Confiança? Um quarto dos portugueses não lê os contratos de investimento

Principal motivo apontado pelos portugueses para dispensarem a leitura de documentos é a confiança no funcionário do banco. 60% da população nunca investiu

Mesmo depois dos casos BES, Banif, BPN e BPP, um quarto dos portugueses dispensa a leitura de documentos contratuais de investimento. O principal motivo que apontam para não lerem os documentos é confiarem no funcionário do banco ou no consultor financeiro. A segunda razão prende-se com o facto de considerarem que "os documentos não são muito importantes".

Esta é uma das conclusões de um estudo sobre literacia financeira relativa ao mercado de capitais em Portugal, uma iniciativa da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), apoiada pela Direção-Geral do Apoio às Reformas Estruturais, da Comissão Europeia, divulgado ontem.

O estudo concluiu ainda que mais de 60% da população portuguesa nunca investiu e apenas 28% dos portugueses se assumem como investidores.

Segundo o mesmo estudo, mais de um terço dos entrevistados não poupou nos 12 meses anteriores e a percentagem da poupança em Portugal - de 7% - permanece abaixo da média União Europeia, que é de quase 12%.

Os principais resultados do estudo foram apresentados durante o seminário "Literacia sobre mercados de capitais em Portugal: diagnósticos e desafios", um evento inserido no programa de comemorações dos 30 anos da CMVM.

O estudo foi elaborado pelas consultoras Valdani Vicari & Associati e KPMG e envolveu uma amostra total de 15.173 indivíduos e decorreu entre 2020 e início de 2021, já no contexto da pandemia de covid-19.

Segundo o inquérito, cada vez mais portugueses indicam que poupam dinheiro e que são avessos ao risco. "Em comparação com o resultado do estudo anterior de literacia financeira, a parcela daqueles que não pouparam diminuiu continuamente de 48% em 2010 para 41% em 2015 e 38% em 2020", refere um comunicado da CMVM com os resultados do estudo.

"Em comparação com a União Europeia, no entanto, de acordo com o Eurostat, a taxa anual de poupança das famílias na UE-27 foi de 11,96% em 2019, tendo aumentado nos últimos anos, com um pico de 24,6% no início de 2020 e uma queda acentuada para 16,1% no terceiro trimestre", destaca. Em comparação com a UE27, "a taxa de poupança em Portugal era de 7% em 2019, permanecendo uma taxa inferior à mais elevada percentagem de 9,36% em 2013". "Isto sugere que embora mais portugueses possam estar a poupar, o valor economizado é inferior à média da UE".

O estudo revelou um aumento dos conhecimentos dos cidadãos na área financeira em Portugal, já que 18% dos inquiridos responderam corretamente quando questionados sobre o que é capital garantido na maturidade". Os programas de formação, workshops e seminários são as iniciativas que os inquiridos mais recomendariam para aumentar a perceção dos concidadãos sobre os investimentos.

Segundo o estudo, existe uma correlação entre as habilitações académicas e a propensão para investir, mas frisa que apenas 14% da população tem nível de educação superior. Concluiu ainda que, quanto maior o rendimento auferido, maior a probabilidade de "o inquirido ser ou ter sido um investidor no passado".

Em termos de género, "a população feminina, sendo mais de metade da população portuguesa (53%), está sub-representada no grupo de investidores (57% são do género masculino)".

Comentando a situação no mercado de capitais português, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, presente na apresentação dos resulados do inquérito, que decorreu online, afirmou que o mercado nacional é ainda "muito fraco, muito frágil e muito débil". O chefe de Estado frisou que há hoje uma oportunidade para na Europa que "pode ser irrepetível" para reconstruir o tecido económico, social e institucional" abalados pelas medidas adotadas pelos governos na gestão da epidemia do novo coronavírus. "A alternativa é reconstruir. Reconstruir é ir mais além, ir à estrutura e não apenas à conjuntura", salientou no seminário da CMVM.

elisabete.tavares@dinheirovivo.pt

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