Crédito voltou a bater recordes antes da chegada do coronavírus

Os portugueses pediram 1900 milhões para comprar casa em apenas dois meses. Crédito ao consumo e para outros fins disparou.

Nos dois meses que antecederam a declaração de estado de emergência devido ao coronavírus, os portugueses endividaram-se em mais 3288 milhões de euros. É o valor mais alto desde 2008, registado nos meses de janeiro e fevereiro e equivale a uma subida de 32% face a igual período de 2019. O crédito à habitação, para consumo e para outros fins atingiu valores máximos.

As baixas taxas de juro e o apetite do setor financeiro por mais receitas têm sido incentivos ao recurso ao endividamento. O Banco de Portugal implementou travões aos novos créditos com medidas adotadas em meados de 2018. Em janeiro deste ano, o supervisor anunciou regras mais apertadas para o crédito ao consumo depois de este tipo de empréstimos terem disparado no terceiro trimestre de 2019. As regras, que entraram em vigor a 1 de abril, incluem a redução de dez para sete anos do prazo máximo para contratos de crédito pessoal.

Apesar das medidas, os portugueses pediram 1896 milhões de euros para compra de casa em janeiro e fevereiro, o montante mais elevado desde 2008, ano em que rebentou a crise financeira que teve origem nos Estados Unidos. Trata-se de um aumento de 28% face aos dois primeiros meses do ano passado. No crédito ao consumo, o novo crédito atingiu os 929 milhões de euros, um recorde desde 2003, e um aumento de 32% comparando com os meses de janeiro e fevereiro de 2019. No crédito para outros fins, os novos empréstimos subiram para 468 milhões de euros, o valor mais alto desde 2012, correspondendo a uma subida de 58% face a igual período de 2019.

No total, os particulares deviam no fim de fevereiro 119,1 mil milhões de euros, mais 236 milhões de euros do que em janeiro. Desde novembro de 2015 que a dívida dos particulares não era tão elevada.

Em termos das taxas de juro médias, a do crédito à habitação desceu para 1,06% de 1,07% em janeiro. Quanto à do crédito ao consumo - excluindo cartões de crédito e linhas a descoberto - recuou para 6,84%, enquanto a dos empréstimos para outros fins subiu para 3,88% de 3,8% no mês anterior.

Moratória no crédito ao consumo

A associação das empresas de crédito especializado divulgou ontem as orientações para a aplicação de uma moratória no crédito ao consumo que abrange os clientes afetados pela crise do coronavírus que tenham cartões de crédito.

A moratória entrou em vigor a 10 de abril e vai prolongar-se até 30 de setembro, à semelhança da que foi aprovada pelo governo para os contratos de crédito à habitação.

As condições anunciadas seguem as orientações da EBA - Autoridade Bancária Europeia e serão aplicadas pelas empresas de crédito que queiram apoiar os seus clientes no âmbito da crise.

"As presentes medidas pretendem atenuar os efeitos económicos causados pela pandemia do covid-19, criando condições de alívio financeiro às famílias em Portugal afetadas pela mesma, com carácter temporário, que sejam titulares de créditos no âmbito das presentes medidas", referiu a ASFAC - Associação de Instituições de Crédito Especializado num comunicado. A moratória vem complementar a que foi aprovada pelo governo para o crédito à habitação e tem "características similares".

Os consumidores que agora podem beneficiar desta "moratória privada" são os que tenham "contratos de crédito pessoal, crédito automóvel, cartão de crédito, linhas de crédito ou outros contratos não abrangidos pelo Decreto-Lei n.º 10-J/2020, de 26 de março". Ficam de fora os consumidores que, a 18 de março de 2020, registassem "mora ou incumprimento de prestações pecuniárias há mais de 90 dias junto das instituições" ou que estivessem numa "situação de insolvência, de suspensão ou cessação de pagamentos" ou a ser alvo de "execução por qualquer uma das instituições".

Jornalista do Dinheiro Vivo

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