Covid roubou 12 milhões de estrangeiros e 3 mil milhões em receita

As unidades de alojamento receberam 10,5 milhões de hóspedes em 2020, seis milhões dos quais residentes em Portugal.

Quase um ano depois do ido primeiro confinamento no país, em março do ano passado, o retrato da pandemia para o alojamento turístico está terminado: quebras de mais de 60% em hóspedes, dormidas e proveitos, revelam os dados finais do Instituto Nacional de Estatística referentes a 2020.

As consequências e repercussões que a covid-19 teria sobre o turismo eram desconhecidas naquela altura. Ainda em janeiro, em entrevista ao Dinheiro Vivo, Francisco Calheiros, presidente da Confederação do Turismo de Portugal, recordava que "no início da pandemia, a nossa primeira reunião foi para saber se conseguiríamos salvar a Páscoa de 2020".

Depois de anos sucessivos de recordes, janeiro e fevereiro do ano passado começavam a delinear aquele que seria mais um bom ano para o destino Portugal. A grande preocupação prendia-se com a capacidade do aeroporto de Lisboa e com a necessidade de acelerar a expansão da capacidade aeroportuária. Aliás, nesses dois meses, o número de hóspedes, dormidas e proveitos estava acima do período homólogo. Mas entre janeiro e março, o novo coronavírus galgou fronteiras e aterrou na Europa levando a mudanças para a atividade turística.

O confinamento em Portugal, e um pouco por toda a Europa - principais mercados emissores de turistas -, e o fecho de fronteiras levaram a que os meses de abril e maio fossem quase nulos para a atividade (abril contou com 53 mil hóspedes, contra os 2,3 milhões no mesmo mês de 2019; e maio com mais de 136 mil, o que compara com os 2,6 milhões de 2019), tendo muitas unidades encerrado ou ficado abertas, prestando sobretudo apoio a profissionais de saúde que não podiam regressar a casa ou preferiam não o fazer.

Os meses de verão ainda permitiram uma lufada de ar fresco, sobretudo com os residentes a viajarem dentro do território, ajudando assim a atividade turística. Mas no último trimestre a evolução da pandemia determinou a aplicação de novas medidas restritivas, o que pressionou o turismo.

As contas finais mostram que as unidades de alojamento para turistas (que inclui a hotelaria e o alojamento local com mais de dez camas, que é uma fatia pequena do AL em Portugal) contaram com 10,5 milhões de hóspedes, dos quais 3,98 milhões não eram residentes. Estes viajantes foram responsáveis por 25,9 milhões de dormidas, 12,3 milhões das quais foram realizadas por residentes no estrangeiro.

As quebras face a 2019 ultrapassam os 61%. Em 2019, nas unidades de alojamento em Portugal tinham ficado 27,1 milhões de hóspedes - dos quais 16,4 milhões eram estrangeiros - e tinham-se registado 70,1 milhões de dormidas. Os números deixam assim claro que houve menos 16,6 milhões de pessoas nas unidades de alojamento no ano passado. Houve, comparando com 2019, menos 12,5 milhões de turistas estrangeiros.

Grande parte dos hóspedes pernoitou na hotelaria em Portugal, maioritariamente em hotéis. Quase todas as regiões do país sofreram quebras homólogas superiores a 50%. Destaque, ainda assim, para a Área Metropolitana de Lisboa, que registou uma descida na ordem dos 70% tanto em hóspedes como em dormidas. O turismo de cidade foi um dos mais afetados à escala global devido às dificuldades em manter o distanciamento social. Por outro lado, o Alentejo, com áreas maiores que permitem que mais facilmente haja distanciamento, foi o que registou uma queda menos pronunciada: 44,6% nos hóspedes e 37,4% nas dormidas.

Proveitos em queda

Com muito menos hóspedes e dormidas, e praticamente sem eventos em grande parte do ano, os proveitos tiveram uma queda expressiva. Os proveitos totais cifraram-se nos 1,4 mil milhões de euros no ano passado, menos 66,1% face a 2019, ano em que ficaram nos 4,29 mil milhões. O alojamento para turistas perdeu assim 2,89 mil milhões de euros com a pandemia.

Sem festas ou outro tipo de eventos, o aluguer de quartos foi a principal fonte de receita das unidades de alojamento. Os proveitos por aposento ascenderam a 1,08 mil milhões de euros, um decréscimo de 66,3%.

A pandemia continua bem presente na Europa. As restrições continuam elevadas um pouco por toda a Europa. A Páscoa do ano passado "não foi salva", tendo sido passada em confinamento, tal como possivelmente acontecerá neste ano, dadas as indicações existentes neste momento.

Desde meados de janeiro que vigora um novo confinamento, existindo muitas restrições a viagens tanto em Portugal, como no Velho Continente. Por isso, e apesar de ainda não serem conhecidos os dados, o primeiro trimestre deste ano deverá também ser de elevados prejuízos para o turismo. Para tentar "salvar" o verão, a União Europeia revelou nas últimas horas que estava a estudar várias opções para facilitar viagens.

Ana Laranjeiro é jornalista do Dinheiro Vivo

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