A conspiração que liga Covid e rede 5G

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A conspiração que liga Covid e rede 5G

Começou como uma mentira facilmente rebatida, e agora está a gerar vandalismo em vários países. Mas há uma ponta de verdade que é preciso conhecer.

A teoria da conspiração começou assim: no dia 19 de Janeiro, quando o covid-19 alastrava na China, um post no Twitter especulava sobre uma ligação entre os efeitos da rede 5G e a doença. "Wuhan tem agora mais de 5000 estações base #5G e terá 50.000 até 2021 - é uma doença ou efeito 5G?", dizia o tweet.

Não é preciso investigar muito para que se conclua que aquele tweet era um salto lógico desmesurado. Basta viver em Portugal, onde não há uma única antena 5G em funcionamento. Aliás, o leilão da Anacom que iria atribuir às operadoras licenças para iniciar essa nova tecnologia da rede móvel foi adiado em Março. Portugal tem Covid-19, mas não terá 5G tão cedo.

Contudo, este tipo de desinformação online começou a produzir efeitos reais. No dia 2 de Abril, uma torre 5G foi incendiada em Birmingham, na Inglaterra. No dia seguinte, incendiaram uma caixa de telecomunicações em Liverpool. Uma hora mais tarde, chegou uma chamada de emergência sobre outra torre de telemóveis em Liverpool que estava a arder.

Segundo o The New York Times, já foram cometidos mais de 30 atos vandalismo deste tipo, só no Reino Unido. Há ainda a registar 80 outros incidentes, em que técnicos de empresas de telecomunicações foram assediados enquanto trabalhavam.

A mentira de que há uma ligação entre as antenas da nova tecnologia móvel e a doença que afeta quase todos os países do mundo ganha força em grupos do Facebook, em mensagens no WhatsApp e nos vídeos do YouTube. A teoria é sempre igual: as ondas de rádio emitidas pela tecnologia 5G estão a provocar pequenas alterações no corpo das pessoas que as fazem sucumbir ao vírus.

Esta mensagem errada tem sido difundida por pessoas assustadas, entre as quais algumas celebridades, como os atores John Cusack e Woody Harrelson nas redes sociais.

No YouTube, os 10 vídeos mais populares publicados em março, que reproduzem esta mentira, foram vistos mais de 5,8 milhões de vezes.

O "princípio da precaução"

Como quase sempre, uma mentira deste tipo precisa de alguma ponta de verdade. E se é fácil desmontar a falsidade que origina esta, em particular (porque o Covid-19 existe e cresce onde não há 5G, da mesma forma que existe e cresce onde há), já será mais difícil responder a outras perguntas. A radiação móvel emitida pelas antenas 5G é totalmente segura? Temos informação suficiente para ficarmos descansados?

Em 2019, o grupo de jornalistas Investigate Europe (que o DN integra) entrevistou dezenas de cientistas especializados nos efeitos dos campos electro-magnéticos, e todas as autoridades internacionais relevantes.

A conclusão deste trabalho é alarmante: falta muita informação, que deveria ser considerada antes de se avançar para esta revolução tecnológica que permitirá, entre outras coisas, carros sem condutor, operações médicas à distância, internet das coisas e acessos ultra-rápidos a filmes e música, num novo mundo em que todas as descargas online se farão em segundos.

Para conseguir tudo isto, a rede 5G utilizará parte do espetro atribuído às ondas de banda alta ou milimétrica. Trata-se de ondas de curto alcance, incapazes de atravessar paredes ou outros obstáculos, como árvores. Podem ser direcionadas individualmente, mas também têm de ser retransmitidas de uma estação de base através de pequenas antenas para evitar obstáculos e chegar ao seu destino. Estas estações serão pequenas, do tamanho de caixas de alarme de incêndio.

O que obrigará as empresas de dados a colocar dezenas de milhares destas pequenas estações de base no mobiliário urbano, postes de iluminação, e no exterior e interior dos edifícios. Atualmente, a rede 4G utiliza menos antenas, mais potentes, mais afastadas do nosso dia a dia, graças ao seu alcance de transmissão.

É dessa quantidade de antenas que surge o medo de um efeito mais nocivo da radiação para a saúde.

O "princípio da precaução" (que a União Europeia estabelece como regra) devia ter sido seguido? A Suiça acha que sim. Ali, o início da nova rede 5G estava iminente mas as autoridades emitiram um parecer que travou a tudo. As autoridades suiças querem estudar melhor o assunto.

A agência ambiental suíça alertou anteriormente para os riscos desconhecidos para a saúde pública relacionados com o "electrosmog" devido ao grande aumento dos campos electromagnéticos criados a partir da tecnologia móvel.

No final de Janeiro de 2020, a agência (Bafu) enviou uma carta aos governos cantonais da Suíça, na qual, de acordo com o Financial Times, apelava a um adiamento na utilização de todas as novas torres 5G. A Suíça tem limites de exposição às radiações mais estritos do que a maioria dos outros países europeus. A agência afirmou que precisa de testar o impacto da radiação 5G antes de poder fornecer critérios universais. "Por conseguinte, a Bafu examinará a exposição através de antenas adaptativas [5G] em profundidade, se possível em condições operacionais reais. Este trabalho levará algum tempo", afirmou, de acordo com a FT.

Um negócio "vital" e duvidoso

Desde logo, o 5G não é um negócio óbvio, explica William Webb, autor do livro O Mito 5G, professor visitante em várias universidades (como Cambridge) e membro da Royal Academy of Engineering britânica: "As receitas das operadoras vêm de assinantes que pagam taxas mensais. Estas caíram nos últimos anos e ninguém espera que aumentem, mesmo com 5G. Se a base de assinantes for a mesma, a receita cairá. As operadoras esperam encontrar novos assinantes na forma de setores verticais da indústria, como carros ou dispositivos da internet das coisas (IoT), mas mesmo aqui não há um fluxo claro de mercado e de receita. Sem crescimento de receita, é difícil justificar investimentos maciços em 5G." Nesta altura, 85% dos europeus (465 milhões) já dispõem de assinaturas de dados móveis.

Em Itália, por exemplo, as empresas de telecomunicações tiveram de gastar 6,5 mil milhões, apenas no leilão de ondas de alta velocidade do novo 5G. Isso foi mais do dobro do que o governo italiano previra, criando um custo "ruinoso" para as empresas.

Quem ganha? Governos e empresas tecnológicas, resume William Webb. "Para os fabricantes (Ericsson, Nokia, Huawei, etc.) há um claro benefício - se o 5G for amplamente implantado, eles venderão mais equipamentos para os operadores. Para os governos, percebe-se ser um benefício político alinharem com a mais recente tecnologia digital (e os ministros raramente entendem as questões envolvidas). O problema é que não é do interesse da maioria dizer algo negativo sobre o 5G, já que isso não traz nenhum benefício. Isso significa que o hype pode ficar fora de controlo", ironiza Webb.

O resultado é um grande salto no vazio.

Os governos na Europa veem o 5G como vital para competir numa corrida global que atualmente é liderada pelos EUA e pela China. O 5G será um "ativo fundamental para a Europa competir no mercado global, com receitas mundiais de 5G para as operadoras móveis que devem chegar a 225 mil milhões anuais até 2025", assegura a Comissão Europeia.

Efeitos na saúde?

E depois há a dúvida principal: a radiação proveniente da tecnologia móvel é perigosa? Como o mundo está prestes a entrar na era 5G, engenheiros, físicos, biólogos e médicos podem olhar para milhares de estudos e cálculos sobre os efeitos dos campos electromagnéticos de radiofrequência na saúde nas anteriores tecnologias 2G e 3G. Mas há um forte desacordo quanto à forma de interpretar os resultados - e as implicações para a rede 5G, para as quais há uma particular falta de estudos.

Um grupo de cientistas domina as entidades que devem fornecer aconselhamento sobre o risco de radiação. Isto significa que a investigação "certificada", que chega ao radar dos políticos que têm de utilizar a ciência para fazer leis e regulamentos, é limitada.

Isto constitui um monopólio de opinião, diz Einar Flydal. O antigo cientista da Telenor na Noruega é autor do livro "Smart meters, the law and health". Flydal critica a base científica que está na base das decisões políticas sobre os limites de segurança radiológica que se aplicam na maioria dos países.

"A maioria dos investigadores são definidos como dissidentes e são simplesmente excluídos através de um processo que não se entende do ponto de vista ético. Isto não pode ser compreendido a partir de resultados científicos. Deve ser entendido politicamente, como o resultado de uma batalha de interesses em que as autoridades de proteção contra as radiações se tornam frequentemente peões com falta de recursos", afirma Flydal.

A sua perspetiva é contrariada por Gunnhild Oftedal, professor associado da Universidade de Ciência e Tecnologia norueguesa, especializado nos efeitos dos campos eletromagnéticos sobre os seres humanos. Oftedal não gosta que se caracterize assim a investigação, como sendo constituída por dois campos antagónicos.

"As questões que podem ter consequências de grande alcance para os indivíduos e para a sociedade são facilmente polarizadas, basta olhar para o debate sobre o clima. Neste assunto é fácil colocar as pessoas em dois campos, mas a paisagem é muito mais matizada", alerta Oftedal. "Apoiamo-nos nas análises feitas por grupos de peritos internacionais. Estes consideram toda a ciência disponível, avaliam-na e tiram conclusões com base no quadro científico global".

As autoridades de segurança radiológica na Europa recebem aconselhamento de algumas ou de todas estas organizações científicas:

- A Comissão Internacional para a Protecção contra as Radiações Não Ionizantes, ICNIRP.

- O Comité Científico da Saúde, Ambiente e Riscos Emergentes da UE, SCENIHR / SCHEER.

- O Grupo CEM da Organização Mundial de Saúde da OMS.

- Unidade sobre o Cancro da OMS, IARC, Agência Internacional de Investigação sobre o Cancro.

- O Conselho Científico sobre Campos Electromagnéticos da Autoridade Sueca para a Segurança das Radiações.

- O Grupo de Especialistas em Radiação Não-Ionizante, AGNIR, um comité público britânico que existiu até 2017.

Estes grupos deviam garantir uma vasta gama de pareceres científicos. No entanto, não é esse o caso.

A ICNIRP é particularmente influente, pois não só avalia a investigação sobre as radiações e os riscos para a saúde, como também fornece orientações para os limites de segurança que a maioria dos países utiliza. Trata-se de uma organização privada, registada na Alemanha, nos arredores de Munique, e que funciona atrás de uma porta amarela nas instalações do gabinete federal alemão para a protecção contra as radiações. As decisões sobre quem são os cientistas que fazem parte da organização são tomadas pela própria ICNIRP.

"A ICNIRP não tem um processo aberto para a eleição dos seus novos membros. É um grupo que se auto-perpetua, não sendo permitida a discordância. Porque é que isto não é problemático", pergunta Louis Slesin, editor da publicação Microwave News, em Nova Iorque. Ele tem acompanhado o debate científico sobre radiação e saúde durante décadas.

"Não há cientistas altamente qualificados em número suficiente", explica Mike Repacholi, um pioneiro da investigação sobre radiação que fundou a ICNIRP em 1992. A investigação excluída muitas vezes não satisfaz normas elevadas, acrescenta Eric van Rongen, director da ICNIRP. "Não somos contra a inclusão de cientistas que pensam de forma diferente. Mas eles têm de preencher o perfil numa posição específica e não podem ser aceites apenas pelas suas opiniões dissidentes", diz van Rongen.

Sobreposição de cientistas

A ICNIRP é, de facto, a organização que estabelece os limites de segurança radiológica em grande parte da Europa. Ainda assim, é apenas um de entre vários grupos científicos. No entanto, os grupos são, em grau notável, compostos pelos mesmos peritos.

Dos 13 cientistas da ICNIRP, seis são membros de, pelo menos, um outro comité. No grupo da OMS, isto aplica-se a seis em cada sete. Um em cada três investigadores da comissão da UE que emitiu pareceres sobre radiações em 2015 esteve representado noutros grupos.

Isto não é assim tão estranho, de acordo com Gunnhild Oftedal. Ela é membro tanto da comissão ICNIRP como do grupo de investigação da OMS. "Pede-se às pessoas que demonstrem ter competências. Vejam quem tem assento em conselhos de administração e conselhos em geral, é assim em toda a sociedade", diz.

As comissões estão de acordo entre si sobre uma premissa básica: o único risco documentado para a saúde decorrente da radiação móvel é o aquecimento dos tecidos corporais. Os limites de segurança da radiação são estabelecidos para evitar que isso aconteça. Desde que se respeitem estes limites, não existe qualquer risco para a saúde, segundo todos os comités, excepto um.

Para a maioria dos utilizadores móveis é fácil manter-se seguro em relação a estes limites: Só são atingidos ou ultrapassados se se estiver diretamente em frente de uma estação de base a uma distância inferior a 10 metros. Não são quase cinco mil milhões de utilizadores móveis a nível mundial a prova de que isto funciona bem?

Estudos encontram riscos

Não, argumentam um número significativo de cientistas que acreditam que as pessoas podem ser prejudicadas por estarem expostas a radiações móveis muito abaixo destes limites, especialmente no decurso de muitos anos de utilização.

A Oceania Radiofrequency Scientific Advisory Organisation, uma entidade australiana, examinou 2266 estudos e encontrou "efeitos biológicos ou efeitos na saúde significativos" em 68% dos mesmos. Outro, o Bioinitiative Group, referiu-se a até 1800 estudos quando concluiu que muitos desses efeitos causam provavelmente danos à saúde se as pessoas forem expostas a radiação durante muito tempo. Isto porque a radiação interfere nos processos normais do organismo, impedindo-os de reparar o ADN danificado e criando um desequilíbrio no sistema imunitário, dizem estes cientistas.

Segundo o relatório elaborado pelo Bioiniciative Group, a lista de possíveis danos é assustadora: Má qualidade do esperma, autismo, alzheimer, cancro do cérebro e leucemia infantil.

O regulador "serve a indústria"?

A ICNIRP está no centro do choque de opiniões entre cientistas. O biólogo holandês Eric van Rongen não descarta que a radiação móvel tem efeitos abaixo das directrizes recomendadas em matéria de segurança radiológica. "Mas não estamos convencidos de que esses efeitos sejam nocivos para a saúde", questiona ao Investigate Europe.

Os conflitos na investigação sobre os campos electro-magnéticos (CEM) têm raízes longas. Historicamente, a ciência neste domínio tem estado associada ao sector das telecomunicações e ao sector militar. Os limites de segurança da ICNIRP têm sobretudo em conta as necessidades da indústria das telecomunicações, afirma Dariusz Leszczynski, antigo investigador de longa data da agência finlandesa de proteção contra as radiações.

Em 2011, Leszczynski integrava, ​​​​​​​o organismo de combate ao cancro da Organização Mundial de Saúde, que decidiu que os CEM são "possivelmente cancerígenos" para os seres humanos.

Leszczynski não está representado no ICNIRP nem noutros grupos de peritos de renome. "O objectivo da ICNIRP é estabelecer limites de segurança que não matem as pessoas, enquanto a tecnologia funciona", ironiza.

Este cientista repete a crítica feita por Louis Slesin, o editor do Microwave News. "Há muita política para decidir o que entra num estudo e o que fica de fora". Por exemplo, excluir pessoas com mais de 60 anos de um estudo sobre tumores cerebrais na Austrália, publicado recentemente, não faz qualquer sentido", diz Slesin, salientando que a maioria dos tumores cerebrais aparece em grupos etários mais velhos.

Este estudo específico, feito por dois cientistas também representados na ICNIRP, concluiu que não pode haver ligação entre os telemóveis e os tumores cerebrais, porque a incidência de cancro cerebral na população em geral tem sido estável há anos. Mas essa conclusão contrasta fortemente com um trabalho publicado em Inglaterra em 2018 que revelou um crescimento, para mais do dobro, do glioblastoma, o tipo mais agressivo de tumor cerebral, entre 1995 e 2015.

Financiamento pode afetar os resultados

Existe frequentemente uma ligação entre as conclusões dos estudos e a fonte do dinheiro que pagou a investigação. A ciência financiada pela indústria é menos suscetível de encontrar riscos para a saúde do que os estudos pagos pelas instituições ou autoridades.

O dinheiro da investigação vai frequentemente para as universidades e tem "biombos" entre o cientista individual e o dinheiro, diz Lennart Hardell, médico e cientista do hospital universitário de Örebro, na Suécia. "O problema é, no entanto, que se fica dependente desse dinheiro. A maioria das pessoas não morde a mão que as alimenta", acredita o investigador sueco.

Hardell estuda as ligações entre a utilização móvel a longo prazo e o cancro do cérebro e concluiu que uma pode causar a outra. Ele fez parte do comité do IARC em 2011, mas não está representado em outros comités. Segundo Hardell, a sua investigação é financiada pelo seu salário do hospital, bem como por fundos angariados por fundações locais de combate ao cancro e por organizações nacionais. "Claro que também trabalhei muito nos meus tempos livres", afirma.

Martin Röösli é professor associado do Instituto Suíço de Saúde Pública e é membro da ICNIRP e de outros órgãos consultivos. "Os estudos financiados exclusivamente pela indústria são susceptíveis de ser tendenciosos", confirma Röösli ao Investigate Europe. Mas, no seu estudo, os modelos financeiros mistos, com mecanismos de salvaguarda adequados, não resultaram em resultados de investigação tendenciosos - e tinham uma qualidade mais elevada. Pode também haver resultados preferidos em qualquer campo, afirma Röösli: "Os investigadores podem criar incertezas para angariar fundos para a sua investigação".

Alguns estudos podem prolongar-se por 15 a 20 anos. Tais projectos são pão e manteiga para os investigadores, argumenta Louis Slesin. Alguns estudos são financiados pela indústria. "Será que isto constitui um conflito de interesses para os cientistas envolvidos?", pergunta Slesin - e responde: "Claro que sim".

Gunnhild Oftedal não descarta que a fonte de financiamento pode afectar as conclusões - tal como "uma forte convicção de que se vai encontrar alguma coisa" pode. Tais mecanismos não eram muito considerados antes. "Mas hoje estamos preocupados com isso. Tenho a impressão de que os cientistas são muito mais cautelosos em receber apoio da indústria - pelo menos apoio directo", diz Oftedal.

"A indústria deve pagar"

Nem todos querem denunciar o dinheiro dos negócios. A indústria deveria, sem dúvida, pagar pela investigação dos potenciais perigos dos seus produtos; mas esta só deveria ser realizada independentemente dos financiadores, pensa Zenon Sienkiewicz, um fisiologista britânico, que faz parte da comissão da ICNIRP e que já fez parte de outros organismos consultivos.

A investigação está criticamente dependente de financiamento externo, acrescenta o antigo cientista da ICNIRP Norbert Leitgeb, professor no Instituto de Engenharia dos Cuidados de Saúde da Universidade de Tecnologia de Graz, na Áustria. "A questão não é saber se a indústria forneceu dinheiro, o que deveria fazer se os seus produtos são motivo de preocupação. A questão importante é saber se existem firewalls eficientes que garantam que as partes interessadas não podem interferir com os investigadores e influenciar os resultados ou conclusões científicas", afirma.

O debate sobre um potencial enviesamento da indústria ignora um potencial enviesamento contrário, de ONG e grupos de pressão privados, afirma Leitgeb. "Grupos como o das pessoas que dizem ter hipersensibilidade eletromagnética deveriam merecer a mesma atenção".

Mike Repacholi fundou a ICNIRP, bem como o projecto CEM da OMS. No início, o projecto da OMS recebeu um financiamento substancial da indústria. Ao deixar a OMS, Repacholi tornou-se um consultor da indústria.

"Tem havido tantas críticas à investigação financiada pela indústria que a indústria não financia agora a investigação. No entanto, são eles que estão na origem das preocupações com a saúde. Quem perdeu com esta situação?". pergunta Repacholi.

No entanto, tanto a ICNIRP como a OMS excluem agora os investigadores que receberam apoio da indústria ao longo dos últimos três anos.

A OMS e a herança do tabaco

Tanto Eric van Rongen como Gunnhild Oftedal estão também profundamente envolvidos no trabalho da Organização Mundial de Saúde para actualizar os conhecimentos desta entidade em matéria de radiação e saúde.

O "núcleo" de cientistas da OMS tem vindo a trabalhar desde 2012, e esperava-se que a sua investigação estivesse concluída há muito tempo. Mas as alegações de unilateralidade também assolaram este comité. Agora, a OMS vai criar um grupo de investigação mais alargado que avaliará o trabalho do "núcleo" inicial. Os participantes ainda não foram nomeados, mas incluirão "um amplo espectro de opiniões e conhecimentos especializados", garante um porta-voz da OMS ao Investigate Europe.

Muitos críticos dos organismos dominantes de investigação dos CEM, e dos seus laços históricos com a indústria, comparam a situação com a forma como os fabricantes de tabaco conseguiram manter a dúvida sobre se fumar era perigoso. "Não gosto dessa comparação, porque aí os efeitos nocivos são claros, ao passo que com os CEM ainda estamos a adivinhar quão grande ou pequeno é o problema", diz Louis Slesin.

A lição a tirar da questão do tabaco, pensa ele, é ter cuidado para não dar demasiado acesso e influência à indústria. "Em 2000, a OMS publicou um importante relatório em que fez mea culpa sobre a forma como permitiu à indústria tabaqueira influenciar o seu pensamento", lembra Slesin.

"Há muita incerteza"

A maior parte da investigação sobre as radiações da tecnologia móvel e a saúde foi feita sobre as tecnologias 2G e 3G. Nos próximos anos, a super-rápida 5G será implantada e utilizará, em parte, frequências muito mais elevadas do que as que foram utilizadas anteriormente. Os conhecimentos científicos sobre o que isto pode significar para a saúde pública são mínimos. Alguns cientistas avisaram que existe o perigo de essas frequências elevadas poderem aquecer os tecidos do corpo. A ICNIRP diz que não está de acordo.

O responsável da ICNIRP concorda, porém, com os críticos numa questão: é necessária mais investigação.

"Absolutamente. Há ainda muita incerteza. Por exemplo, sabemos muito pouco sobre os efeitos a longo prazo da utilização móvel no cancro do cérebro, para tirar conclusões. Precisamos absolutamente de mais informação", garante Eric van Rongen.

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