A partir de 2023. CP prepara ligação Lisboa-Porto pelas Beiras

A ligação ferroviária de 46 quilómetros entre as cidades da Covilhã e da Guarda foi retomada, com cinco paragens intermédias.

Será preciso esperar dois anos para o início das viagens entre Lisboa e Porto através das Beiras. A partir de meados de 2023, a CP pretende introduzir um novo serviço ferroviário intercidades que ligue as duas maiores cidades portuguesas ao interior do país, com uma cadência de três em três horas. O lançamento desta oferta depende da Infraestruturas de Portugal (IP).

Será retomada, desta forma, a ligação direta entre o Porto e cidades como Guarda, Covilhã e Castelo Branco. Atualmente, é necessário mudar de comboio em Pampilhosa, Coimbra-B ou Entroncamento para chegar às três cidades do interior. A transportadora também quer apostar em Intercidades entre Castelo Branco e Coimbra; por agora, é necessário um transbordo na estação do Entroncamento.

Anunciadas ontem pelo presidente da CP, Nuno Freitas, as novas ligações serão feitas com as recuperadas locomotivas 2600 a rebocar várias carruagens ARCO, compradas a Espanha em meados do ano passado.

Para já, regressaram os comboios nos 46 quilómetros que separam Covilhã e Guarda, com o serviço regional e o Intercidades a realizarem cinco paragens intermédias e ao mesmo preço (4,5 euros). Atrair passageiros é o principal objetivo desta estratégia, que parece estar a resultar.

O Dinheiro Vivo testemunhou ontem, entre a Covilhã e a Guarda, a presença de grupos de passageiros que há 12 anos não podiam usufruir do comboio. Selfies, fotografias à paisagem e muitas dúvidas sobre o preço do bilhete marcaram o regresso da população à ferrovia. Dois dias antes, na Benespera, que esteve à beira de ficar de fora da lista de paragens, houve uma "manifestação de agradecimento", com 94 pessoas a entrarem ao mesmo tempo no comboio.

Filipe Santos, um dos organizadores do ajuntamento, entregou a lista de participantes ao ministro das Infraestruturas e da Habitação, Pedro Nuno Santos, à ministra da Coesão Territorial, Ana Abrunhosa, ao presidente da CP, e ao presidente da câmara da Covilhã, Vítor Pereira.

"Mais do que tudo, esperemos que o comboio não volte a deixar de parar aqui. Trabalho em Lisboa e sempre que venho quero parar na Benespera. A população juntou-se para ver o comboio. Seria ótimo conseguirmos ter melhores ligações até Coimbra e até ao Porto", deseja Filipe Santos.

A eletrificação e modernização do troço de 46 quilómetros custou 77,1 milhões de euros e ficou pronta com mais de dois anos e meio de atraso. Além da introdução de sinalização eletrónica em todo o troço, foram automatizadas 18 passagens de nível, construída uma passagem de nível e as pontes centenárias foram reforçadas e reabilitadas. Podem circular comboios de mercadorias até 600 metros, reduzindo os custos de transporte na área da logística.

A velocidade média dos comboios, contudo, não ultrapassa os 80 km/h e só em cinco quilómetros é que se pode viajar a 100 km/h. A remodelação das estações entre Guarda e Covilhã também não permite comboios muito compridos.

As plataformas curtas vão dificultar a operação da CP caso seja preciso reforçar a oferta: em Maçainhas, para caber um Intercidades com três carruagens, a locomotiva tem de ficar fora da plataforma. Em Benespera, a última porta da carruagem da cauda tem saída para fora da plataforma. Os passageiros acabarão por ser penalizados se um Intercidades circular com mais de três composições ou duas automotoras elétricas tiverem de deslocar-se em conjunto.

Obstáculos como este vão obrigar os técnicos da CP a trabalharem com a gestora de infraestruturas para garantir a entrada de novos serviços em 2023. "Queremos que este desígnio se concretize sem falhas e sem constrangimentos, nomeadamente nos pontos mais sensíveis de descoordenação, tais como canais horários e comprimento de plataformas de embarque ajustados às dimensões dos comboios.

Os autarcas da região também exigem mais oferta e rapidez à CP e à IP: "temos de reduzir o tempo de viagem entre Lisboa e Covilhã das 3.20 horas para as 2.40 até 2030", exigiu Vítor Pereira. O autarca também notou que, na Beira Interior, "é difícil usar a ferrovia. Os horários não são compatíveis e os preços não são acessíveis. Temos de desenvolver uma oferta adequada às populações".

Em resposta, Pedro Nuno Santos lembrou que é preciso "conjugar a capacidade financeira do país com os objetivos [na ferrovia] com calma, peso e medida." Aludindo à falta de orçamento, o ministro lembrou: "não somos propriamente a Suíça ou a Noruega."

Diogo Ferreira Nunes é jornalista do Dinheiro Vivo

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