Após o turismo, Bruxelas receia pela indústria automóvel portuguesa

Comissão Europeia avalia o pós-ajustamento da troika. Diz que Portugal deve escapar a um novo confinamento pesado porque vacinou muito.

Depois do turismo, setor que continua a lutar pela recuperação completa na sequência da devastação provocada pela pandemia, Bruxelas receia agora e cada vez mais pela retoma da indústria automóvel portuguesa, refere um novo estudo com a chancela da Comissão Europeia (CE), publicado ontem no âmbito do novo ciclo de avaliações do chamado semestre europeu.

No relatório de vigilância ao pós-ajustamento económico e financeiro da troika, os economistas que seguem o País (os europeus farão este acompanhamento até que grande maioria da dívida do resgate esteja paga pois Portugal ainda deva à Comissão e à zona euro cerca de 50 mil milhões de euros), alertam que "é provável que o crescimento de Portugal seja mais moderado na segunda metade de 2021".

Os serviços da CE tomam nota de "um maior alívio de restrições no terceiro trimestre do ano, o que apoiou a recuperação no setor dos serviços", mas observam que "ao mesmo tempo, as vendas a retalho abrandaram e a produção industrial até diminuiu nos meses de verão devido aos estrangulamentos nos fornecimentos globais de componentes e matérias primas, atingindo em particular a indústria automóvel".

"No setor do turismo, embora as dormidas dos residentes tenham recuperado fortemente em julho e agosto e excedido mesmo os níveis pré-pandémicos, as visitas de turistas estrangeiros evoluíram a um ritmo muito mais fraco e permaneceram muito abaixo dos níveis da pré-pandemia", acrescenta a nova avaliação.

Mas é na indústria automóvel que a equipa de analistas da CE se detém. Se o turismo é problemático, a produção de carros e componentes pode ser mais ainda, sobretudo porque se trata de um setor (cluster) de alta intensidade tecnológica, de alto valor acrescentado, um dos setores que mais exporta e um criador de emprego de grande magnitude.

Para a CE, "o crescimento do emprego em Portugal deverá ser moderado à medida que as medidas de apoio públicas vão expirando". "O mercado de trabalho beneficiou de forma significativa com os esquemas de lay-off durante a pandemia, bem como de dois regimes adicionais para a normalização da atividade e a retoma progressiva", e isto já numa fase de "abrandamento gradual das restrições do confinamento".

"Como a maioria destes esquemas ficaram em vigor até ao final de setembro de 2021, alguns dos empregadores puderam manter o nível de emprego, mesmo após a eliminação gradual do apoio público."

Auto-crise?

"Isto aplica-se particularmente ao setor do turismo, mas também aos fabricantes de automóveis". A CE repara que ambos os setores estão sob stress, mas os industriais do automóvel, em especial, estão a "pedir ao governo que alargue as medidas de apoio na sequência da crise da escassez global de semicondutores, que pode levar a uma nova vaga de lay-offs na indústria automóvel", avisam os peritos.

"Esperamos que a recuperação económica global mantenha uma dinâmica favorável também no mercado de trabalho, embora a um ritmo bastante lento", rematam. Por isso, "a atualização de competências e as necessidades de requalificação dos trabalhadores continuarão a ser essenciais para facilitar a mobilidade da mão-de-obra entre setores."

Em todo o caso, a economia portuguesa, não sendo das mais fortes da Europa, parece estar, para já num caminho menos acidentado do que outras em termos de retoma. Tudo por causa da alta taxa de vacinação, uma das mais elevadas do mundo, aliás.

"De uma maneira geral, a situação económica de Portugal melhorou por comparação com a situação na altura da missão anterior e as perspetivas de crescimento para 2021 parecem mais favoráveis."

Embora o turismo estrangeiro e os estrangulamentos que complicam a produção de veículos automóveis persistam, "outros setores da economia têm superado as nossas expectativas".

A CE destaca o facto de "a maioria dos indicadores do mercado de trabalho terem já atingido os níveis pré-pandemia" e congratula-se com o facto de "a criação de emprego em alguns setores industriais e na construção, bem como em alguns serviços que não passam pelo contacto físico entre pessoas [podem ser feitos remotamente e em teletrabalho], terem mais do que compensado a destruição de empregos no turismo".

Assim, segundo as previsões de outono da Comissão, "o produto interno bruto (PIB) deverá aumentar 4,5% em 2021 e 5,3% em 2022. Os riscos que pendem sobre o crescimento ainda estão inclinados para o lado negativo, mas parecem mais equilibrados do que antes, graças à elevada taxa de vacinação em Portugal, que deverá reduzir o risco de imposição de novas restrições pandémicas", elogia Bruxelas.

Bruxelas quer ver o novo OE2022 o mais rápido possível

Em todo o caso, há problemas. Nas contas públicas, a Comissão coibiu-se (desta vez apenas) de fazer uma avaliação muito aprofundada e prospetiva, com recomendações novas, porque Portugal foi o único país que não entregou o seu esboço de Orçamento do Estado de 2022 (porque este chumbou logo na votação no Parlamento).

Em todo o caso, a CE já se pôs em posição. A 15 de novembro passado, enviou logo uma carta às "autoridades portuguesas" a pedir que estas "apresentem oportunamente e logo que possível um Projeto de Orçamento do Estado para 2022" e que o façam rapidamente: "pelo menos um mês antes de a nova Proposta de Lei do Orçamento vir a ser aprovada" pelo novo Parlamento que sair das eleições de 30 de janeiro de 2022.

Na dimensão privada da economia portuguesa, a CE avaliou os desequilíbrios macroeconómicos dos países, se eles são graves ou muito graves. Para Bruxelas, vão ser necessárias "apreciações aprofundadas em doze Estados-Membros, designadamente, Croácia, Chipre, França, Alemanha, Grécia, Irlanda, Itália, Holanda, Portugal, Roménia, Espanha e Suécia".

No anterior ciclo do semestre europeu, estes países já apareciam no radar. "Croácia, França, Alemanha, Irlanda, Holanda, Portugal, Roménia, Espanha e Suécia apresentavam desequilíbrios enquanto Chipre, Grécia e Itália tinham desequilíbrios excessivos."

Alguns dos maiores problemas de Portugal são estruturais e conhecidos. A dívida privada é enorme e excessiva, uma das maiores da Europa em percentagem do PIB, o malparado preocupa, a produtividade das empresas é magra, algumas fileiras de competitividade externa são frágeis. Em suma, a economia privada continua a pecar por ter um fraco potencial.

Luís Reis Ribeiro é jornalista do Dinheiro Vivo

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