Da fast food aos serviços. Grandes cadeias sobem salários e bónus para conseguir trabalhadores

Movimento volta à restauração e serviços nos EUA, mas empresas não conseguem preencher vagas. Apesar de a taxa de desemprego continuar alta, subsídios e medo da ​​​​​​​covid afastam candidatos.

À porta do restaurante de comida rápida Sonic Drive-In, em Albuquerque, Novo México, há um aviso em letras garrafais a pedir paciência aos clientes. "Estamos com poucos empregados. Por favor seja paciente com os que decidiram aparecer. Já ninguém quer trabalhar." Um aviso semelhante foi colado junto ao microfone do drive-in do Chicken Express em Forth Worth Texas. A nota é clara: há dificuldades em contratar trabalhadores na restauração, num momento em que o consumo está a regressar a toda a brida.

Estes sinais têm implícita a mensagem de que o suplemento aos subsídios de desemprego está a desencorajar os desempregados a voltarem ao trabalho, algo que tem sido ecoado pelos legisladores republicanos. Cerca de 19 estados liderados pelo partido Republicano vão acabar com estes benefícios a partir de junho, numa tentativa de levar os desempregados a preencher as muitas vagas que apareceram principalmente na restauração e serviços, onde os salários são mais baixos.

Grande purga de trabalhadores no início da pandemia levou mais de 20 milhões de pessoas a perder o emprego nos Estados Unidos.

A situação é desconcertante, depois da grande purga de trabalhadores no início da pandemia de covid-19, que levou mais de 20 milhões de pessoas a perderem os seus empregos nos Estados Unidos. Sinais de "Ajuda Precisa-se" encontram-se por todo o lado e os números parecem contradizer-se. Embora haja mais de 10 milhões de desempregados e a taxa tenha subido ligeiramente em abril (de 6% para 6,1%), a recuperação do mercado laboral está a ser mais lenta do que esperado.

Isso explica que cadeias de restauração associadas a condições precárias, como McDonald"s ou Chipotle, estejam a aumentar salários e a oferecer mais benefícios.

A McDonald"s, que tem 13,9 mil restaurantes nos Estados Unidos, anunciou que vai aumentar o pagamento por hora em cerca de 10%, numa tentativa de aliciar candidatos. Na Florida, um restaurante da cadeia chegou a pagar 50 dólares só pela entrevista de emprego. A empresa de comida rápida pretende contratar dez mil novos empregados durante os próximos três meses e o aumento dos salários será uma forma de atrair candidatos para empregos com reputação de serem mal pagos e pouco recompensadores.

É isso também que vai fazer a Chipotle, cujo plano é aumentar o pagamento mínimo de 13 para 15 dólares por hora. Trata-se de um marco importante numa indústria com salários baixos: o mínimo nacional é de 7,25 por hora e no caso de trabalhadores que recebem gorjetas, como empregados de mesa, o mínimo cai para meros 2,13 dólares por hora. Isto significa que quem paga uma grande parte dos salários destes trabalhadores são os clientes, não os empregadores - num cenário de reabertura pós-pandemia em que ainda há riscos e restrições.

Os exemplos sucedem-se: a iHop, conhecida pelas suas panquecas e waffles, organizou nesta semana um Dia Nacional de Recrutamento, para preencher 10 mil vagas de trabalho. A Taco Bell tem feito "festas de recrutamento" em busca de 5 mil empregados, chegando a entrevistar potenciais candidatos nos seus carros, e adicionou benefícios para fixar gerentes, tais como férias extra.

O ritmo lento de recuperação apanhou toda a gente de surpresa no início de maio, quando o relatório laboral foi divulgado, e mostrou que a economia norte-americana adicionou apenas 266 mil novos empregos em abril, bem menos do que a expectativa, que rondava um milhão. No entanto, a deceção não teve efeitos em Wall Street, com a maioria dos investidores a encolherem os ombros perante este percalço.

As explicações para o que está a acontecer variam. Há quem culpe os suplementos aos subsídios de desemprego, que têm sido pagos como parte do pacote de alívio pandémico aprovado pelo congresso norte-americano e estão previstos até setembro. Há quem fale de escassez de trabalhadores. Há quem antecipe uma reconfiguração laboral em massa. Certo é que a oferta e a procura de emprego estão desalinhadas, mesmo numa altura em que a percentagem de desemprego continua muito mais elevada do que era antes da pandemia - 6,1% agora contra 3,5% em fevereiro de 2020.

Mulheres ficam para trás

O presidente Joe Biden discorda da ideia de que as pessoas simplesmente não querem trabalhar. "Sei que tem havido muita discussão desde o relatório, dizem que as pessoas estão a ser pagas para ficarem em casa em vez de irem trabalhar. Não vemos muitas evidências disso", afirmou o chefe de Estado após a divulgação dos últimos dados laborais, no início de maio. "Vamos tornar claro que quem estiver a receber subsídio de desemprego e obtiver uma proposta de emprego razoável tem de a aceitar ou perderá o subsídio", avisou.

Um estudo da Universidade de Yale, publicado em julho de 2020, concluiu que os suplementos ao subsídio não desencorajaram os desempregados a voltar ao trabalho nem levaram a um aumento dos lay-offs. A diretora executiva do National Employment Law Project defendeu isso mesmo numa nota em que criticou a decisão do governo do Montana de terminar os suplementos.

"Longe de atrapalharem a recuperação do estado, os subsídios de desemprego são vitais para essa recuperação", considerou a diretora, apontando para o facto de serem as mulheres e as minorias a sofrerem mais com o desemprego e as condições trazidas pela pandemia.

Esta é uma questão para que vários especialistas apontam. Todos os novos empregos em abril foram para homens, enquanto as mulheres norte-americanas continuaram a perder empregos. A interpretação é de que muitas famílias não têm alternativas enquanto os filhos não voltarem à escola ou à creche a tempo inteiro e isso está a atrapalhar os planos de reentrada no mercado de trabalho.

Outros fatores complicam as contas, sendo que muitos trabalhadores ainda têm receio de ser infetados pelo coronavírus e por isso estão a evitar empregos onde poderão ser expostos, como é o caso da restauração e serviços.

A ameaça da Amazon

Há ainda um fenómeno de reposicionamento - pessoas que estão a repensar as suas carreiras depois de uma pandemia com profundos efeitos psicológicos e sociais e muitas que deixaram de estar dispostas a trabalhar em indústrias com enorme volatilidade e stress em troca de compensações sofríveis.

Isso reflete-se na transferência de trabalhadores de posições em serviços, como restauração e hotelaria, para posições em logística e ligadas ao comércio eletrónico. A Amazon é uma das beneficiadas pela tendência, apesar das notícias pouco abonatórias que vieram a lume sobre as condições de trabalho em alguns dos seus armazéns de distribuição. A gigante de Jeff Bezos disse na semana passada que pretende contratar mais 75 mil pessoas nos Estados Unidos e no Canadá durante os próximos meses e anunciou não só aumentos salariais de base como bónus de entrada para novos trabalhadores.

A média de entrada começa nos 17 dólares por hora e cada novo trabalhador receberá um bónus de mil dólares, mais 100 se comprovar que está vacinado contra a covid. Além destas novidades, a Amazon oferece licença de maternidade/paternidade paga (algo que não é obrigatório no país), créditos para continuar estudos e ainda seguro de saúde. Segundo disse à Bloomberg o economista sénior da Glassdoor, Daniel Zhao, os benefícios oferecidos pela Amazon - e por outros retalhistas online - constituem uma ameaça aos empregos com salários mais baixos e explicam porque é que os trabalhadores da restauração estão a largar os seus empregos e a procurar posições ligadas ao comércio eletrónico e logística.

Regresso vai demorar

O cenário global mostra que os empregos virados para o serviço ao consumidor perderam apelo, em especial durante a covid, quando se tornou rotineiro ouvirem insultos, e até tentativas de agressão, ao tentarem fazer cumprir a obrigatoriedade de máscaras e distanciamento social. Os segmentos de restaurantes e bares estão com menos 1,8 milhões de trabalhadores do que no período pré-pandemia, e há receios de que muitos nunca regressem.

Mas mesmo para os que estejam dispostos a fazê-lo, haverá sempre um período de desalinhamento. Há muitas empresas a abrir vagas em simultâneo, o que contribui para a aparência de escassez laboral. Foi o que disse outra responsável do National Employment Law Project, Judy Conti, citada pela NBC News: "Não sei porque é que estes governadores pensaram que era só ligar um interruptor e de repente todos os negócios iam reabrir e todos os trabalhadores voltariam a ter emprego", afirmou. "Ainda vai demorar algum tempo para que as pessoas regressem ao trabalho."

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