O secreto e restrito mundo das corridas de bicicleta no Japão

Escola de keirin em Izu é uma ramificação das academias militares do país, onde só 10% dos candidatos consegue entrar. Modalidade vive do secretismo, restrições e respeito pelas tradições japonesas. É um negócio que movimenta milhões por ano. Apostas são legais.

No Japão há todo um mundo secreto de corridas de bicicleta, onde os ciclistas aprendem a montar as bicicletas sozinhos para participar nas corridas de Keirin, disciplina do ciclismo que faz parte do calendário Olímpico desde 2000. Provas de respeito, integridade e dedicação, que são também um grande negócio no Japão. A indústria das corridas é lucrativa para atletas e adeptos, já que movimenta cerca de 10 milhões de euros por ano e é um dos quatro desportos em que se pode apostar legalmente. Quem vence o Grand Prix do ano tem vida eterna no Japão.

Há escolas especializadas em corridas Keirin, localizadas estrategicamente em cenários idílicos. A BBC visitou uma delas, em Izu, onde será o velódromo olímpico de Tóquio2021, a cerca de 200 km de Tóquio, no topo de uma montanha com o Monte Fuji ao à distância de um olhar, e falou com uma lenda da modalidade Chris Hoy, o ciclista britânico que frequentou a escola em 2005, três anos antes de ganhar a sua primeira medalhas de ouro olímpicas no keirin, em Pequim2008. "É um lugar de tradição que se concentra no respeito, no autocontrole e na honestidade, junto com o conhecimento necessário para ser um ciclista profissional de keirin", explicou Hoy.

A escola Keirin não é apenas uma escola, é uma ramificação da academia militar onde apenas 10% dos candidatos são aceites. Somente os melhores entram - 90 por ano, entre os 18 e os 23 anos de idade. Um espaço onde há televisões, mas não há telemóveis, acesso a e-mail ou redes sociais. Os alunos podem ligar para casa uma vez por semana de um telefone público. E há penalizações para quem quebrar as regras. Os alunos usam uniforme e podem ser obrigados a tarefas de limpeza ou exercícios extra.

O dia começa às 6.30 da manhã com chamada e termina às 22.00 com as luzes apagadas, durante seis dias por semana, 11 meses do ano. Pelo meio, os alunos têm sessões estruturadas de treino e educação. O treinamento pode ser na bicicleta, a correr na rua no ginásio, enquanto as sessões de educação são académicas - estudam táticas, teorias e regras de corrida na sala de aula - e práticas. Os alunos aprendem mecânica, já que têm de estar preparados para montar a bicicleta sozinhos e sem a logística de uma equipa por detrás durante as provas.

Todos os anos, um pequeno número de ciclistas internacionais é escolhido a dedo e convidado a participar da temporada de keirin no Japão. São conhecidos como gaijin (estrangeiros) e não fazem a temporada completa, mas são obrigados a seguir as restritas normas internas. O britânico Joe Truman, 23 anos, medalhista de prata nos sprints da equipe da Europa foi um deles. "Fiquei um pouco obcecado com o keirin japonês desde que comecei a correr aos 15 anos", diz Truman, que competiu nas duas últimas temporadas no Japão e foi coroado campeão britânico de keirin em março de 2020.

O keirin foi criado em 1948 como forma de elevar a moral do Japão após a Segunda Guerra Mundial. É uma disciplina do ciclismo de pista, disputada num velódromo, em que os ciclistas (6 a 9 de cada vez) competem em corridas com um número determinado de voltas, devendo posicionar-se atrás de uma bicicleta motorizada que marca o ritmo durante a parte inicial da prova e que abandona depois a pista, momento a partir do qual os atletas podem acelerar livremente, vencendo aquele que terminar o percurso primeiro. Atualmente existem 43 velódromos no país e há corridas 365 dias do ano. Nas casas de apostas, nos cafés e bares há milhares de pessoas que assistem a cada corrida como se disso precisassem para viver.

Os melhores atletas podem ganhar mais de um milhão de euros por ano em prémios. Muitos competem até aos 50 e 60 anos. Nas provas, os corredores chegam às corridas exemplarmente vestidos segundo uma indumentária pré-estipulada e têm de entregar o telemóvel. Nenhuma comunicação com o mundo exterior é permitida durante todo o evento. Muitos ocorrem ao longo de quatro dias, mas, às vezes, os pilotos correm apenas uma vez, sendo essa a única oportunidade que têm de ver a luz do dia. Durante o resto da prova ficam confinados e escondidos do resto do mundo.

Mas há todo um mundo de espionagem e contra-espionagem que fascina os japoneses. Os atletas entram num jogo de informação e contra informação, definindo táticas e alvos a abater nas corridas, que desde 2021 também são abertas a mulheres. A corrida vive-se de forma intensa, os corredores não podem olhar para a multidão ou festejar a vitória ao cortar a meta, para não serem acusados de passar informação aos apostadores. As janelas nos recintos onde os atletas esperam pela sua vez de entrar no velódromo são translúcidas para impedir o contato com o mundo exterior. No final os vencedores oferecem águas aos outros concorrentes como forma de expressar o seu agradecimento por uma boa corrida.

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