Com saída de três operadores, mais de 13 mil clientes passaram para o mercado regulado

Parte dos consumidores domésticos abrangidos pelo abandono das empresas do mercado livre vão poder beneficiar de uma fatura mais baixa da eletricidade

A saída dos comercializadores HEN, Energia Simples e ENAT do mercado livre de eletricidade levaram 13 200 clientes para o mercado regulado, ou seja, para a SU Eletricidade, da EDP. Contudo, é provável que parte dos clientes domésticos destas empresas passem a pagar menos do que o que estavam a pagar, mesmo com os aumentos extraordinários que as tarifas do mercado regulado tiveram em julho e em outubro. E dizemos "parte dos clientes", porque depende sempre das condições específicas dos seus contratos.

De acordo com os boletins das ofertas comerciais de eletricidade da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) referentes ao terceiro e quarto trimestres deste ano, um cliente com consumo médio anual de 1900 kwh e um contador de 3,45 kVa estaria a pagar 68,86 euros por mês se fosse cliente da HEN; 46,46 euros da Energia Simples e 45,75 euros da ENAT. Passando para o mercado regulado, ficarão a pagar 37,86 euros por mês.

Já um cliente com consumo médio anual de 5000 kwh e contador de 6,9 kVa pagaria, por mês, 180,10 euros na HEN; 113,01 euros na Energia Simples e 116,09 euros na ENAT e agora passará a pagar 94,64 euros. Por fim, um consumidor médio anual de 10 900 kwh e com um contador de 13,8 kVa estará a pagar, por mês, 396,18 euros na HEN; 240,58 euros na Energia Simples e 250,99 euros na ENAT. No mercado regulado pagará agora 203,28 euros.

Aliás, há já vários meses que os preços da eletricidade no mercado regulado estavam mais baixos que os do mercado livre. De acordo com dados da ERSE, no início deste ano, 14 dos 21 comercializadores do mercado livre tinham preços mais baixos que os da SU Eletricidade. No segundo trimestre desceu para nove, no terceiro para oito e agora, para o quarto trimestre, há apenas quatro comercializadores com ofertas mais baratas que a SU Eletricidade: GoldEnergy, EDP Comercial, Endesa e Galp Power. "Estamos a emagrecer o mercado liberalizado", disse ao Dinheiro Vivo o presidente da Associação dos Comercializadores de Energia no Mercado Liberalizado (ACEMEL), Ricardo Nunes.

Porquê a diferença de preços
Esta diferença de preços justifica-se - em parte - com a mesma razão que levou as três empresas a deixar o mercado livre: o aumento dos preços no mercado grossista que, no final do ano passado, chegaram a estar a 34 euros por MWh e, este ano, atingiram os valores mais altos de sempre, superando os 200 euros por MWh.

Este mercado é onde os comercializadores (livres e regulado) compram parte ou a totalidade da energia que depois vendem aos clientes e se compram mais caro, os preços finais também sobem. Aliás, isso aconteceu no mercado regulado com dois aumentos extraordinários de 3% cada em julho e outubro.

Contudo, o impacto das oscilações no mercado grossista é maior para os comercializadores liberalizados do para o do regulado - chamado de Comercializador de Último Recurso (CUR) - porque as regras de aprovisionamento em vigor obrigam a que o CUR compre cerca de metade da energia no mercado de futuros, onde se fazem contratos de longo prazo com preços mais baixos. Isto porque, como o nome indica, ele é o último recurso e é ele que fica com os clientes das empresas que saírem do mercado livre.

Ora, estas empresas privadas também podiam comprar a energia nesse mercado de futuros, mas de acordo com Ricardo Nunes, em Portugal, esse mercado "está pouco concorrencial, só temos quatro ou cinco empresas a vender, logo não há oferta suficiente e não há interesse em ter contratos de longo prazo", explicou.

O que seria bom, disse, "era que avançassem os leilões de compra de energia renovável abaixo do preço de mercado, que a ERSE anunciou como medida para colmatar o impacto dos preços grossistas". Mas, para já, segundo a ERSE ainda não há uma data.

Empresas não fecharam
Ricardo Nunes está satisfeito com as medidas que a ERSE anunciou, mas sugere que "seria boa ideia" criar linhas de crédito para estas empresas que "passaram por um período difícil de seis meses". Aliás, não descarta que possa haver mais saídas, apesar de "já se notar uma acalmia" (ontem, por volta das 18h00 a tarifa estava a 168 euros por MWh). É que, como os preços foram subindo ao longo do ano mas os contratos não se podem alterar logo, as empresas vão assumindo a diferença e o negócio acaba por ficar deficitário. Além disso, explica, para comercializarem energia, têm de prestar uma espécie de garantia de solidez financeira, que aumenta se os preços subirem e "quase triplicou". "Isso pode ter provocado uma espécie de garrote às empresas", disse, acrescentando que a HEN, a Energia Simples e a ENAT não fecharam, apenas saíram da comercialização de energia, e agora continuam a operar noutros negócios que têm.

Ana Baptista é jornalista do Dinheiro Vivo

Mais Notícias

Outras Notícias GMG