Será desta que o recorde da maratona baixa das duas horas?

Atleta queniano vai procurar tornar-se o primeiro homem a completar os 42,2 quilómetros abaixo de duas horas este sábado. O cenário será em Viena, na Áustria. Carlos Lopes, campeão nos Jogos Olímpicos de 1984, diz que "é um desafio à força humana".

Cinquenta anos depois de o homem ter ido à Lua, uma nova prova de superação da humanidade, mas em menor escala, poderá estar prestes a ocorrer. Neste sábado, o detentor das duas melhores marcas mundiais da maratona (2:01:39 horas no ano passado em Berlim e 2:02:37 neste ano em Londres), campeão olímpico na distância e vencedor de oito majors, o queniano Eliud Kipchoge, terá tudo a seu favor para se tornar o primeiro homem a completar os 42,2 quilómetros abaixo de duas horas. Uma marca que até hoje, apesar de várias tentativas, nunca ninguém conseguiu.

O fundista de 34 anos vai ser o protagonista do projeto INEOS 1:59 Challenge, em Viena, cidade escolhida a dedo para a ocasião por ter estradas largas e planas, a longa reta de 4,3 km de Hauptallee que será percorrida várias vezes, ar fresco e saudável devido ao clima local e à proximidade de muitas árvores. E ainda um fuso horário de apenas três horas de diferença em relação ao local de treinos do atleta no Quénia. O desafio está agendado para este sábado - a hora do tiro de partida será confirmada esta sexta-feira - e Kipchoge já chegou à capital da Áustria, para onde viajou na noite de segunda-feira.

"Eliud Kipchoge é o melhor maratonista de sempre e o único atleta no mundo que tem alguma hipótese de bater as duas horas. Ninguém tem sido capaz de o fazer. Não é diferente de tentar colocar um homem na Lua. Se Eliud fizer 1:59 horas, será a primeira vez que qualquer humano conseguirá quebrar essa barreira", frisou o presidente da INEOS, Jim Ratcliffe.

O campeão da maratona dos Jogos Olímpicos de 1984 e antigo recordista mundial, Carlos Lopes, acredita que baixar das duas horas é possível, mas desconfia se tal vier a acontecer sem que Kipchoge tenha mostrado tempos igualmente extraordinários noutras distâncias. "Depende do resultado que ele tenha aos dez mil metros. Se tiver um registo na casa dos 25 minutos mais do que uma vez, eu acredito. Se ele não conseguir fazer isso, tenho algumas dúvidas. É a minha convicção", afirmou ao DN, sobre o queniano que nos dez mil metros tem como melhor tempo 26 minutos e 49 segundos, numa prova de pista realizada na Holanda em 2007.

O antigo atleta do Sporting, de 72 anos, considera que este tipo de desafios "são tentativas de promover as provas da maratona". "É um pouco uma obsessão, um desafio à força humana. Gostava de ver a fasquia das duas horas ser superada, mas com antecedentes bem fortes, para não haver suspeitas", sublinhou o tricampeão mundial de corta-mato (1976, 1984 e 1985), que na maratona tem como recorde pessoal 2:07:12 horas alcançadas em Roterdão, na Holanda, a 20 de abril de 1985.

Tempo não deverá ser homologado

Embora as regras ainda não tenham sido divulgadas, tudo leva a crer que serão as mesmas do Nike Breaking2, em maio de 2017, quando Kipchoge completou a distância no circuito automobilístico de Monza, em Itália, em 2:00:25, acompanhado de pacemarkers (as chamadas lebres) que iam entrando ao longo do percurso para impor o ritmo e com os abastecimentos a serem fornecidos através de motos. Devido a esses fatores, a Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF) não homologou a marca, que seria recorde mundial.

Para Carlos Lopes, "todas" as provas "deveriam ser" homologadas, "porque de uma forma ou de outra, há sempre lebres". "As lebres entram a meio, mas desde que não empurrem para a meta. Se correr pelos seus próprios pés e pelo seu esforço, não percebo porque não é homologada", atira o antigo atleta, medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Los Angeles.

"Aprendi muito com a minha tentativa anterior e acredito realmente que posso ser 26 segundos mais rápido do que há dois anos em Monza", disse recentemente Kipchoge. "Estou muito animado com estes meses de boa preparação para mostrar ao mundo que, quando alguém se concentra num objetivo, trabalhar no duro e acreditar nele mesmo, tudo é possível", acrescentou.

O maratonista queniano treinou arduamente durante vários meses e foi conta disso nas redes sociais. "Juntamente com os meus colegas fizemos uma fantástica sessão de treino longo esta manhã. Fizemos o percurso Boston, que tem bastante sobe e desce e é feito a 2700 metros de altitude. A corrida de hoje teve cerca de 40 quilómetros, a qual fizemos em 2:23 horas. É a minha sessão de treino preferida da semana", escreveu no Instagram a 4 de julho.

Esse treino foi feito a um ritmo médio de 3 minutos e 35 segundos por quilómetro, mas para baixar das duas horas na maratona precisará de rolar a uma média de 2 minutos e 50 segundos por cada mil metros. Embora a organização e o atleta estejam otimistas, um estudo científico publicado recentemente, baseado na progressão do recorde mundial masculino e feminino nos últimos 60 anos, apontou para maio de 2032 a data em que a barreira das duas horas será finalmente quebrada.

Carlos Lopes, que diz que baixar das duas horas "seria um feito ao alcance de muito pouca gente", não se deixa embalar por este estudo. "No atletismo o que hoje é verdade amanhã é mentira. Vale o que vale", atira o antigo atleta leonino, que já correu em Viena, mas em pista, nos 5000 metros. "Fiquei encantado com a cidade", confessou.

Primeiro não africano tem 169.ª melhor marca

Olhando para a lista das melhores marcas de sempre, constata-se que o melhor atleta não nascido em África na maratona é o norueguês Sondre Nordstad Moen, que surge com o 169.º melhor tempo de sempre (2:05:48), obtido em dezembro de 2017. Carlos Lopes tem 556.ª melhor marca, mas o melhor português é António Pinto, no 349.º lugar, com 2:06.36 horas, alcançado em abril de 2000. Neste olhar pelo ranking de todos os tempos, não estão incluídos africanos naturalizados por outros países como Kaan Kigen Özbilen (Turquia), Khalid Khannouchi (EUA) e Mo Farah (Grã-Bretanha).

O último atleta de origem não africana a deter o recorde mundial da maratona foi o brasileiro Ronaldo da Costa: 2:06:05, em setembro de 1998. Durou pouco mais de um ano.

"Desde 1985 que eles dominam as grandes distâncias e têm melhorado significativamente porque vão aparecendo outros valores. Quando há referências, aparecem jovens que querem seguir essas referências. A partir de dada altura, toda a gente apostou no Quénia e na Etiópia", explicou Carlos Lopes, que viu o recorde mundial por ele estabelecido em 1985 cair cerca de três anos depois precisamente para um etíope, Belayneh Dinsamo, com 2:06:50 na Maratona de... Roterdão.

Quem é Eliud Kipchoge?

Eliud Kipchoge nasceu a 5 de novembro de 1984 em Kapsisiywa, no oeste do Quénia, sendo o mais novo de quatro irmãos. Criado pela mãe, uma professora, apenas conheceu o pai através de fotografias.

Quando ainda não fazia da corrida a sua profissão, corria diariamente cerca de três quilómetros para ir para a escola. Quando tinha 16 anos, em 2001, conheceu Patrick Sang, conterrâneo que acumulou várias medalhas internacionais nos três mil metros e que viria a tornar-se seu treinador.

Como qualquer atleta, Kipchoge começou por competir em distâncias mais curtas em pista e em corta-mato. E com sucesso. Em 2003 foi campeão mundial júnior de corta-mato em Lausana, na Suíça, e em absolutos nos três mil metros em Paris.

Quase uma década depois, em 2012, fez a transição para a estrada, tornando-se o segundo estreante mais rápido de sempre numa meia maratona, ao completar a prova de Lille, em França, em 59:25 minutos. No ano seguinte estreou-se na maratona, em Hamburgo, que venceu. No total, o queniano soma 12 vitórias em 13 maratonas, com a exceção a ser a de Berlim, em 2013, quando ficou atrás do compatriota Wilson Kipsang. Nesses triunfos estão incluídos oito vitórias em majors (grupo que integra as maratonas de Boston, Londres, Berlim, Chicago, Nova Iorque e Tóquio) e a dos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro.

Entretanto, a 16 de setembro de 2018, Kipchoge não só bateu o recorde mundial em Berlim como o fez de forma absolutamente incrível, ao retirar um minuto e dezoito segundos à anterior melhor marca, do compatriota Dennis Kimetto, estabelecendo o registo de 2:01:39 horas. Desde 1967 que nenhum atleta retirava mais de um minuto ao recorde mundial. Agora, o novo desafio é baixar das duas horas.

41 lebres para "fazer história"

Esta é uma corrida diferente para Kipchoge. Desta vez, não há adversários nem está apenas em jogo um recorde pessoal ou mundial. "Corro para fazer história, para avançar, para mostrar que não há limites a toda uma geração no mundo. Espero que três mil milhões de pessoas o vejam no sábado. Não se trata de dinheiro, mas sim de correr, fazer história e mudar a vida das pessoas", afirmou o queniano esta quinta-feira em conferência de imprensa.

Depois de ter falhado por 26 segundos em Monza, a 5 de maio de 2017, o maratonista africano diz-se "mais preparado e confiante". "Corri a essa velocidade durante os dois últimos anos, por isso não é preciso perguntar como vou fazê-lo", frisou Kipchoge, que este sábado em Viena não vai correr sozinho, pois ao longo do percurso terá a companhia de 41 lebres de luxo, entre os quais os três irmãos Ingebrigtsen, o vice-campeão olímpico Paul Chelimo, Ronald Musagala, o antigo campeão mundial de 1500m e 5000m Bernard Lagat, o vice-campeão mundial de 5000m Selemon Barega e o campeão olímpico de 1500m Matthew Centrowitz Jr.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG