A mobilidade suave não é só uma fase, é o futuro

"A pandemia e o boom da mobilidade suave - alterou as nossas cidades e padrões de mobilidade?" foi a pergunta a que se propuseram responder os participantes do segundo debate do último dia da quarta edição do Portugal Mobi Summit. Paulo Tavares, curador editorial do PMS 2021, esteve à conversa com Will Norman, comissário para a Mobilidade Ciclável e Pedonal da Câmara de Londres, Andrea Vota, diretor de Políticas Públicas para Portugal, Espanha e Itália da Bolt, e Miguel Peliteiro, cofundador da CycleAI. No final, a resposta foi um consensual sim.

"Uma das coisas boas da pandemia foi a diminuição do trânsito e o facto de as pessoas terem começado a andar a pé, a usarem bicicletas, os miúdos começaram a andar de skate nos seus bairros. Com o desconfinamento, aqui em Londres, muitas pessoas ainda estão em teletrabalho ou num regime híbrido, mas estamos a voltar a um volume normal de carros as estradas. Mas aos dias de semana continuam a haver muitas bicicletas nas ruas e ao fim de semana é uma coisa incrível", contou Will Norman.

Andrea Vota, que vive em Madrid, recordou que na altura do confinamento havia muitas pessoas na rua a correr ou a andar de bicicleta. Atualmente, e falando de negócios a nível europeu, diz que na Bolt "com o desconfinamento temos visto uma grande subida dos nossos serviços". "Se tiveres ofertas diferentes de transporte na cidade, públicos e privados, como a Bolt, as pessoas devem aproveitar".

O português Miguel Peliteiro também começou por recordar a sua experiência pessoal para explicar de onde vem a sua ligação às bicicletas e o que o levou a criar a CycleAI. "Eu fiz todos os meus estudos médicos em Barcelona e levava a bicicleta para todo o lado e criei este hábito. Com a pandemia, voltei para Portugal para estar com a minha família, com os meus pais, e, numa viagem de bicicleta, numa ciclovia, tive um acidente e achei que tinha de zelar pela segurança das pessoas".

Na opinião de Peliteiro, "a falta de infraestruturas pode explicar algum dos problemas em relação às biclicletas, a cultura das pessoas também, mas não explica tudo". "A falta de segurança é um entrave para quem quer usar bicicletas e trotinetes nas cidades", prosseguiu, notando que "em Lisboa, por exemplo, as pessoas sentem que há um investimento nas ciclovias e sentem-se mais seguras".

Will Norman concorda com Peliteiro, dizendo que "a maior barreira [para o uso de bicicletas ou trotinetes] é a perceção de segurança". "No último século desenhámos as cidades para os automóveis e isso tem de mudar. Temos de tornar as estradas, as ruas, mais seguras para as pessoas".

"O que aprendemos em Londres é que onde fazemos ciclovias as pessoas usam-nas. Vão trabalhar, vão para a escola, vão visitar amigos, de bicicleta", explicou o comissário para a Mobilidade Ciclável e Pedonal da Câmara de Londres. "As ciclovias são essenciais e, aqui em Londres, estamos a colocá-las nas ruas com mais trânsito. Mas também já estamos a colocá-las nas áreas residenciais".

A CycleAI foi criada por Miguel Peliteiro precisamente para tornar as viagens dos ciclistas nas cidades mais seguras. "Podemos interpretar uma imagem e dizer se é um local seguro para conduzir bicicletas, se há ciclovias, se há autocarros, por exemplo", explicou o médico e cofundador do projeto. Neste momento, estão a trabalhar na implementação de um sistema de GPS, como se fosse uma espécie de Google Maps, mas para ciclistas.

Mas será que esta mobilidade suave é uma fase passageira impulsionada pela pandemia ou é algo que veio para ficar? "Não é uma fase. Tivemos uma crise com a pandemia, mas temos outras crises, como a poluição e a obesidade. É essencial que mudemos a forma como nos movemos", defendeu Will Norman. "O fator-chave são as infraestruturas, mas também mudar a mente das pessoas".

E esta mudança, defendeu, deve começar a ser feita com os mais novos. "Temos de incentivá-los a irem a pé para a escola, a usarem a bicleta, a trotinete. Temos de levar os miúdos a pensar que isto é o novo normal. Este é o futuro, tem de ser o futuro", sublinhou o londrino.

"Paris já está a fazer coisas, como criar áreas pedestres nos Campos Elíseos", exemplificou Andrea Vota. "Tem de se dar mais espaço às pessoas do que aos carros e a questão das infraestruturas para incentivar a mobilidade suave é essencial. As cidades têm de ser habituar aos novos hábitos".

Peliteiro subscreve a afirmação de Vota. "É uma questão de adaptação", disse. Mas também das pessoas. "Somos um animal social que se adapta às situações mais extremas. E esta é uma situação extrema climática. Por isso, temos de nos adaptar a novas normalidades. E a pandemia trouxe isso. Em Paris, adaptaram-se à nova normalidade".

Paulo Tavares lembrou que na recente campanha para a Câmara de Lisboa a questão das ciclovias foi um tema muito debatido, dizendo que terá custado a reeleição a Fernando Medina. Em Londres o cenário é semelhante, perguntou a Will Norman.

"A mudança é difícil, principalmente quando é algo que conhecem desde sempre, como o carro", respondeu Norman. "Tivemos muita contestação às ciclovias e aos limites de velocidade, mas nas eleições vimos que as pessoas querem isto, querem uma cidade mais verde. E ajudou à reeleição do meu chefe [Sadiq Khan, reeleito mayor de Londres em maio]", prosseguiu. "Temos de ser otimistas para fazer este trabalho. E temos de trabalhar com as pessoas, embora reconhecendo que não podemos convencer todas, mas temos de mostrar os dados dos benefícios".

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