César Mourão: O primeiro humorista português a apostar em NFT

O ator viu oportunidade nos non-fungible tokens em que artistas noutros países têm apostado. A ideia é num emoji de máscara mal posta que vai agora a leilão.

Como se pode explicar simplesmente esta ideia?

Não se pode, fim da entrevista, foi um gosto... A sério, este contexto de pandemia porque estamos todos a passar é tudo menos agradável, mas permitiu pelo menos que olhássemos de outra forma para alguns fenómenos que eram tidos como marginais. Um exemplo é o teletrabalho, que hoje em dia já se tornou banal, e a maioria das pessoas agora já sabe para que servem os ícones do Skype, Zoom, ou Teams, que antes parece que só ocupavam espaço de memória.

A ideia aqui é cruzar dois conceitos, pegar no constante esforço de renovação criativa, sempre um desafio, e associar isso ao espaço das tecnologias emergentes. O resultado é isto, o meu primeiro conteúdo para NFT.

(N. R. Tokens não fungíveis são uma tecnologia que permite comprar e validar propriedade de arquivos digitais. Através de blockchain desenvolvida dentro do sistema de criptomoeda Ethereum, pessoas e entidades podem trocar obras de arte, arquivos de música e textos nas suas formas originais​​​​​​.)

Porque esta área? Qual o público que pretende chegar com esta ideia, uma vez que a grande maioria dos portugueses ainda vive à margem desta realidade?

Na verdade, não foi assim tão estratégico, o que não deixa de ser interessante também. Tento ser atento a várias sensibilidades, mas não sou um geek. No entanto, um amigo falou-me disto mais em profundidade, durante um jogo da seleção nacional por acaso, e vi aqui uma oportunidade.
Para mim, mais do que a tecnologia, a ideia passou por gerar uma peça única e autêntica de Arte Digital, e até aproveitei um conceito que já andava para desenvolver, isto de brincar com as máscaras. Em relação ao público, espero honestamente que esta ideia "escape" para o mundo físico e para os telemóveis, sinal da sua popularidade e de que a minha audiência habitual a celebra também. Mas não deixo de olhar para isto também pelo lado da inovação, e nesse sentido gostava de tocar outras pessoas, que já estão neste espaço, e que até podem não me conhecer de lado nenhum, e querer comprar a peça pelo conceito, e não por ser do César Mourão. Também acredito que, da mesma maneira que me despertou mais interesses para este espaço da arte digital, contagie outras pessoas que não estavam a olhar para aí...

O que foi mais difícil? Colocar em prática ou convencer-se a si mesmo que podia ser uma boa ideia?

Ambos! Como já disse, não sou geek a este ponto, mas felizmente rodeio-me de pessoas curiosas e interessados por vários temas, e quase que se montou uma mini equipa para montar este projeto. O colocar em prática na verdade tem muito a ver com a decisão de avançar e de achar que é uma boa ideia, porque uma não acontece sem a outra, especialmente num processo tão complexo.

Uma das coisas que me preocupou foi o facto de uma pessoa não poder abrir o tal link onde está a peça e fazer uma oferta, em euros. É preciso criar uma carteira digital e converter os euros em Ether, uma criptomoeda, e depois sim, pode-se licitar. Mas também sei que somos muito resistentes a mudanças, e que por isso alguém tem de começar. Nesse sentido, ofereci-me como cobaia!

Agora, se me perguntar se conheço todos os passos que demos para lançar isto, estaria a mentir se te dissesse que sim. Foi o tal amigo, mais outro amigo no Porto que já tinha feito isto para a banda dele, portanto também envolveu confiança e trabalho de equipa.

Mas estar em palco é igual, por aí não foi diferente. Mas acredito que parte do futuro da Arte pode passar por aqui, até porque há um lado interessante onde o autor continua a receber uma percentagem de qualquer transação futura, que torna este universo um bom espaço para a criatividade. Logo, nem que fosse só para conhecer por dentro, já valia a pena.

Para além de ser o primeiro, o que acha que vai ganhar com isto e com pode influenciar a sua carreira, quer de ator ou humorista - se as duas coisas não forem as mesmas...

Para já ganhei uma carteira digital em Etherium. Diria que me permite explorar outras facetas da minha criatividade, fora de palco, e isso é libertador em si mesmo. Também me permite, desde já, entrar na "nova economia" digital, o que numa altura em que metade dos pagamentos se fazem por MBWay ou Multibanco, não me parece uma ideia parva.

Há um suposto problema nesta ideia: quem quiser gente pode imprimir e ficar com a obra de arte, como vão contornar isso? Quem conseguir a obra de arte terá um certificado?

Foi a primeira pergunta que me coloquei também, quando me explicaram este conceito, tem piada. Acho que a melhor forma de responder é usando uma comparação, com a pintura, por exemplo. Quantas cópias há da Mona Lisa? Milhares, mas isso não tira valor à versão original, que está no Louvre. O mesmo serve para quadros da Paula Rego, Picasso, Dali, Júlio Pomar ou Almada Negreiros, todos podem ser copiados, mas os originais são os verdadeiramente valiosos. Aqui é igual, claro que se pode copiar este emoji e guardar no computador ou no telefone, mas o original certificado é apenas um, e quem o adquirir pode usar depois esse NFT nos seus jogos ou noutros cenários virtuais... É igual a colocar um bom quadro original por cima da lareira da sala, mas aqui a sala mede-se em megas e não em metros.

E porque um Emoji? Porque não um desenho seu? Uma fotografia? Um rabisco feito num papel de guardanapo de um restaurante...

Tinha esta ideia das máscaras há algum tempo, por ser bastante óbvio que tanta gente as usa mal, mas a fingir que ninguém repara sabes? E queria capturar isso, esse momento no tempo. Acaba por ser uma marca destes dias do covid, para memória futura.

Mas tinha outras ideias, algumas em som, outras em vídeo, o potencial é imenso aqui. No fim decidi-me por este emoji precisamente porque daqui a alguns meses já não faz sentido, era uma ideia datada que se ia perder, e posso sempre voltar às outras.

Também acho que um emoji é uma bela forma de marcar a entrada num novo paradigma tecnológico, é um pouco como ir a Tóquio... mas já a falar japonês. E facilita a hipótese de um qualquer estrangeiro que não me conhece comprar a peça só pela piada, nesse sentido é uma linguagem universal.

Há exemplos internacionais que serviram de inspiração?

Na verdade, o mercado internacional de Arte tem vivido dentro do mesmo contexto nas últimas décadas: uma verdadeira obra de arte é sempre física, porque só assim é que se garante a sua raridade.

No entanto, explicaram-me que a mesma tecnologia que permitiu o surgimento da bitcoin e das criptomoedas, a famosa blockchain, permite agora certificar que um objeto digital é original e único.

Isso veio dar resposta a um vazio, ao permitir garantir a autenticidade de obras digitais. Isso introduz no espaço digital algo que é essencial a qualquer sistema de mercado, e que até aqui não existia: a noção de singularidade... e em consequência, de escassez.

Se no início este era um território muito árido ainda, e de nicho, nos últimos anos começas a ver nomes como o Pharrel, os Foo Fighters, o Jack Dorsey, fundador do Twitter, a gerar peças artísticas neste registo NFT.

Eu sei que isto parece mais território do Banksy ou do Vhils, mas o interessante neste fenómeno é que não há um único formato, todos podemos encontrar um espaço.

O que vai fazer ao dinheiro angariado?

Antes de mais, vou pagar as custas deste processo, que esta gente toda que me que me ajudou custa um balúrdio. Mas a ideia pode passar por deixar o dinheiro da venda em cripto, e aproveitar que lá entrei para olhar para arte digital sim, e para financiar outras futuras iniciativas. Isto se angariasse algum... ahahah.

E aposta em cripto moedas? O que pensa delas?

Tenho curiosidade, conheço amigos que investem, e às vezes perguntava-me se não devia também ter um portfolio. Acho que este processo me serviu também para descomplicar este mundo, e entrar mais a fundo em alguns conceitos.

Diria que as cripto vão seguramente fazer parte do nosso futuro próximo, não se se como unidade monetária corrente, ou como valor padrão de investimento, mas acho que vieram para ficar, e vou aproveitar esta sortida para ir aprendendo um pouco mais sobre este campo.

Há ideias para continuar a "produzir" mais obras de arte nesta área?
Não faço a mínima ideia, ainda não pensei nisso. Quero gerir este primeiro esforço neste território com calma, tirar as minhas conclusões e depois logo vejo para onde vou a seguir. Estou ainda curioso com o que vai acontecer a este emoji...

filipe.gil@dn.pt

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