De Lisboa a Paris em três comboios. Bastava um 

Já há tecnologia para as composições circularem em qualquer bitola, mas projeto da Comissão Europeia prefere replicar experiência dos passageiros. Portugal foi escolhido para a partida deste comboio.

Quando faltarem nove minutos para as 16 horas da próxima quinta-feira, 2 de setembro, a estação do Oriente vai assistir à partida do Connecting Europe Express (CEE). No Ano Europeu do Transporte Ferroviário, Bruxelas quer mostrar o potencial do comboio para todo o continente. A ligação entre Lisboa e Paris vai durar até 7 de outubro e passará por 23 Estados membros (e três países extracomunitários).

Ao longo dos 35 dias serão utilizados três comboios diferentes, um por cada bitola (distância entre carris). Mas não havia necessidade: na União Europeia, já existe tecnologia que permite aos comboios circularem em diferentes bitolas, quebrando um dos principais mitos da ferrovia. Com os eixos variáveis, as composições podem mudar da bitola ibérica (utilizada em Portugal) para a bitola europeia ao passarem, a baixa velocidade, por intercambiadores.

Bruxelas, contudo, prefere usar o CEE para "replicar a experiência real dos passageiros quando têm de passar as fronteiras entre países com diferentes bitolas", responde ao Dinheiro Vivo fonte europeia. Terá de ficar para uma futura oportunidade a apresentação dos comboios de eixos variáveis, cuja existência é reconhecida mas "sem terem ainda muita tração".

Ou seja, o comboio que vai partir de Lisboa daqui a dois dias apenas será utilizado dentro da Península Ibérica. Até Hendaye, na fronteira com França, irá circular um comboio com locomotivas elétricas da CP e da Renfe, que irão rebocar carruagens Talgo, fabricadas em Espanha.

Será praticamente replicada a viagem do Sud Express, suspenso desde março do ano passado devido à pandemia e que não foi retomado por desacordo entre os governos ibéricos. A principal diferença é que a ligação entre Lisboa e Covilhã será feita pela linha da Beira Baixa em vez da linha da Beira Alta.

O projeto "servirá para recordar a falta de interoperabilidade entre várias partes na rede ferroviária europeia mas também permitirá mostrar a cooperação entre os operadores europeus", sustenta a mesma fonte.

Depois da paragem de mais de duas horas à entrada de França, haverá uma locomotiva a rebocar seis composições, de diferentes transportadoras: a francesa SNCF terá uma carruagem-conferência; a alemã DB e a suíça SBB irão emprestar uma carruagem regular cada uma; a italiana FS irá ceder uma carruagem-restaurante; a austríaca OBB vai mostrar a carruagem-cama.

Em bitola báltica irá ainda circular um terceiro comboio, entre Estónia e Lituânia, que será composto por uma automotora diesel da transportadora da Lituânia (LTG).

A organização do CEE também poderia aproveitar a viagem para mostrar que já existem comboios híbridos: podem circular em linhas eletrificadas e não eletrificadas sem necessitarem de paragem. Em vez disso, haverá composições elétricas nas linhas com catenária; nos restantes troços, serão utilizadas locomotivas a gasóleo.

O projeto servirá ainda para debater várias vertentes do transporte ferroviário - como as ligações de alta velocidade, que estarão em discussão em Lisboa - e ainda mostrar ao público, por exemplo, as carruagens-dormitórios. Haverá ainda exibições ligadas à ferrovia em alguns dos vários países participantes deste projeto da Comissão Europeia.

Portugal foi escolhido como ponto de partida deste comboio por ter presidido ao Conselho Europeu durante o primeiro semestre. As composições vão passar também pelo país que ocupa atualmente a presidência (Eslovénia). Paris é a cidade de destino porque França ocupará o cargo no primeiro semestre do próximo ano.

Diogo Ferreira Nunes é jornalista do Dinheiro Vivo

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