Carros usados ganham peso em ano de pandemia

Automóveis em segunda mão importados corresponderam a 39,9% das vendas de veículos novos em 2020. Cenário pode agravar-se com mudanças no ISV.

Os carros usados têm cada vez mais peso no mercado automóvel português. Em 2020, os carros em segunda mão importados voltaram a ganhar peso na comparação com os veículos, segundo os dados recolhidos pelo Dinheiro Vivo junto da Associação Automóvel de Portugal (ACAP). O gasóleo ainda é o rei neste ramo de negócio, ao contrário do que acontece nos automóveis novos.

Em 2020, foram importados 58.080 automóveis usados ligeiros de passageiros. A quebra é de 26,9% face às 79.422 unidades registadas em 2019. Foi o pior ano desde 2016. A travagem foi mais forte nos carros novos: as vendas diminuíram 35%, para 145.417 matrículas, o pior ano desde 2014, na saída da troika de Portugal.

Contas feitas, a quota de mercado dos carros em segunda mão atingiu os 39,9% no ano passado, mais 5,4 pontos percentuais do que em 2019. Peugeot, Renault, Mercedes, BMW e Audi são as cinco marcas mais procuradas neste mercado, de acordo com os dados da ACAP.

Segundo o Instituto Nacional de Estatística, os veículos a gasóleo representaram mais de 57% dos automóveis importados; a gasolina ficou com mais de 40% deste mercado - nos novos, a gasolina lidera desde 2019. Alemanha, França, Bélgica e Espanha são os principais importadores.

"O investimento num carro novo é muito superior ao de um carro usado. Num momento de quebra de poder de compra, muitas famílias não têm orçamento para um automóvel novo", destaca ao Dinheiro Vivo o líder da Associação Portuguesa do Comércio Automóvel (APDCA), Nuno Silva. Esta associação representa boa parte dos concessionários de automóveis usados.

Desde 2013 que os carros em segunda mão têm cada vez mais peso no mercado nacional. A quota de mercado mais do que duplicou nos últimos sete anos, dos 15,6% para os 39,9%.

Carros em circulação cada vez mais velhos

O peso dos impostos é o principal motivo para a aceleração dos usados, no entender do secretário-geral da ACAP. "O veículo novo tem uma grande incorporação de impostos em Portugal, o que não acontece noutros países europeus. Enquanto houver diferença de fiscalidade esta situação vai manter-se", lamenta Helder Pedro.

Os carros em circulação também estão a ficar cada vez mais velhos. Voltando a 2013, cada automóvel ligeiro tinha sido matriculado, em média, 11,2 anos antes; em 2019, tinham envelhecido 12,7 anos. Situação com tendência para agravar-se, entendem ambas as associações automóveis.

A APDCA nota que a fiscalidade "incentiva os portugueses a manterem os automóveis antigos, porque paga-se cada vez menos imposto de circulação (IUC) quanto mais velho for o carro. Isto não faz qualquer sentido, porque os consumidores ficam com veículos mais poluentes e com menos equipamentos de segurança". Nuno Silva propõe, por isso, um agravamento do IUC para os automóveis mais antigos, exceto para os clássicos.

A ACAP assinala que "a maioria dos carros usados importados atualmente tem entre quatro e cinco anos, o que contribui para o envelhecimento do parque automóvel". Helder Pedro volta a defender o regresso do incentivo ao abate de veículos mais antigos na compra de automóveis novos.

O Orçamento do Estado para 2021 poderá reforçar a quota de mercado dos automóveis usados. Foi reduzida, conforme a idade, a componente ambiental que serve de cálculo no imposto sobre veículos pago para automóveis importados na União Europeia. Ou seja, quanto mais velho for o veículo, menor o imposto.

O único obstáculo ao crescimento dos usados poderá ser "a falta de oferta no mercado de carros seminovos, até 1,5 anos, porque as empresas de aluguer de automóveis não estão a renovar os stocks", avisa o responsável da APDCA.

diogofnunes@dinheirovivo.pt

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