"Estamos a investir dois milhões para renovar os escritórios em Sintra. Vamos inaugurar em junho ou julho"

É a primeira entrevista de Marcelo Nico, novo diretor-geral da Tabaqueira, que acaba de chegar a Portugal vindo da África do Sul. O argentino quer tornar a fábrica de Albarraque um centro de competências para o mundo em novas áreas, trazer mais investimento e, apesar da crise, admite contratar.

Quais as três grandes linhas estratégicas orientadoras que pretende implementar na empresa?
Primeiro, sinto-me honrado de vir trabalhar aqui para Portugal para a Philip Morris. Estou há 20 anos na Philip Morris Internacional [PMI], os últimos nove anos em África, liderando oito países. Fico feliz de voltar para a Europa, antes já tinha trabalhado na Suíça e na Itália, e a Tabaqueira é uma empresa muito importante no contexto português e uma das maiores exportadoras. Tem quase cem anos de história e é muito relevante no contexto da PMI. A fábrica de Sintra produz 30 mil milhões de cigarros que são distribuídos em 23 países. Em termos das linhas estratégicas, a primeira é construir uma ponte de diálogo novo com as autoridades reguladoras e políticas. Nem todos os produtos de tabaco ou de nicotina são iguais, há alternativas. Temos a oportunidade de ter um impacto positivo nos fumadores e na saúde pública em geral. Isso já foi reconhecido pelas autoridades no mundo. É importante que aceleremos esse diálogo com as autoridades reguladoras.

O que é está a falhar no diálogo com as entidades reguladoras, em Portugal?
Não acho que está a falhar, acho que podemos acelerar. A transformação da indústria do tabaco pode ser mais rápida e as soluções para a realidade dos problemas do tabagismo podem ser implementadas com maior velocidade. Há um pouco menos de dois milhões de fumadores em Portugal e há 300 mil que já mudaram para alternativas. O IQOS tem muito sucesso. Mas a maior parte dos fumadores não sabem que existem alternativas ou não sabem as diferenças. Considero que um fumador deveria conhecer as diferenças entre um produto com combustão e um produto sem combustão e depois escolher. Se queremos diminuir o consumo de cigarros - e nós na Philip Morris queremos que se reduza, queremos até que acabe em alguns países no prazo de uma década - devemos ter alternativas. A melhor é a cessação tabágica. A segunda melhor é a opção por um produto sem combustão. Ora, é aqui que entram as autoridades reguladoras. Se há produtos menos nocivos, substanciados por evidência científica e já avaliados por entidades reguladoras, não se deveria dar essa informação às pessoas? Não é proibindo que se vai acabar com o consumo de cigarros. A resposta é simples: promover alternativas menos nocivas, como tem sido feito nalguns países como os Estados Unidos e Inglaterra. É esta a minha principal prioridade estratégica: uma nova era de diálogo; políticas pioneiras, reconhecendo que é na promoção de alternativas e não na indiferenciação - ou na proibição - que está a resposta. Portugal já foi pioneiro e progressista na área de redução de riscos. Deve voltar a sê-lo e estou empenhado em que volte a sê-lo. Acredito que, se tivermos um maior diálogo, com mais informação e baseado na ciência disponível - e não só a ciência da PMI onde já temos 400 cientistas, mas de toda a ciência -, podemos acelerar muito esse impacto. Nalguns países, em dez a 15 anos, poderíamos não ter fumadores, mas isso não pode ser só uma empresa a fazer, mesmo que seja a maior empresa de tabaco do mundo. Isso é a prioridade número um.

E quais são as outras duas prioridades estratégicas?
As outras duas são o papel e a posição da Tabaqueira dentro da PMI. Quando eu estive na África do Sul queria levar investimentos da PMI para lá. Todos os mercados da PMI estão a tentar ter investimentos. Nos próximos anos é fundamental continuar a trazer investimentos da PMI para a Tabaqueira. Desde a privatização, a PMI investiu 370 milhões de euros, foram cerca de 15 milhões de euros por cada ano, na Tabaqueira. Eu quero que isso continue. A Tabaqueira teve muito sucesso no ano passado. Não só com as alternativas, como o IQOS como alternativa ao cigarro, mas também na produção. Aumentou as exportações em 13%, num ano como o ano passado. Eu quero trazer investimentos. Para mim é fundamental. E isso está ligado com a performance no mercado, com a performance da nossa filial aqui. Claro que o contexto regulamentar tem um papel, porque quanto mais certezas temos no contexto onde operamos mais fácil é convencer a PMI a trazer maiores investimentos.

Trazer investimentos para Portugal pode passar por uma linha de produção do IQOS, como referiu o CEO mundial ao DN?
Essa é uma pergunta muito interessante. Porque o nosso futuro é claramente sem fumo, vamos continuar a trabalhar nisso. Na verdade, a fábrica de Sintra é das melhores que temos no contexto da PMI em performance. Há pouco mais de um ano fechou a fábrica da Alemanha, o que nos permitiu incrementar o volume de produção e exportação. Há duas oportunidades: uma com os produtos atuais e a produtividade que temos na Tabaqueira; a outra é que a partir de Portugal exportamos serviços. Temos centros especializados em finanças daqui para o mundo inteiro, temos centros de procurement, através do qual fazemos serviço de compras para Portugal, mas também para a Europa e para o mundo; e temos centros de tecnologia. Estamos a aumentar a quantidade de funcionários na Tabaqueira que trabalham com tecnologia, a nível global. O investimento na Tabaqueira é no centro de produção, mas também está a aumentar noutras áreas de negócio, onde a excelência dos profissionais portugueses se destaca. Temos a oportunidade de continuar a gerar emprego. Nos últimos três anos aumentámos em mais de 300 funcionários (2017-2020). Agora somos mais de mil pessoas a trabalhar na Tabaqueira, para Portugal e para o mundo.

A Tabaqueira quer ser uma espécie de centro de competências da Philip Morris para o mundo?
Absolutamente. Agora já é em certas áreas e essas áreas podem continuar a crescer. Nesse aspeto Portugal é um bom destino por ter talento.

E qual é a terceira linha de aposta para o futuro?
A terceira área é continuar o papel da Tabaqueira na sustentabilidade, na diversidade e na inclusão. Temos muitas iniciativas, na sustentabilidade da fábrica, mas também na forma de trabalhar, na diversidade e na inclusão. Na Tabaqueira 4% das posições de management são ocupadas por mulheres, um número significativo, e temos de continuar a crescer. A Tabaqueira, pela dimensão que tem aqui em Portugal, tem oportunidade não só de ser sustentável, inclusiva, como um exemplo enquanto cadeia de valor. Também temos de trabalhar nisso. Ser também um exemplo na transformação para um mundo smoke free, em diálogo com o governo, e um exemplo de sustentabilidade. Acabámos de inaugurar um painel fotovoltaico no parque da Tabaqueira que produz 10% da energia utilizada na fábrica. Um investimento de pouco mais de 1,5 milhões de euros e já permitiu diminuir as emissões de CO2 em 20%. Com esta opção já acelerámos dois anos o nosso objetivo, ou seja, a PMI quer ser neutra em carbono em 2030 e em Portugal vamos conseguir isso dois anos antes da PMI. Na sustentabilidade, por exemplo, 99% dos resíduos da fábrica são reutilizados, uma parte energia renovável.

Haverá uma central de biomassa?
Estamos neste momento a fazer estudos de viabilidade para mudar as nossas caldeiras para biomassa, para reduzir as emissões de CO2. Temos vários projetos a decorrer para acelerar a redução de emissões de CO2. A mudança das caldeiras para biomassa é uma delas. A outra são alguns projetos que ainda estão em fase de viabilidade, mas devido à covid um pouco atrasados.

Como têm mantido a produção mesmo em pandemia e como têm adaptado a empresa a esta nova realidade?
Quando a pandemia começou acho que houve duas coisas que foram fundamentais para nós. Uma foi a segurança dos nossos funcionários. Todas as posições que podem ser feitas remotamente estão a trabalhar de forma remota. Por exemplo, em março do ano passado eu estava na África do Sul, a covid-19 ainda não tinha chegado, mas já estávamos a trabalhar de forma remota porque a PMI viu a tendência e disse a todas as filiais para começarem a trabalhar de forma remota. Isso também permitiu que o nosso centro de produção, onde as pessoas têm de ir fisicamente, tivesse sistemas de segurança que permitiram que nenhum dos nossos funcionários fosse contagiado com covid no espaço do trabalho, continuando a produção e até aumentá-la durante o período também de covid. Agora, estamos a delinear as futuras formas de trabalhar. Por exemplo, as forças de vendas não vão voltar a trabalhar 100% na empresa, há 200 funcionários que não vão voltar a trabalhar como antes. Vão trabalhar, pelo menos em metade do tempo, de forma remota. Temos práticas de trabalho novas, como resultado da aprendizagem deste período, que nos permitem ser mais eficientes. Para crescer, e em Portugal o nosso objetivo é continuar a trabalhar com IQOS, continuar com alternativas de smoke free, continuarmos a introduzir novidades e alternativas ao tabaco e vamos ter inovações ao nível dos dispositivos. Divulgámos, há duas semanas no Investor Days, os novos equipamentos que estão a chegar a alguns mercados, e vão chegar também a Portugal.

Esses novos dispositivos vão chegar quando a Portugal?
Ainda não posso dizer quando chegarão. Mas Portugal é um mercado de topo da PMI para o IQOS. No mundo, foi o quarto mercado onde o IQOS foi lançado e hoje o IQOS já está em 64 mercados. Quando vai chegar depende da disponibilidade, devido à situação global que vivemos.

Mas espera que seja no primeiro semestre deste ano?
Face à pandemia, não será já no primeiro semestre deste ano.

Que vantagens terão os novos dispositivos face aos anteriores? E serão mais baratos?
É uma tecnologia de indução, uma tecnologia diferente da tecnologia atual do IQOS. Vai complementar a oferta. Se queremos que um bilião de fumadores no mundo mudem para alternativas então não pode haver uma única alternativa. Temos de ter uma série de produtos porque os consumidores são diferentes. Precisamos de ter alternativas de preço, de tecnologia. Sempre com a mesma base, ser um produto sem combustão, ou seja, gera menos componentes nocivos.

E em relação ao preço, será mais baixo do que o dos modelos do tabaco aquecido IQOS?
Ainda não definimos o preço para o mercado português. Mas, como digo, hoje temos o IQOS e temos mil utilizadores novos a cada mês e vamos continuar a trabalhar neles nos próximos meses. No ano passado tínhamos 250 mil utilizadores a 300 mil e continuamos a crescer em número de fumadores que deixam de fumar tabaco e passam a usar IQOS.

E o senhor fuma?
Não. Eu não fumo. Nem IQOS nem tabaco.

A pandemia ainda vai durar em 2021. Que mais será preciso mudar na empresa para lidar com mais um ano de covid?
Temos de aumentar o diálogo e temos de ser muito mais flexíveis do que éramos antes. Não esperamos que os nossos funcionários voltem a trabalhar exatamente como faziam antes. Estamos a investir quase dois milhões de euros para renovar os nossos escritórios em Sintra. Vamos inaugurar os novos escritórios em junho, julho. São espaços abertos, de interação entre as pessoas, e têm menos espaço físico definido para cada um e mais espaços comuns. A nossa expectativa é que os funcionários possam ter a liberdade de escolher quanto tempo vão trabalhar fisicamente no escritório, quanto tempo vão trabalhar de forma remota. Vamos dar aos funcionários a possibilidade de optar por um percentual de tempo para trabalhar de forma remota e estamos a definir, neste momento, se vai ser 40% em casa e 60% aqui ou 60% em casa e 40% no escritório. É uma transição para um modelo novo de trabalho e de futuro.

A obra estava planeada ou foi acelerada por causa da pandemia?
Foi acelerada por causa da pandemia. Mas temos sempre investimentos no escritório porque temos mais 300 funcionários do que tínhamos há três anos. E nos planos deste ano o número total de funcionários pode até aumentar, continuar a crescer. Continuar a aumentar o investimento, continuar a aumentar a exportação, continuar a aumentar o emprego. E como referi não só exportação de produtos, mas também exportação de serviços para o resto do grupo PMI. E vamos continuar a trabalhar na diversidade das forças dos nossos funcionários. E temos mais mulheres nos cargos dirigentes da empresa.

Tem na sua missão os temas da sustentabilidade, incluindo o equilíbrio de género. O que pretende fazer exatamente?
A Tabaqueira está a fazer muito e tem planos sólidos para o continuar a fazer. A Tabaqueira é a única empresa em Portugal certificada pela EQUAL - SALARY Foundation, que certifica que homens e mulheres, pela mesma função, têm o mesmo salário. Fizemos o mesmo na África do Sul, e a PMI é certificada globalmente. Fiquei orgulhoso de o ter feito na África do Sul, ter acelerado a inclusão e a diversidade, e quero continuar a fazer isso aqui, na Tabaqueira. Ainda há muito mais que podemos fazer, até sustentabilidade relacionada com o negócio. Sabe que em 2023 todos nossos dispositivos eletrónicos vão estar equipados com tecnologia de verificação de idade? Vamos ter possibilidade de verificar se o utilizador é um adulto e é um passo enorme para prevenir a idade de início de utilização de produtos de tabaco e/ou nicotina.

O que aprendeu nos mercados africanos e que trouxe consigo na mala de viagem para cá?
Uma das coisas que eu aprendi foi a proximidade com as pessoas e isso é o que eu trago também para aqui e também uma certa flexibilidade e velocidade na adaptação. As coisas mudam rapidamente em África e aqui. Quando trabalho em África tenho de escutar muito e ter maior flexibilidade nas decisões. Isso é o que a África me deu nos últimos nove anos em que lá estive.

Voltando a Portugal, como analisou o plano de desconfinamento a "conta-gotas" apresentado pelo governo e as ajudas anunciadas para as empresas?
Os incentivos para as empresas para o investimento e a geração de emprego são fundamentais. Estou cá há dois meses e meio e tenho ainda pouco contexto. Mas, com certeza, planos de incentivo para as indústrias e geração de emprego são fundamentais, tem de se acelerar o movimento económico de novo.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG