Desemprego em curva ascendente e despedimentos coletivos disparam

Na segunda-feira, estavam oficialmente desempregadas 400 mil pessoas. Ministra do Trabalho usa dados desatualizados para anunciar "reflexo da retoma da atividade".

O desemprego está em curva ascendente, ao contrário do que disse esta quinta-feira a ministra do Trabalho, numa entrevista à Antena 1. O número de desempregados que se inscreveram nos centros de emprego do IEFP tem aumentado quase todos os dias desde o início da crise, embora esteja a subir menos. No Continente, no início desta semana, estavam oficialmente sem trabalho quase 400 mil pessoas.

E há indicadores avançados que mostram que o ritmo de agravamento do desemprego pode piorar: o número de pessoas abrangidas por despedimentos coletivos (e que, portanto, podem ficar sem trabalho num futuro próximo) estava a aumentar a um ritmo superior a 60% em meados de julho face a meados do mês anterior.

Segundo dados do Gabinete de Estratégia e Planeamento (GEP) do Ministério do Trabalho, tutelado pela própria Ana Mendes Godinho, entre 1 de fevereiro e 22 de junho, cerca de 3500 trabalhadores foram visados em processos de despedimento coletivo, quase tanto quanto no ano de 2019 inteiro. Desde o início deste mês e até à passada segunda-feira, foram visados pelo despedimento quase 800 empregados, mais 61% do que em igual período de maio.

Ana Mendes Godinho não teme que o desemprego dispare e chegou a dizer, nessa mesma entrevista, que "há aqui um reflexo da retoma da atividade" porque em abril a subida no desemprego registado foi de 48 mil casos e em maio o número de registos ficou nos 16 mil.

Ministra usa dados de há um mês

Problema: a ministra já tem dados oficiais do ministério que tutela muito mais atualizados que mostram um quadro bem diferente, mas terá preferido não os usar.

Na passada terça-feira, o Gabinete de Estratégia e Planeamento (GEP) do Ministério do Trabalho revelou que entre o final de maio e o dia 22 de junho (segunda-feira), acorreram ao IEFP um total de 15 mil desempregados, quase tanto quanto o acréscimo de 16 mil registados em todo o mês de maio.

E isto com uma agravante: os números referidos pela ministra referem ao total do país e os da base de dados de monitorização do GEP dizem respeito apenas a Portugal continental, ou seja, não conta com as regiões da Madeira e dos Açores.

Mendes Godinho também referiu que, desde o final de fevereiro, há mais 93 mil desempregados, mas uma vez mais estava a referir-se a uma realidade que tem quase um mês.

O GEP mostra que, só no Continente, o contigente de desempregados registados nos centros de emprego aumentou muito mais: dava 106,2 mil casos a mais, situação no dia 22 de junho.

Assim, a esta data, o IEFP contava com quase 400 mil pessoas sem trabalho nos seus registos. Em termos nacionais o número será seguramente superior, devendo ultrapassar já os 410 mil casos.

A ministra adiantou ainda que há menos empresas a recorrer ao lay-off simplificado. "Há menos 21 mil empresas a recorrer ao lay-off" porque, disse, desde o início desta crise pandémica recorreram "cerca de 110 mil empresas, mas só 89 mil pediram a renovação".

É verdade que o número de pedidos de lay-off está a abrandar, ou seja, cresce mas com menos intensidade. Em todo o caso, a situação a 22 de junho mostra que o total de empresas que pediu para aderir ao lay-off era superior ao valor mencionado pela governante. O GEP diz que são 113,8 mil empresas que entregaram os papéis.

Lay-off convencional pode durar quase dois anos

Mas a análise à questão do lay-off (medida que corta salários e tempos de trabalho de forma significativa) está incompleta porque há cada vez mais casos de trabalhadores abrangidos por requerimentos do chamado lay-off convencional, o mecanismo que sempre esteve previsto no Código do Trabalho.

Segundo noticiou o DN/Dinheiro Vivo, na quarta-feira, o número de empresas a receber prestações por lay-off convencional aumentou em maio para 4629, com um total de 44 403 trabalhadores abrangidos (78% dos quais com contrato suspenso). É o valor mais elevado de sempre no que concerne ao uso do mecanismo tal como está previsto no Código do Trabalho, mostram os dados da Segurança Social. Em abril, eram apenas 138 as empresas aderentes, medida que afetou 2069 trabalhadores.

Este é um sinal particularmente grave sobre a saúde das empresas e da economia pois enquanto o lay-off simplificado é temporário e só estará disponível até julho; o mecanismo convencional pode ser prorrogado até 22 meses.

Francisco Rodrigues dos Santos, do CDS, insurgiu-se contra a ideia de que haja aqui um "reflexo de retoma", como acenou a ministra do Trabalho. Há "103 mil novos desempregados" em Portugal. "Se isto é sinal de retoma económica, então está na altura de a ministra do Trabalho se preparar melhor, conhecer o terreno".

Jornalista do Dinheiro Vivo

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