gente que quer o Presidente da República mande no Estado de Emergência ou não, o Governo é que faz o que quiser. E acho que é um sinal de dessintonia que não é bom. Quer dizer, não sei se algum dia eles ganham alguma coisa com isso, não acredito que o país ganhe. Até porque, ainda por cima, acho que o primeiro-ministro está do lado errado.

Porque é que diz isso?
Porque está a defender os confinamentos. Não me estou a pronunciar se é delicado ou não.

Então concorda com a expressão do Presidente da República quando diz que não podemos voltar para trás?
Concordo absolutamente. Aliás, acho que a afirmação em que eu me revejo é do novo ministro da Saúde britânico: acabou, não há mais, deite a máscara fora, estamos vacinados e agora é de outra maneira.

Que diz também "temos de ser honestos, não vamos conseguir acabar com a covid", qualquer coisa desse género?
Como também não acabámos com a gripe, como também não acabámos com imensas coisas. Acabámos com algumas. Acabámos com a paralisia infantil. Eu, aliás, não percebo como é que há pessoas com tão pouco conhecimento de causa que são tão encarniçadamente contra a vacinação.

O que é que falta? Literacia sobre a vacina? Pedagogia?
Falta uma política de comunicação decente em relação a assuntos importantes. Se a política de vacinação é importante para o país, devia tratar-se de determinada maneira. Se eu fosse ministro da Saúde, proibia esses especialistas todos de virem para a televisão permanentemente dizer coisas fora de uma política de comunicação. Se se acham importantes, concorram ao prémio Nobel, façam trabalhos de investigação, publiquem, mas não venham para ali dizer banalidades daquela maneira, criando as maiores das dúvidas. É importante que se atinja um limiar de imunidade e agora vêm dizer que se calhar se for vacinado não fica protegido? A maior parte das pessoas não percebe que o não ficar protegido a que eles se referem são 4 ou 5% dos casos e nesses 4 ou 5% são formas muito suaves da doença. O que as pessoas associam imediatamente são aquelas imagens terríveis das câmaras mortuárias em Itália que nos mostravam várias vezes por dia no princípio da pandemia. Portanto, há aqui uma falta de capacidade e de autoridade da ministra da Saúde e da diretora-geral de Saúde em relação a este assunto que é confrangedora.

No caso da coordenação ser militar, como é que tem visto a atuação de Gouveia e Melo enquanto coordenador do processo de vacinação e se foi uma solução, ou não, face a essa comunicação?
Com certeza que foi. Aliás, bastou pôr uma pessoa que soubesse o que é que era organizar um programa de forma sistemática e controlar a sua execução para que os resultados começassem a aparecer. Nós não somos um povo de malucos. É possível fazer as coisas bem feitas. Agora, quando temos como chefes os malucos, é evidente que as coisas correm mal.

Quando fala com os empresários, com os gestores, que reúne no Fórum para a Competitividade, quais são as grandes preocupações daqui até ao final do ano? O que é que os empresários sentem que é o momento mais doloroso, a maior dificuldade em dar a volta à situação, como é que pretendem atuar, no fundo, resistir, a tudo isto que está a acontecer?
Nós no Fórum temos mais contacto com empresas de maior dimensão ou no caso das PME através das associações setoriais. Há muita atividade. É evidente que as pessoas têm dificuldades. Eu acho que o período mais difícil dos que estão na exportação foi o período em que praticamente não havia viagens aéreas. Isso para muitas das atividades é dramático. A partir do momento em que passou a ser possível viajar, com todas as limitações, de fazer não sei quantos testes, tudo isso aumenta as despesas, implica demorar mais tempo na preparação, mas há muita gente que conseguiu já voltar a uma atividade mais parecida com o que era normal. E são esses é que estão na base desse crescimento melhor que nós tivemos ultimamente. O que é que as pessoas... alguns estão preocupados com as moratórias...

Era precisamente o meu tema seguinte, as moratórias. O ministro Siza Vieira disse a semana passada, num debate também com o DN, que seria dado mais tempo às empresas que estão em maiores dificuldades, nomeadamente o turismo e a restauração, mas depois há todo um universo de empresas que vai para além desses setores. O que é que poderia ser feito, como é que deveria ser preparado...
Eu acho que o Governo não vai tomar decisão nenhuma antes das eleições e da discussão do Orçamento do Estado. Por causa disso, não é que não pudesse tomar. A maior parte das empresas estarão preparadas para pagar normalmente quando funcionarem normalmente, ou seja, deixa de haver confinamento, voltamos à vida normal. Há algumas que vão continuar ligadas à máquina ou então acabam, que é o caso de uma parte do comércio e do turismo, e a parte dos particulares, que eu acho que se deixou crescer para um nível muito elevado, vai depender fundamentalmente da evolução da conjuntura geral, ou seja, se não houver um aumento do desemprego e se não houver uma baixa do valor do imobiliário, acho que não vai haver grandes problemas. Há sempre gente para chorar e para dizer que vem aí uma grande desgraça, mas, quer dizer, se a política conjuntural tomar na devida conta, como tomou até agora, o esquema dos setores que estão numa situação praticamente sem atividade, praticamente sem receitas, acho que aí não vai haver grande problema. É evidente que isso significa que nós, se calhar, os bancos são capazes de perder um quarto ou um quinto daquelas verbas.

Algum conselho que gostasse de deixar à banca?
Ah, eles não precisam de conselhos! Apesar de tudo o que se possa dizer de alguns casos especiais, que têm outras razões, a guerra da Caixa com o BCP... No geral, os problemas têm vindo a resolver-se. O que é importante é que não se criassem uma série de novos.

Vamos passar agora para o tema do associativismo e das confederações empresariais. Perguntar a sua opinião sobre a recém-criada Business Roundtable Portugal, que junta 42 grandes empresas. Para o que é que serve, na sua opinião? É útil?
Eu acho que serve para exprimir o ponto de vista que essas empresas têm e que é muito pouco avançado pelas confederações patronais.

Mas é de algum modo uma demonstração de que as confederações não cumpriram o seu papel, falharam?
Eles não dizem que não cumpriram. Se calhar o que dizem é que há uma série de assuntos que são importantes para eles que não são tratados por elas.

Por exemplo?
Os aspetos mais sofisticados da atividade, quer da parte fiscal, quer do mercado de capitais, de operações cambiais, enfim, há muitas coisas que são importantes para as grandes empresas e que não são para as pequenas e que não são de todo tomadas em consideração pelos governantes. Também ninguém os defende.

Portanto, faz sentido o surgimento desta Business Roundtable Portugal?
Estas coisas fazem sempre sentido. Então eles estiveram calados durante 40 e tal anos, acha que agora não teriam razões para falar?

E o Conselho Nacional das Confederações...
Não, mas ouça, há uma coisa importante. Enquanto estive na CIP sempre representei muito essa gente e, portanto, as pessoas sentiam-se representadas. Depois deixaram de se sentir e agora fartaram-se de estar calados. Não me parece que tenham uma atitude muito agressiva em relação às confederações patronais, que se têm deixado acantonar muito no setor da concertação social, que a estes não interessa nada. Eles pagam todos muito acima dos contratos coletivos, portanto, não é uma coisa que os afete muito. Quanto às regras sim, mas as confederações patronais também não conseguiram evitar que as regras andassem para trás, refiro-me neste caso aos bancos de horas e essas coisas todas. Para as empresas industriais de grande dimensão exportadoras eram muito importantes.

São as confederações que precisam, no fundo, de se modernizar, chamemos-lhe assim, para conseguirem responder a estes empresários e a estas urgências?
Eu acho que elas dificilmente se modernizam na configuração atual. Nós não temos dimensão para ter mais do que uma.

Surgiu inclusive o Conselho Nacional das Confederações, tentando reunir e dar uma voz única.
Sim. Espero que isso seja o primeiro passo para uma fusão.

Uma fusão de todas elas, todas juntas. Esse seria um bom caminho para defender o interesse das empresas?
É. Os irlandeses fizeram isso há 30 anos.

Portanto, já vamos lá por atraso, é isso?
Sempre.

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