Boavista alvo de buscas por suspeitas de branqueamento. Há sete arguidos

As instalações do Boavista e a sede do Gafanha, dos distritais de Aveiro, foram alvo de buscas no âmbito de um inquérito crime relacionado com fraude fiscal e branqueamento. Presidente do Boavista, o advogado Vítor Murta, é um dos sete arguidos do processo e diz que clube "não tem nada a ver" com o caso.

O branqueamento de "milhões de euros", que esta quarta-feira levou à realização de 13 buscas no Norte, envolvia uma sociedade americana, uma empresa de eventos e advogados vinculados às agremiações desportivas Boavista e Gafanha. No total foram constituídos sete arguidos. "No inquérito não houve detenções, mas foram constituídos sete arguidos, dos quais uma pessoa coletiva e seis pessoas singulares", revela a Procuradoria-Geral Distrital do Porto. O inquérito é dirigido pela 12ª secção do DIAP do Porto e "as buscas decorreram nos concelhos do Porto, Vila Nova de Gaia, Trofa, Famalicão, Guimarães, Fafe, Matosinhos e Aveiro".

O crime de branqueamento, contou fonte ligada ao processo à agência Lusa, era feito através de um "carrossel de faturas falsas", que além do Boavista envolvia também o Grupo Desportivo da Gafanha, uma coletividade do concelho de Ílhavo, distrito de Aveiro, controlada por Paulo Santos Silva, também ligado à empresa de eventos.

O presidente do Boavista reagiu ao final do dia e disse que as buscas à SAD 'axadrezada' "têm a ver com uma empresa que no passado teve relações comerciais com o Boavista".Vítor Murta ficou-se por uma declaração sem direito a perguntas sobre as buscas que a PJ e a AT fizeram hoje às instalações 'axadrezadas'.

"Esta é uma questão que não tem nada a ver com o Boavista", reforçou depois Vítor Murta, insistindo que os sócios e adeptos podem estar tranquilos quanto ao que se passou no Bessa. "Gostaríamos de tranquilizar todos os boavisteiros, porque este é um tema que não tem a ver com o Boavista. Tem a ver com uma empresa que no passado manteve relações com o Boavista", começou por declarar o dirigente máximo do Boavista, que foi eleito para o cargo em dezembro de 2018.

Vítor Murta afirmou que o Boavista facilitou "todos os dados" que lhe foram solicitados pelos investigadores e referiu ainda que a PJ e a AT "agiram com a maior lisura" com a instituição 'axadrezada', declarando-se também disponível para esclarecer "sempre" o que for necessário. O presidente boavisteiro alegou que não respondia a questões por se tratar de um assunto que "está em segredo de justiça",

Advogados ligados a estes procedimentos eram Vítor Murta, que é presidente do Boavista, e Mário dos Santos Paiva. Vítor Murta foi constituído arguido.

Uma das buscas para as quais as autoridades policiais tinham mandado era ao que supunham ser precisamente o gabinete de Mário dos Santos Paiva, nas instalações da sociedade de advogados do Porto co-titulada por Nuno Cerejeira Namora, mas encontram esse mesmo gabinete vazio. "A Judiciária vinha cá fazer buscas. Só que esse advogado já não trabalha connosco, trabalha no Funchal. Não sonhávamos com estes crimes, mas descobrimos outros comportamentos desviantes e despedimo-lo há cerca de um mês", disse à Lusa Nuno Cerejeira Namora.

O inquérito é dirigido pelo Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) do Porto, estando envolvidos na operação meios da Polícia Judiciária e da Autoridade Tributária, acrescenta a PGR.

Milhões de euros em causa

Em comunicado enviado às redações, a PJ adianta que realizou uma operação policial para cumprimento de mandados de buscas domiciliárias e não domiciliárias, pela presumível prática de crimes de fraude fiscal qualificada e branqueamento, tendo levado a cabo dez buscas domiciliárias e três buscas não domiciliárias (que incluíram dois escritórios de advogados, duas sociedades anónimas desportivas e dois cofres bancários), realizadas nos concelhos de Porto, Vila Nova de Gaia, Guimarães e Aveiro, sabendo-se que as buscas não domiciliárias incluem a SAD do Boavista, que milita na I Liga, e o Gafanha, que atua nos distritais de Aveiro.

"De acordo com o apurado até ao momento pela investigação, em causa estará a não entrega da prestação tributária devida, e a sua subsequente ocultação através do desenvolvimento de atividade empresarial relacionada com a realização e gestão de eventos desportivos", escreve a Polícia Judiciária.

"Os suspeitos envolvidos serviam-se de diferentes ferramentas, entre os quais a utilização de faturação falsa emitida por empresas nacionais e estrangeiras e a ocultação de proveitos. Para o branqueamento foram usados mecanismos como a aquisição de bens móveis e imóveis por sociedades exclusivamente constituídas para o efeito, assim como o investimento em organizações desportivas, com conluio de agentes desportivos", acrescenta a PJ, que já identificou uma "vantagem patrimonial de milhões de euros".

A operação policial envolveu cerca de 80 elementos, incluindo a participação de Magistrados Judiciais e do Ministério Público e dele resultou a apreensão de documentação diversa relacionada com os factos em investigação.

Entretanto, o Boavista disse estar a colaborar com as autoridades. "O Boavista está a colaborar com as autoridades para que fique esclarecido o mais rapidamente possível. Só mais tarde poderemos abordar o tema com maior clareza. Podemos sim adiantar que ninguém dos quadros do Boavista foi alvo de buscas domiciliárias", explicou o emblema axadrezado, numa nota enviada aos jornalistas.

Mais tarde, pelo Facebook, o Boavista deixou uma nova nota: "O Boavista F. C. e a Boavista F. C., Futebol, SAD foram, hoje, visitadas pela Polícia Judiciária e pela Autoridade Tributária, tendo sido feitas algumas buscas. Muito embora nada tivesse a ver, directamente, com a Instituição Boavista, mas com empresa (s) que connosco têm ou tiveram acordos comerciais, toda a disponibilidade e colaboração foram dadas às Autoridades envolvidas."

Em declarações à Lusa, o presidente do Gafanha, Carlos Peleja, confirmou que elementos da PJ estão nas instalações do clube "a ver a contabilidade entre 2015 e 2017", que corresponde ao período da direção liderada por João Paulo Ramos. "Não temos nada a esconder. Facultámos toda a informação pretendida", disse Carlos Peleja, manifestando estar tranquilo.

Segundo o mesmo responsável, pelas 13.00, os inspetores ainda se encontravam nas instalações do clube que na época passada desceu ao campeonato distrital da Associação de Futebol de Aveiro.

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