Constâncio. Retoma vai derrapar um ano e bazuca europeia vai funcionar mal

"Países não estão preparados" para recorrer aos empréstimos da bazuca pois estes agravam os défices, reparou o economista. Diz mesmo que até agora não há qualquer país a recorrer a essas novas linhas crédito do Next Generation EU.

A retoma da economia europeia e o seu regresso aos níveis pré-pandemia (2019) vai demorar três anos, e não dois como tem sido previsto pelas grandes instituições internacionais, alertou Vítor Constâncio, antigo vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE), num debate organizado por Danuta Hübner e Pedro Marques, do Parlamento Europeu. As economias só devem conseguir recuperar de toda esta destruição em 2023, e não em 2022, como anda a ser dito.

O professor de Economia, hoje na Universidade de Navarra e no ISEG, avisou que o seu pessimismo está sobretudo relacionado com os "ressurgimentos" na pandemia e com os problemas que afetam os planos de vacinação, mas alertou ainda que há outro problema grave a prazo: a bazuca europeia (Next Generation EU), que financia o plano de recuperação para a Europa sair da crise pandémica, pode vir a não ser usada em pleno.

"Os países não estão preparados" para recorrer à componente de empréstimos pois esta implica condições e agrava os défices e as dívidas a prazo, reparou o economista.

Constâncio alertou que o pacote de fundos Next Generation EU está avaliado em cerca de 750 mil milhões de euros para os próximos três anos (2021-2023), mas há um detalhe importante.

Para o ex-governador do Banco de Portugal, cerca de "350 mil milhões de euros são empréstimos" e "400 mil milhões são subvenções".

No seu entender, isto está a reduzir o poder da bazuca pois os governos não estão a avançar com projetos baseados na componente crédito pois esta vem com condições e no futuro, depois da crise, há o receio de que este endividamento adicional seja punido com sanções (défices e dívidas excessivas) no âmbito do Pacto de Estabilidade.

"Não conheço nenhum país que esteja a querer a parte dos empréstimos", disse Constâncio no debate.

Esses empréstimos "têm condições associadas e levam ao aumento dos défices". "Não há países preparados" para usar essa parte do mecanismo, o que reduz substancialmente o tal poder de fogo da bazuca.

No entanto, Constâncio diz que, no momento atual, está sobretudo preocupado com o surgimento de novas vagas da pandemia (veja-se o caso recente da Alemanha) e com os grandes atrasos no processo de vacinação.

Luís Reis Ribeiro é jornalista do Dinheiro Vivo

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