Acionista da Groundforce: Pedido de insolvência "agrava" problemas

Alfredo Casimiro considera que pedido de insolvência "não resolve" o problema da Groundforce. E que perante a falta de apoio se vê "forçado a vender" a sua posição maioritária.

A relação entre a Groundforce e a TAP tem sido tensa nos últimos meses e feito correr muita tinta nos jornais. No início desta semana, este relacionamento conheceu um novo capítulo: a companhia aérea (detida em 72,5% pelo Estado) requereu nos tribunais a insolvência da empresa de assistência em terra. Cabe agora às autoridades judiciais analisar e decidir se é este, ou não, o caminho para a Groundforce. Entretanto, a Groundforce reagiu ontem, com Alfredo Casimiro, CEO e principal acionista (através da Pasogal, que detém 50,1% da Groundforce) a dizer que foi "surpreendido pelo pedido de declaração da insolvência", tendo tido conhecimento "pelos jornais".

O patrão da Groundforce diz que o pedido de insolvência foi feito "com o patrocínio do Governo", sendo que esta "não resolve o problema da empresa. Pelo contrário, agrava-o e adia uma solução". "A Groundforce não é um problema para a TAP. A TAP, sim, é um problema para a Groundforce. Nenhum dos graves problemas que a TAP enfrenta se resolverá à custa da Groundforce. É, por isso, irresponsável, agravar a situação da Groundforce porque, inevitavelmente, isso agravará também a situação da TAP e de todos os trabalhadores deste universo", defendeu ainda em comunicado.

Alfredo Casimiro voltou ainda a apontar o dedo ao executivo: "o Governo neste processo, teve sempre dois pesos e duas medidas, senão mesmo duas caras. Usou uma cara para lidar com uma empresa pública que nacionalizou, a TAP, e outra cara para lidar com uma empresa privada que parece querer nacionalizar, a Groundforce".

Raiz do problema

Os problemas atuais da TAP e da Groundforce têm a mesma raiz: a pandemia de covid-19, cujas restrições para travar o contágio atirou o transporte aéreo para uma crise. A TAP recebeu uma Ajuda de Estado de 1200 milhões de euros, sendo que desenvolveu um plano de reestruturação. A Groundforce tem também um problema de liquidez porque, se os aviões estão parados em terra, os seus serviços não são necessários. Perante as dificuldades da empresa de assistência em terra, a companhia aérea - que detém uma participação de 49,9% da Groundforce - começou em agosto de 2020 a fazer adiantamentos de pagamentos de serviços prestados ou a prestar. Estes adiantamentos terminaram neste ano quando a TAP considerou que era preciso mais garantias do reembolso da dívida da Groundforce à TAP, pedindo um penhor a favor da TAP sobre as ações da Pasogal.

E foi a partir deste momento que a situação escalou. Houve várias trocas de opinião em público entre Alfredo Casimiro e o Governo sendo que, dias depois, ficou claro que a Pasogal não tinha condições para dar os títulos em penhora. Uma segunda hipótese encontrada então passava por um aumento de capital, que seria subscrito pela companhia aérea, de forma a dar liquidez a empresa de assistência em terra para cumprir com as suas obrigações para com os trabalhadores - que em meados de março tinham recebido apenas 500 euros do salário de fevereiro - e com as autoridades. Essa via também não chegou a acontecer.

A 19 de março, a Groundforce e a TAP chegaram a um acordo: a companhia aérea comprou os equipamentos à empresa de handling, por quase sete milhões de euros, e simultaneamente passou a aluga-los à Groundforce, tendo esta de pagar esse aluguer. Com os cerca de sete milhões de euros, a Groundforce regularizou os pagamentos dos salários em atraso, bem como efetuou o pagamento dos salários de março e abril, e cumpriu também com as suas obrigações fiscais.

Contudo, no final de abril, a Groundforce entendeu que este acordo colocava em causa a "sobrevivência" da empresa e avançou com a rescisão do mesmo. A TAP não concorda sendo, aliás, um dos argumentos apontados, no comunicado, para o pedido de insolvência, onde refere que a rescisão do contrato é uma "decisão unilateral (e ilegal) da Groundforce" e que há "incumprimento por falta de pagamento do aluguer dos equipamentos vendidos à TAP".

Um dos outros motivos invocados é a "inexistência de soluções credíveis para a possibilidade de obtenção de financiamento (em particular, face à recusa de financiamento e de prestação de garantia por parte da Caixa Geral de Depósitos e do Banco Português de Fomento)". A Groundforce tentou obter um empréstimo de 30 milhões de euros junto do Banco de Fomento que, em abril, revelou que este "não mereceu aprovação".

Venda aos belgas?

O requerimento do pedido de insolvência da Groundforce surge cerca de dois dias depois de Alfredo Casimiro ter anunciado que mandatou o banco Nomura para encontrar um comprador para a sua posição, devendo o banco prestar "especial atenção" aos belgas da Aviapartner. No comunicado emitido nesta terça-feira, Alfredo Casimiro considera que foi empurrado para vender. "Entre os potenciais compradores que já manifestaram interesse está uma empresa belga que beneficiou de ajudas estatais, na mesma altura em que eu as solicitei em Portugal e me foram negadas. É com profunda tristeza que me vejo forçado a vender", diz.

No comunicado em que explica os motivos para pedir a insolvência, a transportadora aérea lembra que "o pedido de declaração de insolvência não impede que esse processo de venda possa prosseguir e concretizar-se, se assim for a vontade das partes em negociação".

Ana Laranjeiro é jornalista do Dinheiro Vivo

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