É preciso integrar as pessoas na forma de repensar as cidades

As pessoas e a cidade. Se houve algo que ficou bem vincado no debate da Sessão CEiiA sobre "O Novo Bauhaus Europeu: Aproximar o Green Deal da Vida das Pessoas" é a importância de integrar os cidadãos na transformação necessária das cidades rumo à concretização do Pacto Ecológico Europeu. "Temos de mudar a forma como pensamos as cidades, mas temos de envolver os cidadãos", realçou José Carlos Mota, na sua intervenção durante a Sessão CEiiA da Portugal Mobi Summit, que decorre em Cascais.

O professor associado da Universidade de Aveiro realçou que não é fácil alterar os hábitos de mobilidade e de consumo. Mas, "se queremos mudar, temos de experimentar", disse. Ou seja, defende a necessidade da existência de projetos-piloto nas cidades, dos quais se possa aprender para depois replicar noutros locais. Milão e Porto são cidades onde já se assistem a novas utilizações do espaço público, por exemplo.

As metas que a Comissão Europeia quer atingir vão implicar mudanças nas vidas de cada um e José Carlos Mota referiu que, se forem feitas muito rapidamente, os cidadãos poderão não gostar. Por isso, reiterou: "É necessária a participação dos cidadãos, falando com eles." Acrescentou que é preciso envolver os diferentes cidadãos, até as crianças, criando métodos que gerem interesse e que fique claro qual o objetivo que se procura.

E o que é o Novo Bauhaus? "É um projeto ambiental, económico e cultural que visa combinar a conceção, a sustentabilidade, a disponibilidade, a acessibilidade de preços e o investimento, a fim de ajudar a concretizar o Pacto Ecológico Europeu das pessoas", como se pode ler no site da Comissão Europeia.

Tanto Paulo Ferrão, professor catedrático no IST e Membro do Mission Board for Climate-Neutral and Smart Cities, como José Pedro Sousa, professor associado da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto e membro da New European Bauhaus High-level Roundtable, destacaram os três conceitos fundamentais deste Novo Bauhaus europeu: sustentabilidade, estética e inclusividade.

Para Paulo Ferrão ser-se climate neutral "vai ser a grande revolução dos nossos tempos". Está-se perante mudanças na mobilidade, uso de energia e dos próprios edifícios. Porém, salientou: "Há que ter perspetivas realistas nestas mudanças." Mas falou em ter cidades 100% climate neutral até 2030.

Na intervenção no debate moderado por Catarina Selada, Head of Policy do CEiiA, Paulo Ferrão demonstrou como podem ser feitas simulações virtuais em zonas de cidades - Lisboa serviu de exemplo - para melhor entender como se pode melhorar os edifícios e os impactos dessas mudanças. Isto é, o diferente modo de consumo de energia nos edifícios, estudando-se os isolamentos ou possíveis mudanças da janelas. Lisboa é uma cidade que pode ser vista por décadas, com o centro bem mais antigo que arredores, o que implica diferentes desafios em possíveis mudanças.

O professor catedrático assegurou que se pretende que o Novo Bauhaus europeu possa incluir as mais variadas cidades. "Queremos ter soluções para todas", das maiores, às mais pequenas. No entanto, é da opinião que sendo necessário "mudar rapidamente", não deve ser feita demasiado rápido.

"Temos de mudar a organização das cidades", afirmou José Pedro Sousa, concentrando-se na relação dos edifícios com o ambiente. Para tal, há que ter em conta pontos importantes como a tecnologia. Recuando à original Bauhaus, o professor associado da Universidade do Porto recordou como no século XX se viveu a era mecânica, enquanto agora estamos na era digital. Outro ponto: os materiais. Passou-se de materiais sintéticos - o cimento, por exemplo -, para materiais mais naturais, como a madeira. Há ainda que ter em conta a escala do edifício, pensando que este deve fazer parte do sistema, interagindo com o exterior na forma como a sua construção é pensada. Contudo, fala que o foco atual está mais na renovação de edifícios já existentes.

Planear as cidades também deve ter em conta os espaços públicos, segundo José Pedro Sousa. Disse mesmo que é uma nova oportunidade para se pensar as cidades, ainda mais depois da pandemia. Opinião partilhada por Paolo Gandolfi, da Sustainable Mobility Unity, da Comuna de Reggio Emilia.

Falando da "sua" Itália, frisou como é preciso ter uma visão mais humanista de como se pensa as cidades: "Temos de resolver o problema ambiental, mas não podemos olhar só para isso." Gandolfi considera que as cidades devem promover maior conexão entre que lá vive. Referiu como em Roma, na vida pode passar-se alguns anos no trânsito. "Podemos ouvir música, mas é tempo perdido!" E falou ainda como se fica de mau humor, dizendo mal das outras pessoas.

Portanto, Paolo Gandolfi até está ciente da dificuldade que é mudar a nossa forma de mobilidade, mas afirmou que as cidades devem ser repensadas não só a promover o espaço público nos centros, mas também noutros locais, promovendo uma maior e melhor relação entre as pessoas. Entra aqui o método que muito defende: a bicicleta, além, claro, o andar a pé. Defende, por isso, a criação de espaços para velocípedes, que permitam que estes possam ser utilizados com segurança e não misturados em passeios. "Os mais novos estão muito motivados. Penso que percebem que há formas diferentes de se moverem na cidade", disse.

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