Companhias aéreas estrangeiras atraem jovens com salários altos

Qatar Airways volta a recrutar assistentes de bordo pela terceira vez em menos de um ano. TAP perdeu cerca de 20 pilotos nos últimos dois anos para as transportadoras do Médio Oriente e do continente asiático

Salários acima dos três mil euros, despesas pagas e contrato sem termo. Estas são algumas das condições que estão a levar os jovens diplomados portugueses a voar para os quadros de pessoal de cabine das companhias do Médio Oriente ou para as europeias de baixo custo.

Só em 2014 e 2015 as transportadoras realizaram pelo menos oito eventos para contratar portugueses. Qatar Airways, easyJet, Emirates e Ryanair lideraram estes processos, concentrados sobretudo em Lisboa e no Porto, tendo também havido um organizado em Ponta Delgada pela Ryanair.

Esta companhia de baixo custo, só nos últimos dois anos, recrutou cerca de 500 novos assistentes de bordo, revelou ao DN/Dinheiro Vivo fonte ligada a este processo. A companhia está já a preparar mais duas ações: na sexta-feira, dia 22 deste mês, em Lisboa, e outra a 15 de fevereiro, mas no Porto.

As transportadoras têm vindo a Portugal recrutar jovens, mas sem grande impacto nos quadros da TAP. As únicas "baixas" no pessoal de cabine só ocorreram porque a companhia liderada por Fernando Pinto "não renovou os contratos a cerca de 30 pessoas", garante Nuno Veiga da Fonseca.

O facto de as condições nas outras companhias "não serem substancialmente melhores", justifica a manutenção do pessoal de cabine dentro do "avião português", explica este membro da direção do Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC).

A profissão também é difícil no estrangeiro, sobretudo para as hospedeiras que ficam nas empresas do Médio Oriente. "Têm uma vida social muito pior e são muito mais controladas", acrescenta.

O responsável destaca também que "as condições oferecidas em companhias aéreas de bandeira concorrentes, mesmo as europeias, não são substancialmente melhores" do que as proporcionadas pela empresa detida, para já, a 61% pelo consórcio Atlantic Gateway.

A TAP também "beneficia de um acordo de empresa com regras muito rígidas e de um melhor ambiente de trabalho. O pessoal de cabine, se sair, vai para um ambiente muito diferente, e é mais ostracizado, porque acabam por ser pessoas de muitos países", considera Rosário Furtado Leite, também do SNPVAC.

Vinte pilotos saem da TAP

No cockpit do "avião TAP" o cenário é um pouco diferente e têm sido sentidas algumas mudanças. Contactada pelo DN/Dinheiro Vivo, fonte oficial da TAP refere apenas "casos muito pontuais" de saídas nos últimos dois anos, em 2014 e 2015, sem concretizar se houve pilotos que se transferiram para outras companhias.

Mas a realidade é que, de acordo com fonte ligada ao setor, neste mesmo período terão saído pelo menos 20 pilotos. Número ao qual se juntam os 37 pilotos que abandonaram os quadros em 2012 e 2013, conforme anunciou o Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil (SPAC), em agosto de 2014. Ou seja, entre o ano da segunda tentativa de privatização da companhia portuguesa, em 2012, e o ano em que foi oficializada a privatização de 61% do capital da TAP saíram, ao todo, perto de 60 pilotos.

O Médio Oriente e a Ásia têm sido o principal destino dos comandantes. As companhias locais pagam salários de 8300 euros por mês, sem impostos, ao contrário do que acontece na TAP. E conseguem facilmente um extra por horas voadas, ou seja "não ganham muito mais nos salários, mas poupam bastante nas despesas. A qualidade de vida é diferente", refere Rosário Leite.

A sindicalista lembra, no entanto, que "há alguma regressão técnica quando começam a trabalhar nas novas companhias, mas que é rapidamente compensada". Nuno Veiga da Fonseca acrescenta que a mudança de empresa "só compensa caso seja uma pessoa solteira ou um casal sem filhos".

Recrutamentos continuam

Seja para pilotos ou para pessoal de cabine, é certo que 2016 vai ser um ano em que os portugueses vão continuar a ser muito procurados. "Estas pessoas têm facilidade com o inglês, têm uma boa formação académica e são descomprometidas", explica quem está à frente das contratações. Além disso, "está a aumentar a necessidade de recrutamento na aviação".

Mais Notícias

Outras Notícias GMG