Centeno alinha com Lagarde. Também corta retoma prevista para 2022

As medidas de contenção que vários governos estão a decretar "podem atrasar a recuperação, especialmente em termos de viagens, turismo, hospitalidade [hotéis e alojamentos locais] e entretenimento", assumiu a chefe do banco central da moeda única.

A retoma portuguesa em 2021 deve ser melhor que o esperado, mas em 2022 deve ser mais fraca. Mário Centeno, o governador do Banco de Portugal (BdP), atualiza hoje as suas previsões para a economia portuguesa e, como tem feito quase sempre, tenderá a calibrar as suas revisões com as do Banco Central Europeu (BCE).

Sendo assim, a estimativa de crescimento relativa ao ano corrente (4,8%) avançada em junho deve melhorar umas décimas. Os 5,6% projetados para o próximo ano devem levar um desbaste, aproximando-se mais de 5%.

Ontem, em entrevista à Reuters, o ministro das Finanças, João Leão, disse que "Portugal está numa fase de clara recuperação", que neste momento, "a economia não parece ser afetada pela nova vaga da pandemia, estamos confiantes que vamos crescer cerca de 4,8% este ano".

Diferente é o cenário que se perfila para o início de 2022. Esse foi um dos assuntos ontem abordados por Christine Lagarde, a presidente do BCE, depois da reunião de política monetária que decorreu em Frankfurt e ontem participaram Centeno e os restantes governadores dos bancos centrais do euro.

A quinta vaga da pandemia está a levar vários países a imporem outra vezes restrições à atividade económica e isso terá consequências negativas, claro. Portugal marcou uma semana de contenção (no mínimo uma) para o início de janeiro, por exemplo.

O Banco de Portugal espera sempre pelas atualizações do cenário macroeconómico do BCE pois a dinâmica da zona euro é, pela sua importância material, um dos elementos centrais que alimentam o modelo provisional do BdP.

Ontem, o BCE presidido por Christine Lagarde avisou que a retoma da atividade económica na zona euro prevista para o ano que vem deve ser visivelmente mais fraca do que se pensava há três meses. Em vez de crescer 4,6%, como se antecipava em setembro, as novas perspetivas são claramente mais fracas: 4,2%, indicam as novas projeções emanadas de Frankfurt.

A inflação, que tanta tinta fez correr e tantos receios motivou nos últimos meses, vai acelerar bem em 2022, mas depois a tendência é para se esvair em 2023.

Este ano, a média da inflação (subida de preços) da zona euro deve ficar-se pelos 2,6% (a estimativa era 2,2% no pacote de previsões anterior, há três meses).

No ano que vem, a inflação sobe bastante, para 3,2% (1,7% em setembro), mas a tendência é para cair muito em 2023, para 1,8%, diz o BCE.

Lagarde teme pelas viagens e pelo turismo, outra vez

Lagarde explicou o que, na sua opinião e dos especialistas do BCE, está a acontecer. "A atividade económica tem sido moderada durante este último trimestre de 2021 e é provável que este crescimento mais lento se prolongue até à primeira parte do próximo ano", isto é, que contamine o primeiro semestre de 2022.

Assim, "esperamos agora que a produção exceda o seu nível pré pandémico no primeiro trimestre de 2022".

A razão é que "para fazer face à atual vaga pandémica, alguns países da zona euro reintroduziram medidas de contenção mais rigorosas".

Como referido, o governo de Portugal, por exemplo, voltou a recomendar o teletrabalho sempre que possível, o que retira pessoas das ruas, estradas e transportes públicos, ao mesmo tempo que esvazia vários escritórios.

E decidiu impor uma "semana de contenção" a seguir ao Natal e Ano Novo, entre 2 e 9 de janeiro próximos, sendo que o primeiro ministro, António Costa, já aventou que vai ser preciso prolongar esse regime de contenção por mais tempo de modo a travar o avanço da variante ómicron do coronavírus que provoca a covid-19.

As medidas de contenção que vários governos estão a decretar "podem atrasar a recuperação, especialmente em termos de viagens, turismo, hospitalidade [hóteis e alojamentos locais] e entretenimento", assumiu a chefe do banco central da moeda única.

Para Lagarde, "a pandemia está a pesar na confiança dos consumidores e das empresas e na propagação de novas variantes de vírus estão a criar incerteza extra".

"Além disso, os custos crescentes de energia são um vento contrário para o consumo", retiram poder de compra às famílias. E sobrecarregam os custos das empresas, já agora.

A revisão em baixa da força com que a economia vai sair desta grave crise pandémica também é explicada pela "escassez de equipamentos, materiais e mão-de-obra em alguns setores, o que está a dificultar a produção de bens manufaturados, causando atrasos na construção e retardando a recuperação em algumas partes do setor dos serviços", disse Christine Lagarde na conferência de imprensa.

"Estes estrangulamentos ainda estarão connosco durante algum tempo, mas deverão atenuar-se durante 2022", acrescentou.

Compras pandémicas acabam, mas há reforço temporário do QE clássico

Da reunião do BCE saíram outras novidades. O enorme programa especial (pandémico) de compra de dívida, sobretudo obrigações do tesouro (OT) dos países da zona euro, para responder aos custos da covid-19 e fazer baixar ainda mais as taxas de juro, facilitando fluxos de crédito, vai terminar em março de 2022.

Com este passo, os juros dos países do euro podem vir a ser pressionados em alta, uma vez que perdem um amparo muito importante, isto apesar de o BCE se comprometer a reinvestir os títulos comprados (quando chegarem à maturidade) e de continuar a comprar muita dívida sob o chapéu do programa central de quantitative easing, o APP - Asset Purchase Programme.

Este APP é um programa mais antigo, inaugurado em 2014, para responder à crise persistente e aos ataques constantes à dívida pública de alguns países do euro, como Portugal.

Em todo o caso, este APP, o eixo principal, a bazuca maior e mais permanente de dinheiro barato, será temporariamente reforçado (entre abril e setembro, apenas), para compensar o fim do PEPP.

Luís Reis Ribeiro é jornalista do Dinheiro Vivo

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