Centeno deve rever fortemente em alta o crescimento económico deste ano

Banco de Portugal divulga hoje novas previsões e deve acompanhar, como sempre, o BCE. A 10 de junho, Lagarde subiu a fasquia de 2021 de 4% para 4,6%. Centeno fará algo parecido.

A economia portuguesa deverá crescer mais de 4% este ano, em linha com o ritmo da zona euro. Em março, o banco central governado por Mário Centeno previa que Portugal crescesse 3,9% em termos reais, em 2021, em linha com a projeção para a zona euro, divulgada também nessa altura pelo Banco Central Europeu (BCE).

Volvidos três meses, o Banco de Portugal (BdP) atualiza hoje, quarta-feira, as suas projeções relativas a Portugal e nelas irá refletir a forte revisão em alta anunciada na semana passada pelo BCE. A instituição liderada por Christine Lagarde subiu a fasquia de 2021 de 4% para um crescimento mais robusto, na ordem dos 4,6%.

Como tem sempre sucedido desde o início da pandemia, as previsões do Banco de Portugal acompanham a par e passo as emitidas por Frankfurt, pelo que é altamente provável que Portugal venha a beneficiar do ambiente europeu mais benigno, numa altura em que a atividade ganha força em muitos países europeus, com o aumento da circulação de pessoas (que por exemplo tem um impacto muito positivo no turismo, que esteve virtualmente interrompido durante os meses de confinamento).

Assim, olhando para o histórico das previsões do BCE e do BdP, tudo aponta para que a nova previsão do banco central de Centeno relativa a este ano suba dos referidos 3,9% (março) para 4,6% ou um valor próximo deste.

Será assim uma marca que fica acima da que foi assumida pelo ministro das Finanças, João Leão, no seu último cenário macroeconómico. No Programa de Estabilidade (abril), as Finanças previram uma expansão de 3,9% este ano.

Recorde-se que em março de 2020, logo no início da pandemia, o BCE estimou um crescimento de 1,3% para este ano; o BdP dizia 1,4%. Em junho do ano passado, o BdP de Centeno reviu o cenário de 2021 fortemente em alta para 5,2%, a mesma marca do BCE para a zona euro.

Em dezembro, Frankfurt haveria de moderar o seu otimismo e baixou a fasquia para os 3,9% em 2021. O Banco de Portugal alinhou a sua previsão para a economia portuguesa para esse exato valor.

Seja como for, as previsões virão rodeadas de alta incerteza relativamente aos impactos da pandemia e à forma como se vai conseguir lidar com as novas variantes do coronavírus, mesmo num contexto de vacinação elevada.

Em março, o BdP referia que as projeções apontavam "para uma recuperação da atividade económica no período 2021-2023, assente no sucesso do combate à pandemia à escala internacional, no reforço da confiança e no apoio das medidas de política nacionais e supranacionais".

Esta combinação de fatores permitiu ao Banco computar a previsão de crescimento dos tais 3,9%, igual à de dezembro, aliás. Isto mesmo com um início de ano desastroso, em que a economia teve de parar novamente e em que o Serviço Nacional de Saúde entrou em rutura, com a vaga enorme de novos casos e de internamentos hospitalares.

Na semana passada, o BCE veio acenar com uma melhoria no ambiente de negócios e da confiança ao nível da zona euro. Portugal, como economia exportadora e "altamente dependente do turismo", poderá beneficiar deste quadro, assim as coisas corram pelo melhor e a pandemia regrida.

Na semana passada, apesar da forte revisão em alta da taxa de crescimento dos 19 países do euro, o BCE avisou que "a recuperação da procura global e os estímulos orçamentais consideráveis estão a suportar da zona euro, mas as perspetivas económicas de curto prazo permanecem obscurecidas pela incerteza sobre o recrudescimento da pandemia e as campanhas de vacinação".

Ainda assim, "numa análise prospetiva, o progresso das campanhas de vacinação e o relaxamento gradual previsto das medidas de confinamento reforçam a expectativa de uma recuperação firme da atividade económica ao longo de 2021".

Um dos eixos da confiança e do avanço na economia é a política de juros ultrabaixos (virtualmente zero) do BCE. O outro é o enorme plano de recuperação europeu (PRR), que se reparte pelos vários países europeus.

Primeira emissão de dívida do PRR europeu custa 0,086%

Ontem, foi dado o primeiro passo concreto (financeiro) no PRR. Os credores internacionais cobraram uma taxa de juro média de 0,086% à União Europeia (UE) na primeira operação de endividamento (a dez anos) destinada a financiar os planos de recuperação dos vários países europeus, revelou o ministro das Finanças.

Só para se ter uma referência, este custo anual fica bem abaixo da taxa das Obrigações do Tesouro a dez anos de Portugal que negociava nos 0,38% esta terça-feira, no mercado secundário. É quatro vezes mais pesada do que a taxa cobrada à Europa.

Numa nota enviada às redações, o gabinete do ministro João Leão congratulou-se com o "momento inédito" e o "marco para a História europeia" que é aumentar de forma significativa a dívida dos países e da UE (mais 800 mil milhões de euros, pelo menos) para financiar os programas que supostamente vão permitir escapar aos efeitos devastadores da pandemia e relançar o crescimento económico.

Esta terça-feira, "foram colocados 20 mil milhões de euros nesta primeira emissão, a uma taxa [de juro] de 0,086%", diz a nota de João Leão.

Estas obrigações públicas têm uma maturidade de dez anos, ou seja, terão de ser totalmente reembolsadas em 2031. Este ano, o objetivo da Comissão Europeia é ir ao mercado buscar um total de 80 mil milhões de euros.

Para o ministro das Finanças, "a União Europeia registou hoje [terça-feira, 15 de junho] um momento inédito com a primeira emissão conjunta de dívida para financiar o Programa Next Generation EU, o mecanismo extraordinário de emissão de dívida europeia que colocará à disposição dos Estados-Membros 800 mil milhões de euros para financiar os Planos de Recuperação e Resiliência (PRR) dos países".

Esta dívida e o mecanismo que nela assenta são considerados "uma peça central na resposta europeia à crise provocada pela covid-19 e a rampa de lançamento para a recuperação económica dos Estados", defendeu Leão.

Os primeiros desembolsos do Plano de Recuperação devem acontecer dentro de mês e meio a dois meses, em agosto.

Hoje, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, vem a Portugal e Espanha para anunciar a aprovação oficial final dos respetivos PRR.

jornalista do Dinheiro Vivo

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