Estado emprega cada vez mais. Militares, políticos, chefes e gestores de topo lideram

Governo reforça posição como grande criador de empregos em Portugal. Forças Armadas ajudam com maior aumento da década. Médicos, enfermeiros e professores, idem.

A criação de emprego em Portugal, no terceiro trimestre (face a igual período de 2020, mas até de 2019, pré-pandemia), está a ser claramente liderada por atividades e profissões do setor público, incluindo as Forças Armadas, mostra o Instituto Nacional de Estatística (INE), nos resultados do inquérito ao emprego relativo ao período de julho a setembro deste ano. O aumento de cargos políticos e de chefias de topo (público e privado) também é de assinalar.

Com esta ajuda, o emprego total lá bateu novos recordes: teve a maior subida percentual homóloga desde 2011 (pelo menos), registou a maior subida em termos absolutos e com isso atingiu-se o maior volume de postos de trabalho da década, o que levou o governo a celebrar.

O emprego na administração pública em sentido estrito (atividades onde só o Estado está presente, portanto, sem contar com Educação e Saúde, já que nestes há mercado privado e concorrencial) aumentou uns expressivos 19% no terceiro trimestre deste ano comparativamente ao mesmo trimestre do ano passado.

Neste grupo estão ainda os funcionários dos serviços da Segurança Social pública, pois não há uma Previdência universal privada.

Este universo público em sentido estrito conta agora com mais de 353 mil pessoas (é cerca de metade da função pública toda), resultado do crescimento recorde de 19% no terceiro trimestre que bate o anterior recorde registado no segundo trimestre deste ano (17%).

Como referido, o emprego total na economia portuguesa bateu vários recordes, deu ontem a saber o INE. Aumentou 4,7% entre o terceiro trimestre de 2020 e igual período deste ano, atingindo um total de 4,9 milhões postos de trabalho.

Trata-se do valor mais elevado desde 2011, mas a ajuda do setor público está a ser decisiva, evidencia o INE.

No ano terminado no terceiro trimestre de 2021, a economia portuguesa somou mais 219,7 mil empregos (outro recorde nas séries analisadas). No entanto, embora haja sinais de vitalidade em várias partes da economia e do setor privado, as atividades que mais contribuem para a subida recorde do emprego são as do setor público, sem sombra de dúvida.

"Administração Pública e Defesa; Segurança Social Obrigatória"

O INE mostra que o segmento "Administração Pública e Defesa; Segurança Social Obrigatória" ofereceu mais 57,3 mil empregos à economia entre o terceiro trimestre de 2020 e igual período deste ano. Equivale a mais de 25% do aumento total nacional.

Logo a seguir, surge o subsetor da "Educação", com um contributo de quase 53 mil postos de trabalho. Como referido, aqui estão as escolas e universidades públicas, mas também todo o setor privado, cuja dimensão é significativa.

No entanto, o governo assinala que tem vindo a reforçar este grupo de profissionais. Por exemplo, o último inquérito sobre o emprego público dizia que haveria no País cerca 167 mil professores (públicos), contando com docentes do ensino universitário, dos politécnicos, educadores de infância e docentes do básico e secundário.

Este universo aumentou em quase cinco mil postos de trabalho no primeiro semestre do ano. Na próxima segunda-feira deverá haver dados oficiais atualizados sobre este contingente de funcionários, referentes ao terceiro trimestre.

Forças Armadas, por exemplo

Os novos dados do INE também mostram a dinâmica do emprego público segundo outros critérios.

As profissões das Forças Armadas, por exemplo, registaram um aumento impressionante de 52% no terceiro trimestre, também aqui a maior subida de que há registo nestas séries do INE que abrangem uma década. Segundo o instituto, num ano, o país ganhou mais de 10 mil militares. O contingente está a crescer desde que começou a pandemia (primeiro trimestre de 2020).

A classe política e dos decisores de topo (gestores e diretores do público e privado) também engordou. Aqui, o aumento homólogo foi superior a 23% (recorde-se que a média nacional é uma criação de emprego de 4,7%), tendo o País ganho 64 mil políticos e chefes em apenas um ano. São agora mais de 337 mil no total.

"Especialistas das atividades intelectuais e científicas"

A classe profissional que mais contribuiu para o bom andamento do emprego foi a dos "especialistas das atividades intelectuais e científicas", que deram mais 119 mil empregos ao País (mais de metade do aumento nacional), uma subida de 11%.

Este crescimento acelerado reflete o reforço nas classes docentes do público e, sobretudo, a contratação de médicos, enfermeiros e outros profissionais de Saúde por causa da pandemia. Emprego público, uma vez mais.

O governo evita mencionar este efeito do emprego público na economia. Mas este já não é propriamente novo. É sentido há alguns meses, mas agora parece cada vez mais evidente.

A reação oficial da ministra do Trabalho, Ana Mendes Godinho, foi antes: "a população empregada volta a bater um recorde e atinge novamente o valor mais alto da década" e "a taxa de desemprego registada no terceiro trimestre de 2021, de 6,1% [da população ativa], está no nível mais baixo dos últimos dez anos".

Para a governante, significa que "o desemprego está abaixo do nível que tinha sido registado no mesmo trimestre de 2019, em momento pré-pandemia (6,3%) e cai para mais de metade quando comparado com o mesmo trimestre de 2015 (12,4%)". Segundo a ministra, estes resultados foram, em boa parte, mérito do governo por causa do "conjunto robusto de apoios".

Luís Reis Ribeiro é jornalista do Dinheiro Vivo

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