Carlo Ratti: "Usamos dados para melhorar a vida nas cidades e criar novas respostas"

Barcos autónomos e ecológicos e cruzamentos sem semáforos para regular o trânsito são novas possibilidades ao alcance da tecnologia desenvolvida pela equipa do arquiteto e diretor do MIT Senseable City Lab, que ontem abriu o segundo dia do Portugal Mobi Summit. Ratti está apostado em redesenhar as cidades testando soluções e criando novos hábitos às pessoas.

Será demasiado futurista imaginar cruzamentos onde não são necessários semáforos para regular o trânsito, porque os carros terão a "inteligência" necessária para evitar acidentes? E onde, para além de drones e automóveis autónomos, também haverá barcos movidos por inteligência artificial?

Carlo Ratti, arquiteto e diretor do MIT Senseable City Lab, assegurou que já nada disso é ficção científica, na abertura do segundo dia do Portugal Mobi Summit, onde se falou das cidades do futuro, da mobilidade elétrica e do mercado automóvel.

Ratti adiantou, de resto, que no final deste mês a cidade de Amesterdão vai estrear uma embarcação autónoma para navegar pelos seus imensos canais, com tecnologia limpa desenvolvida pelo MIT Senseable City Lab. E a utilização tanto poderá ser para carga como para transporte de pessoas, assim haja regulação para tal.

Investigar e explorar a forma como as novas tecnologias podem melhorar a vida nas cidades é o principal foco daquele laboratório, parte integrante do prestigiado MIT que, através dos dados e dos sensores que hoje em dia transportamos nos nossos telemóveis e nos veículos cada vez mais conectados, está apostado em descobrir novas possibilidades.

Foi, por exemplo, através da análise de big data que o laboratório percebeu que em Manhattan (Nova Iorque) havia centenas de milhares de pessoas que se dirigiam todos os dias na mesma direção, por exemplo, para o aeroporto JFK, tendo surgido aí a ideia, ainda antes da Uber, de criar uma solução de mobilidade partilhada que permitiria reduzir em cerca de 40% a circulação de automóveis na cidade. Na altura alguém achou que os nova-iorquinos não eram propriamente fãs da partilha. "Estavam errados", atesta Carlo Ratti. Hoje a Uberpool é gigante e esta solução de mobilidade partilhada é um grande sucesso em várias cidades e em vários continentes.

Porque é que a recolha e a análise inteligente dos dados, fornecidos pela georreferenciação, é importante? "Porque nos permite perceber, por exemplo, que em 95% por cento do tempo os carros estão parados, estacionados a ocupar espaço nas cidades, que é roubado às pessoas". Em Singapura, por exemplo, onde existem mais de 1,3 milhões de lugares de estacionamento, a cidade está seriamente apostada nas soluções de mobilidade partilhada, como via de reduzir as pesadas emissões de CO2, mas também de aumentar o espaço disponível que é escasso. E quer reduzir o espaço hoje ocupado por automóveis em cerca de 70%.

Outras possibilidades oferecidas pela análise de big data feita no MIT é intervir na mudança do próprio espaço urbano em função do que os dados nos dizem. Carlo Ratti defendeu que o espaço público não tem de ser sempre igual. Se de manhã, nas horas de ponta, as ruas podem ter faixas reservadas para carros, à noite ou aos fins de semana podem flexibilizar-se para ter esplanadas, mercados ou outras atividades de lazer.

Resumindo, Ratti considera que o que está em causa é envolver as pessoas no que elas querem para as cidades onde vivem. E de ir fazendo experiências, primeiro de modo temporário para criar hábitos, e depois torná-las permanentes, defendeu aquele que é considerado um dos arquitetos mais ousados e disruptivos da sua geração na construção das cidades do futuro.

A ousadia do CEiiA

É justamente a ousadia e a capacidade tecnológica que está por trás de variados projetos do CeiiA (Centro de Engenharia e Desenvolvimento de Produto) na área da mobilidade, mas também da aeronáutica e até da exploração espacial. A solução mais conhecida e premiada pela Google do centro de Matosinhos é a plataforma AYR, que "ajuda as cidades, as empresas, os cidadãos, a fazerem uma transição para uma sociedade carbono zero", explicou Pedro Diaz Gaspar, o seu diretor de Future Business Technology numa sessão especial integrada no Portugal Mobi Summit. "O AYR foca em introduzir decisões mais sustentáveis que, de facto, reduzem as nossas emissões. E o que nós fazemos é quantificar essas não emissões. Nós estamos a tentar construir uma cidade que em tempo real monitoriza o impacto que as nossas decisões têm de positivo na redução de CO2 e de que forma eu consigo multiplicar essas decisões no meu dia a dia", explicou Pedro Diaz Gaspar. "Por exemplo, um incentivo não tanto de utilizar o meu veículo, mas um incentivo de utilizar transportes e mobilidade suave que têm um impacto muito superior."

"Mas não chega incentivar, não chega criarmos sharings ou bike sharings e ciclovias e esperar que as pessoas as usem. É preciso ir mais fundo. Nós primeiro quantificamos a não emissão, quantificamos as emissões que nós evitamos produzir, e a seguir tokenificamos essa não emissão. Esta tokenificação significa transformar num crédito digital, num ativo digital ambiental transacionável, a minha não emissão. Este palavreado forte significa exatamente o quê? Significa que eu consigo transacionar, há um valor económico-financeiro e social que eu associo à minha não emissão e, a partir daí, eu vou fazer um ecossistema local de transação", prosseguiu o responsável do CeiiA.

É este novo universo tecnológico que ao mesmo tempo se adapta às novas exigências das cidades e do clima e cria também novas realidades.

Pandemia mudou os percursos urbanos

A Uber é um exemplo emblemático de como se adaptou à mudança e induziu por si mudanças. Ontem a sua diretora de políticas, cidades e transportes, Shin Pei-Tsay, apresentou o estudo "O Futuro das Cidades e o Futuro da Mobilidade" que nos diz que as cidades estão agora mais diversificadas na era pós-covid e os seus habitantes cada vez mais fixados nos seus próprios bairros, não deixando, porém, de procurar flexibilidade nos meios de transportes para se deslocarem do centro para a periferia. Em Nova Iorque, Joanesburgo, São Paulo ou Londres, os espaços públicos converteram-se em locais de convívio com esplanadas, comércio de rua ou áreas pedonais: "Todas estas tendências terão agora de entrar no planeamento das cidades com soluções de mobilidade multimodal não só para os centros urbanos, mas também para os subúrbios", defende a diretora.

As tecnologias vão ter um papel crítico na mobilidade da pós-pandemia, defende a especialista. Mais do que nunca, os serviços de transporte urbano irão precisar de "alternativas sustentáveis e acessíveis" para servir todas as comunidades, incluindo os que tradicionalmente dependem do carro para trabalhar.

"Novas soluções tecnológicas podem ser um recurso com grande potencial para as operadoras locais aumentarem a conectividade em infraestruturas que já existem", conta a especialista, lembrando que o ecossistema da mobilidade tem vindo a sofrer profundas mudanças com opções de transporte partilhado, on demand e multimodal e deverá continuar a intensificar essa flexibilidade por oposição ao modelo tradicional de transporte e ao uso do carro individual.

com Kátia Catulo

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