Covid acabou com segundos empregos

O número de portugueses com mais do que uma fonte de rendimento caiu 16,2% em 2020 face ao ano anterior. O impacto nos setores do turismo e retalho podem explicar.

O número de trabalhadores com mais do que um emprego tinha vindo sempre a subir desde 2013, mas a pandemia retirou a milhares de portugueses outras fontes de rendimento para além do primeiro emprego, mostram os dados do Inquérito ao Emprego do Instituto Nacional de Estatística (INE).

A crise sanitária, que encerrou muitos estabelecimentos sobretudo ligados ao turismo, retalho e restauração deixou sem segundos empregos quase 37 mil trabalhadores em 2020. Trata-se da primeira descida depois da recuperação económica iniciada após a crise das dívidas soberanas.
Em 2019, mais de 225 mil pessoas disseram ter mais do que um emprego, o que correspondia a 4,6% da população empregada em Portugal (4,9 milhões de trabalhadores). No início deste ano, durante o primeiro trimestre (o primeiro caso de covid-19 foi diagnosticado em março), ainda o número de trabalhadores com segundo emprego estava acima de 216 mil pessoas, representando 4,4% da população empregada.

Mas no segundo trimestre, entre abril e junho, esse número desceu para 154,3 mil trabalhadores, correspondendo a 3,3% da população empregada. Foi o valor mais baixo da atual série do INE iniciada em 2011. Nesse período, mais de 62 mil pessoas ficaram sem outra fonte de rendimento para além do primeiro emprego.

No trimestre do primeiro confinamento geral que abarcou os meses de abril a junho, o produto interno bruto (PIB) sofreu uma contração de 16,5% face ao segundo trimestre de 2019. Comparando com o primeiro trimestre deste ano a quebra foi de 14,1%.

No terceiro trimestre, a economia registou uma recuperação robusta (13,2% em cadeia) e os segundos empregos reconquistaram lugar, mas mesmo assim ficaram abaixo do período pré-pandemia. No último trimestre de 2020, o número de trabalhadores com mais do que um emprego voltou a subir para 202 mil pessoas (4,2% da população empregada), mas não foi suficiente para, no conjunto do ano, repor os níveis de 2019.

Precários mais expostos
De acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística analisados pelo Dinheiro Vivo, o valor mais elevado de trabalhadores com mais do que um emprego, foi registado em 2011, já quando Portugal entrava em plena crise financeira que levou à intervenção do FMI, da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu.

Nesse ano, mais de 235 mil pessoas disseram ter um outro emprego, que o INE define como "atividade exercida pelo indivíduo, para além da atividade principal". Esse valor correspondia a 5% da população empregada. Desde então que não se atinge um valor tão elevado.

Para o economista Pedro Brinca, da Nova School of Business and Economics (NOVA SBE), "existe uma explicação óbvia". "Com a quebra da procura, os primeiros postos de trabalho que tendem a terminar são os de vínculo precário porque são mais baratos de eliminar", garante o professor de economia.

"Normalmente, os segundos empregos têm este tipo de vínculos, daí serem os primeiros a demonstrar uma quebra acentuada", detalha o economista, lembrando os setores do turismo e do retalho que, pela sua natureza sazonal, empregam muitas pessoas em part-time.

Analisando em detalhe os dados do INE, verifica-se que é, de facto, no setor dos serviços que mais trabalhadores dizem ter mais do que um emprego - cerca de 156 mil pessoas. E é o setor dos serviços que absorve mais trabalhadores com uma segunda ocupação (137 mil pessoas). Cerca de 12 mil responderam ter outro trabalho na agricultura e os restantes sete mil na indústria, construção, energia e água.

Já na indústria e construção, 28 mil trabalhadores responderam ter outro emprego, a maioria também nos serviços (16 600). Os restantes dividiam-se entre a agricultura (cerca de sete mil) e a indústria (4,7 mil).

Os dados do inquérito ao emprego mostram que foi no segmento dos contratos precários onde se verificou grande destruição de emprego ao longo do ano passado, tal como o Dinheiro Vivo já noticiou.

Entre o final de 2019 e o final de 2020, desapareceram mais de 123 mil empregos com contratos a termo, representando uma queda de 17,1%. O mesmo aconteceu com os outros tipos de contrato, que incluem formas mais precárias, de muito curta duração. Neste caso, registou-se uma queda de 10,3%.

O impacto nos contratos precários já era esperado e ao longo de 2020 tinha vindo a ser uma constante nas estatísticas trimestrais. Estes vínculos são mais frágeis e vulneráveis a crises económicas. São o canário na mina.

Os apoios ao emprego lançados pelo Governo não abrangiam estes trabalhadores que podiam ser mandados para casa quando os contratos acabaram. O lay-off simplificado apenas impedia despedimentos coletivos ou por extinção do posto de trabalho enquanto durasse a ajuda e nos dois meses seguintes ao fim do apoio.

Entre os casos mais mediáticos conta-se a dispensa de trabalhadores do grupo TAP com contratos a prazo ou da Galp.

Maria Caetano é jornalista do Dinheiro Vivo

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