Autoeuropa faz carros incompletos, à espera de peças

Fábrica de Palmela não terá produção durante todo o mês de agosto por falta de semicondutores. Até lá, vai pagar um bónus de 500 euros aos trabalhadores.

Enquanto não chegam os chips, a Autoeuropa está a fabricar carros incompletos. Da unidade de Palmela saíram nas últimas semanas perto de 17 mil veículos sem semicondutores, e que depois terão de voltar à linha de montagem para serem vendidos aos consumidores. A empresa do grupo Volkswagen, para tentar estabilizar a produção, vai prolongar a habitual paragem de agosto. Antes disso, os 5200 funcionários vão receber um bónus de 500 euros.

Os carros incompletos, contudo, não cabem todos na Autoeuropa nem no porto de Setúbal. A empresa está, por isso, a utilizar outros parques de grandes dimensões para deixar os automóveis em segurança nos distritos de Lisboa e de Setúbal. Exemplo disso são as instalações da importadora SIVA, no concelho da Azambuja, onde centenas de unidades aguardam a sua vez para regressarem a Palmela.

A fábrica repete, assim, a estratégia utilizada no final de 2018, quando parqueou milhares de carros na base aérea do Montijo durante a greve dos estivadores do porto de Setúbal, que ficou sem capacidade de escoar bens. A situação, na altura, levou a empresa do grupo alemão a ponderar fechar temporariamente a unidade portuguesa, perante a incerteza na situação.

Os problemas na Autoeuropa não ficam por aqui. Desde o início do ano já foram cancelados 67 turnos de produção, por causa do coronavírus. Tudo começou no final de janeiro, quando o confinamento e a paragem das aulas obrigou a empresa a suspender a linha de montagem entre 22 e 24. Entre 25 de janeiro e 5 de fevereiro, só houve laboração nos dias úteis, com três turnos.

Os problemas com os semicondutores começaram no final de março: entre 22 e 28, as portas estiveram fechadas e houve cerca de 5700 unidades que ficaram por montar. A situação repetiu-se por mais nove dias consecutivos em junho e no primeiro fim de semana deste mês. Os trabalhadores, para já, não perderam um euro no salário porque o acordo de empresa contempla 22 dias de não produção, pagos a 100% e que ainda não foram esgotados.

A Autoeuropa, contudo, vai voltar a parar no próximo mês. Agosto é habitualmente marcado pela suspensão da produção por três semanas. Mas, neste ano, a interrupção será prolongada por mais uma semana, na tentativa de estabilizar a linha de montagem. O período será ainda aproveitado para reasfaltar a estrada de acesso à fábrica, cujo estado de degradação prejudica o envio dos automóveis para exportação.

A semana extra de paragem será ainda contabilizada como dias de não produção. A empresa, desta forma, afasta o cenário de lay-off na segunda quinzena deste mês, que chegou a ser ventilado pela comissão de trabalhadores na semana passada. Ao contrário do que aconteceu no ano passado, a unidade liderada por Miguel Sanches não iria assegurar a totalidade dos salários; ou seja, os operários perderiam um terço do rendimento.

Incerteza e prémios

O acordo laboral também é um foco de tensão nas linhas de montagem. Sem documento desde o início do ano, a administração e a comissão de trabalhadores chegaram a um pré-acordo em maio. O prémio de 500 euros em julho, aumentos salariais de 1,7% em 2022 e de 1,2% em 2023 - acima da inflação prevista nesses anos -, e ainda a duplicação do ordenado aos fins de semana eram os destaques do documento. O pré-acordo foi chumbado por 84,2% dos funcionários que votaram.

Mesmo sem acordo e sem o regresso das negociações à vista, a Autoeuropa vai pagar, já neste mês, o bónus de 500 euros e manter o prémio pelo trabalho ao sábado e ao domingo, segundo documento interno a que o Dinheiro Vivo teve acesso.

A falta de componentes, contudo, vai prolongar a incerteza na maior exportadora de Portugal no segundo semestre e mesmo em 2022. A empresa assume aos trabalhadores que "a produção de novos modelos não está garantida", quando se sabe que o monovolume Sharan vai deixar de ser fabricado em meados do próximo ano e o SUV T-Roc - o primeiro automóvel de grande produção da história da unidade - está a caminhar para o quinto ano no mercado, o que reduz as encomendas.

A tentar captar as atenções da administração na Alemanha na hora de escolher os novos modelos, a empresa procura a estabilidade na linha de montagem ao afirmar: "A nossa vantagem dependerá da posição competitiva da fábrica face às outras unidades do Grupo Volkswagen". A declaração ganha importância depois de o gigante automóvel alemão ter anunciado que a partir de 2035 não vai vender novos carros com motor a combustão.

No ano passado, saíram da Autoeuropa 192 mil automóveis, 24,6% abaixo dos 254 600 veículos montados no ano recorde, de 2019. Perto de 25 mil automóveis ficaram por fabricar à conta das paragens só neste ano. Um dos maiores motores das exportações nacionais arrisca ficar novamente abaixo das 200 mil unidades perante a falta de semicondutores que afeta a indústria automóvel mundial e à qual Portugal não escapa.

Diogo Ferreira Nunes é jornalista do Dinheiro Vivo

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