Portugal tremeu mas soube sofrer e acabou por sair a sorrir

Estreia vitoriosa da seleção nacional no Championship 2020, com a jovem equipa de Patrice Lagisquet a derrotar a Bélgica por 23-17 (com 14-0 ao intervalo) num regresso auspicioso ao mais alto patamar do râguebi europeu.

Huuf! Foi com um grande suspiro de alívio e muita alegria que, no final do encontro desta tarde de sábado no Estádio Universitário de Lisboa, jogadores, equipa técnica e adeptos se juntaram, no centro do relvado, para comemorar o regresso vitorioso de Portugal ao Rugby Europe Championship após quatro anos de ausência, transformando a cinzenta e chuvosa tarde na capital num dia de râguebi pleno de sol e calor. O que uma vitória consegue fazer à meteorologia...

É que se ao intervalo os Lobos, na estreia caseira de Patrice Lasgisquet no comando técnico da seleção, venciam por confortáveis e justos 14-0, um início de 2.ª parte pouco menos que desastrado por parte do jovem quinze nacional permitiu aos "Diables Noirs" igualarem o marcador já para lá da hora de jogo. E foi à custa de notável atitude e grande espírito de equipa, e quando as coisas pareciam mesmo que iriam virar a favor de uma equipa belga com uma poderosa avançada mas previsível e com um modelo de "jogo de 10" que já não se usa a este nível competitivo, Tomás Appleton e seus companheiros foram buscar a pouca energia que restava num depósito já muito vazio e empurrando o adversário para o seu meio-campo acabaram por resolver o encontro com duas penalidades do irrepreensível Danny Antunes, o "homem do jogo", e que só desperdiçou um dos seis pontapés aos postes que tentou, obtendo um total de 13 pontos.

Depois de três épocas a disputar o European Trophy (3.º escalão do râguebi europeu), nas quais somaram 15 vitórias noutros tantos jogos, os jogadores portugueses sentiram agora no corpo o que é defrontar quinzes num patamar superior. E pela amostra exposta, as quatro jornadas que aí vêm não vão ser pera doce, ai não vão não, a começar já no próximo sábado frente à Roménia nas Caldas da Rainha.

Alinhando com quatro jogadores que jogam em clubes franceses, um em Espanha e outro em Inglaterra, Portugal começou bem o jogo, mas o desempenho nacional nos alinhamentos era tão deficiente - a chuva não ajudava mas era óbvia a má ligação entre o lançador Campergue, de regresso cinco anos depois à seleção, e os saltadores - que os Lobos não tinham bolas para atacar em condições, quando se sabia que os nossos rápidos e imaginativos três-quartos, com espaço e bola, poderiam fazer miséria e a diferença entre as duas equipas. O que valeu à seleção nacional foi que esta Bélgica - que somente abriu duas vezes a bola para as linhas atrasadas nas cinco jornadas do Champioship 2019! - é um "quinze de uma jogada só" (touche-maul-nova touche-outro maul- até-ver-onde-isto-vai-dar) e também no combate no solo se mostrava apática e sem nervo, permitindo recuperações de bola em catadupa.

Até que aos 14" num rápido ataque português pelos três-quartos, a oval chegou ao centro António Vidinha (bom jogo!) que simulou e num passe interior entregou ao defesa Manuel Cardoso Pinto para o ensaio inaugural perante uma defesa belga a ver jogar.

Os Lobos mandavam no jogo e aos 37", no primeiro alinhamento finalmente conquistado por Portugal (David Wallis, quem mais?) o ponta Danny Antunes penetrou pelo centro ganhando metros sobre metros com o lance a desenvolver-se de forma célere através de João Belo e Cardoso Pinto que fixou e deu a José Maria Vareta para o ponta de Direito fazer o segundo da tarde, que selava os 14-0 no descanso com nova conversão de Danny Antunes.

E quando se faziam contas ao que faltava para o quinze nacional atingir na 2.ª parte o ponto de bónus atacante, tamanhas eram as facilidades encontradas no 1.º tempo, o recomeço de Portugal foi desastrado e poderia ter colocado tudo em causa.

Em apenas 15 minutos e perante a incapacidade portuguesa para contrariar o poderio da avançada belga, dois maul dinâmicos na sequência de alinhamentos após penalidades provocadas por desnecessárias faltas nacionais (o primeiro até foi considerado pelo árbitro escocês como ensaio de penalidade com o concomitante cartão amarelo a Wallis reduzindo a equipa a 14 por 10 minutos) permitiram aos visitantes igualarem a partida a 17 pontos, depois de Antunes e Alan Williams trocarem pontapés de penalidade.

Um belo lance a solo de Cardoso Pinto (deslocado para a ponta pela lesão de Vareta e entrada de João Freudenthal para defesa) quase deu o terceiro ensaio que poderia ter acalmado a coisas. Mas perante a juventude e inexperiência portuguesas (só três jogadores acima dos 26 anos e um total de 121 internacionalizações, um terço das quais do capitão Appleton) correu pelo Universitário um friozinho que nada tinha a ver com o dia húmido e chuvoso, era mesmo pelo medo que a estreia portuguesa, afinal, fosse marcada por uma dolorosa derrota perante tão modesto adversário.

Mas à força de coragem, alma e inteligência Portugal acabaria por dar a volta ao destino que parecia ir ser-lhe madrasto. A equipa nacional empurrou os belgas para a sua defesa, passando a ocupar maioritariamente a área de 22 contrária. E duas faltas adversárias - a segunda da quais já em cima dos 80" provocada pela mêlée nacional, revigorada pela entrada do pilar Francisco Bruno - convertidas pelo afinado Danny selaram o triunfo suado, trabalhoso mas inteiramente justo.

Portugal alinhou com: Manuel Cardoso Pinto (5); Danny Antunes (3,3,3,2,2), António Vidinha, Tomás Appleton (cap.), José Maria Vareta (5) (João Freudenthal); João Lima, João Belo (Duarte Azevedo); Thibault de Freitas (Manuel Picão), David Wallis, João Granate, José Maria Rebelo de Andrade (Duarte Torgal), José Madeira, Diogo Hasse Ferreira, Lionel Campergue e Ivo Morais (Francisco Bruno).

Nos outros encontros desta 1.ª jornada a Espanha foi a Sochi bater a Rússia, por 31-12 (cinco ensaios!) e a Geórgia recebeu em Tbilissi e venceu a Roménia, por 41-13.
Na 2.ª jornada a disputar no próximo fim-de-semana, Portugal recebe a seleção romena nas Caldas da Rainha, sábado (15.00).

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