BCE ainda vê inflação a recuar após calibrar compras

Redução de estímulos de emergência segue até ao fim deste ano. É calibragem, não é desmame, diz Lagarde.

O aumento de preços já chegou ao bolso de muitos europeus e ainda vai sentir-se mais no outono, mas não está para ficar, mantém o Banco Central Europeu (BCE), que ainda não avista qualquer trajetória de inflação que conduza à normalização da política monetária e à subida dos juros antes de 2024.

As projeções da instituição foram ontem atualizadas em alta ligeira, mas não somaram mais que uma décima à previsão de inflação anual para 2023, última etapa no horizonte visível do BCE. Os 3% de subida de preços no espaço do euro medidos em agosto terão como corolário uma inflação de 2,2% neste ano, descendo aos 1,7% em 2022, e cedendo ainda para 1,5% em 2023.

Para o BCE, o estrangulamento da oferta, associado a mais procura na reabertura económica, deverá dissipar-se na primeira metade de 2022, assim como os efeitos de base que têm elevado comparações com 2020. Ainda assim, a presidente, Christine Lagarde, admitiu riscos de uma pressão de preços mais persistente, e prometeu vigilância. O barómetro para analisar desvios, avisou, será a evolução de salários, cujos aumentos são negociados no outono em grande parte da Europa. Para já, esperam-se crescimentos moderados.

Entretanto, o BCE já está a encolher a corda com que em março do ano passado acudiu às economias do euro, que deverão vir finalmente à tona da pandemia no final deste ano, prevê a instituição. Ao longo dos próximos meses, o ritmo de compras líquidas de ativos do programa de emergência pandémica, o PEPP, vai diminuir, confirmou o conselho de governadores.

A decisão era a esperada, e a comunicação foi suave e de pontas soltas. O BCE "considera que podem ser mantidas condições de financiamento favoráveis com um ritmo moderadamente mais baixo de compras líquidas de ativos ao abrigo do PEPP do que nos dois trimestres anteriores", mas "o envelope pode ser recalibrado se necessário para manter condições de financiamento favoráveis que ajudem a contrariar o choque negativo pandémico para a trajetória de inflação". Lagarde reforçou a mensagem: é calibragem, não será o aziago tapering anglófono, ou o desmame gradual dos estímulos.

Na prática, estes podem estar já a ser doseados. Em agosto houve uma redução significativa do volume das injeções de Frankfurt, com as compras líquidas de ativos ao abrigo do PEPP nos 65,05 mil milhões. É em torno deste nível que muitos analistas esperam que o ritmo do programa de emergência se situe até dezembro, apesar de o BCE não ter dado números.

A descida de agosto não fez mossa nos mercados, e o anúncio de ontem também não. Pelo contrário. Os juros exigidos pela tomadas das dívidas soberanas europeias nos mercados secundários recuaram, e nos casos de Portugal, Itália, Espanha e mesmo Grécia - excluída do programa regular de compras do BCE, o APP - mantinham-se ainda abaixo de um ano antes.

Quanto ao futuro, não é para já. "Não discutimos o que vem a seguir", assegurou Lagarde sobre o debate em torno do fim do PEPP e da transição para o programa regular de compra de dívida do BCE, eventualmente em moldes mais flexíveis. Ficou a promessa de discutir o assunto em dezembro.

Maria Caetano é jornalista do Dinheiro Vivo

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