António Ramalho assume Novo Banco com venda por fechar

Prejuízos agravaram para 362,6 milhões de euros. Plano de reestruturação e venda de ativos continuam em curso

Processo de venda, reestruturação, redução de pessoal, alienação de ativos não estratégicos. António Ramalho, antigo presidente da Infraestruturas de Portugal (IP), assume hoje a liderança do Novo Banco com vários desafios em cima da mesa e num momento--chave no processo de venda do banco de transição, que ontem revelou prejuízos de 362,6 milhões nos primeiros seis meses do ano, um agravamento de 44%.

António Ramalho regressa à banca, onde esteve a maior parte da sua carreira - esteve dez anos a gerir os bancos de António Champalimaud e passou 12 anos no BCP -, depois de quatro anos na Estradas de Portugal e também na Refer, agora IP. Substitui Eduardo Stock da Cunha, que regressa ao britânico Lloyds.

A escolha foi consensual: o nome foi sugerido pelo Banco de Portugal e teve a aprovação do governo. A experiência de António Ramalho na banca vai ajudar ao processo de venda do Novo Banco e o seu temperamento conciliador e a formação em Direito ajudarão às negociações, defendem as fontes contactadas pelo DN/Dinheiro Vivo. O gestor também tem uma relação profissional próxima com Sérgio Monteiro, que está a liderar o processo de venda e que foi responsável pela fusão entre a EP (liderada por Ramalho) e a Refer quando era secretário de Estado dos Transportes.

O processo de venda do Novo Banco será o dossiê mais urgente com que António Ramalho terá de lidar. O Fundo de Resolução recebeu quatro propostas de compra - BPI, fundos Apollo/Centerbridge, Lone Star e ainda uma manifestação de interesse, sem preço, do BCP, como já confirmou o presidente do banco, Nuno Amado. O Santander Totta "não foi a jogo" e não avançou com uma proposta, garantiu Vieira Monteiro, presidente do banco, por o Novo Banco "não se enquadrar nos critérios". Fernando Ulrich, do BPI, não quis comentar, alegando confidencialidade.

O DN/Dinheiro Vivo sabe que as últimas semanas têm sido de intensa troca de informação entre os candidatos e o Fundo de Resolução. As negociações só deverão formalmente arrancar em setembro, devido "à complexidade da escolha" entre propostas que têm "naturezas muito diferentes". O objetivo da equipa que está a vender o Novo Banco é conseguir o maior encaixe possível para o Estado, uma vez que o banco de transição recebeu uma injeção de 4,9 mil milhões de euros - 3,9 mil milhões de capital público.

O modelo de venda será definido consoante as demonstrações de interesse dos compradores e deverá passar por uma venda direta a institucionais ou a venda em Bolsa, depois do verão, mas deixando de fora os investidores de retalho, como já fez saber Carlos Tavares, o presidente da CMVM.

A equipa está a trabalhar para definir o modelo o mais rapidamente possível - o objetivo era até ao final de julho, mas o prazo derrapou - e fechar a venda ainda neste ano, embora o prazo só termine em agosto de 2017. Mário Centeno, o ministro das Finanças, já admitiu, numa carta a Bruxelas, que se o Novo Banco não for vendido até esta data entrará em "liquidação ordeira", revelação que levantou polémica junto da oposição e também dos trabalhadores do banco.

Reestruturação em curso

Enquanto decorre a venda, o Novo Banco continua a implementar o plano de reestruturação, que agora já será levado a cabo por António Ramalho. O gestor não é alheio a estes processos, já que sobre a sua liderança a fusão da EP com a Refer também obrigou a uma reestruturação. No Novo Banco, o plano inicial previa a redução de mil trabalhadores e o encerramento de cerca de 500 balcões.

"O redimensionamento da rede de distribuição continua a evoluir no sentido de, em 31 de dezembro de 2016, se cumprir com sucesso o objetivo estabelecido", com o Novo Banco a ficar com 550 balcões, referiu ontem o banco no comunicado de apresentação de contas.

O Novo Banco tem também em curso um plano para vender 700 milhões de euros em ativos imobiliários até ao final do ano, mas não divulgou no relatório quanto já foi vendido. No final do primeiro trimestre, o valor rondava os cem milhões de euros. À frente da Estradas de Portugal, António Ramalho também deu ordem para se avançar com a venda de ativos imobiliários considerados não estratégicos.

Em curso está também a venda de várias operações internacionais, nomeadamente as subsidiárias em França (BES Vénétie) e Macau (NB Ásia). O objetivo, segundo o relatório divulgado na CMVM, é concluir a operação até ao final do ano. Os ativos não estratégicos disponíveis para venda foram colocados no chamado side bank e a ordem é vender. Neste veículo estão, além dos ativos imobiliários, a seguradora GNB Vida, a participação na Ascendi e as operações internacionais do Novo Banco, à exceção da participação em Espanha, que está a ser reestruturada. O objetivo é reduzir o peso destes ativos não estratégicos para nove mil milhões de euros até ao final deste ano.

Paralelamente, na banca comercial, António Ramalho terá de voltar a captar a confiança dos depositantes: no semestre os depósitos registaram uma redução de 8,4% face a dezembro de 2015, justificado sobretudo com o impacto dos grandes depositantes e as transferências para operações descontinuadas.

Contribuições agravam prejuízo

O plano de reestruturação está praticamente concluído e António Ramalho terá agora que reorganizar a entidade e procurar regressar aos lucros: os prejuízos de 362,1 milhões de euros anunciados ontem, que comparam com perdas de 251,9 milhões de euros na primeira metade de 2015, são justificados precisamente com provisões de 109 milhões para custos de reestruturação e a contribuição para o fundo de resolução nacional, europeu e ainda a contribuição extra sobre o setor bancário. Feitas as contas, as provisões do banco totalizaram 576,7 milhões de euros, mais 305,1 milhões.

O produto bancário situou-se em 446,5 milhões de euros, um aumento de 7,7%, "com o resultado financeiro a evidenciar um crescimento de 22,0%", destaca o Novo Banco. A margem financeira aumentou em 22%, ascendendo a 262 milhões.

Os custos operativos de 304,2 milhões de euros caíram 23,4% face ao ano passado, "refletindo o esforço empreendido pelo grupo, nomeadamente na redução do número de colaboradores, na simplificação e melhoria de processos e na otimização da estrutura operativa e comercial".

Do ponto de vista da qualidade dos ativos, o rácio de crédito vencido há mais de 90 dias em relação ao crédito total foi de 15,7%, com o rácio de cobertura por provisões a fixar-se em 104,3%. O crédito em risco representava 23,9% do total da carteira de crédito. A produção de crédito aumentou no primeiro semestre, a nível individual, registando um aumento de 53% face à média mensal de produção de 2015 e uma melhoria de 70% no crédito à habitação. Contudo, o crédito a clientes caiu 8,4%, totalizando 28,9 milhões.

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