O português que vê mais de 30 jogos por época da Juventus dá as boas-vindas a Ronaldo

Idalécio tem lugar anual no Estádio da Juventus e é fanático pela vecchia signora. O português aprova contratação do compatriota mas alerta-o para a "porrada" que pode vir a sofrer no calcio

Idalécio Guimarães nasceu e cresceu em Guimarães, berço de Portugal, mas o coração bate forte pela italiana Juventus desde tenra idade. Residente na cidade suíça de Locarno, a 250 quilómetros de Turim, onde trabalha como cozinheiro, tem lugar anual na curva sud do Estádio da Juventus desde a sua inauguração, em 2011, e assiste ao vivo a mais de 30 jogos da vecchia signora por temporada, incluindo na Liga dos Campeões. O braço direito coberto de tatuagens alusivas ao clube e as histórias de viagens longas e de noites mal dormidas constituem provas de uma paixão que há muito se transformou em amor. Agora, é num compatriota que reside grande parte de um sonho que desde há 22 anos tem vindo a ser constantemente adiado: o terceiro título europeu.

O adepto vimaranense da Juve, que integra a claque Drughi, dá as boas-vindas a Cristiano Ronaldo, mas quer guardar a euforia para os momentos de glória. "É sempre bom ter um campeão como Cristiano Ronaldo, como provam as vendas das camisolas e o dinheiro que a Juventus já fez ainda antes de ele ter disputado um jogo. Há diferentes adeptos: os normais, que ficaram em êxtase, e os das claques, um pouco indiferentes a quem chega ao clube. Fico contente, claro, porque é um dos melhores jogadores de sempre e é português, mas os preços dos lugares anuais aumentaram e o pessoal ficou chateado", contou ao DN, torcendo o nariz a ter de pagar quase 600 euros em vez dos anteriores 490 para continuar a apoiar a heptacampeã transalpina na bancada curva sud, a chamada "bancada popular". "São aumentos ridículos. Por esse preço, em Munique ou em Dortmund, dá para ir para a tribuna assistir aos jogos ao lado do presidente", lamenta.

Questionado sobre quem teria mais a ganhar com esta transferência, se Juventus ou Cristiano Ronaldo, o minhoto de 37 anos radicado na Suíça prefere apontar o nome do grande... perdedor. "Há uns dias, li um artigo no As que dizia que perdiam os três: Real, Juve e CR7. Mas eu acho que só perde o Real Madrid. Espero que ganhe a Juventus, que vai ter um campeão. E ganha o campeonato italiano, que era de topo mundial nos anos 1990, mas agora já não", afirmou, à espera de mais reforços. "Disseram-me que estão a tentar a contratação do Marcelo e a tratar seriamente do regresso do Pogba, e que são quase certas as vendas do Higuaín e do Rugani para o Chelsea, para respeitar o fair play financeiro", acrescentou.

Idalécio Guimarães acha que o compatriota vai sentir dificuldades no calcio, devido à dureza dos defesas adversários. "Vai levar muita porrada e não vai ter a mesma proteção que tinha em Espanha. Vai precisar de uns 10 ou 15 jogos para se habituar, mas ele é mentalmente muito forte", confia, já a sonhar na conquista da Liga dos Campeões, que tem fugido desde 1996. "Estive nas finais de Berlim [2015, frente ao Barcelona] e Cardiff [2017, diante do Real Madrid]. Em Berlim não estava confiante, mas em Cardiff estava. Aquela segunda parte foi horrível [derrota por 1-4]. Depois de sete campeonatos e de quatro taças consecutivas, a Champions é o que falta. É o maior sonho", atirou, ambicioso.

Estava no estádio mas não aplaudiu bicicleta

Idalécio Guimarães assistiu ao vivo aos dez jogos da Juventus na Liga dos Campeões na temporada passada, incluindo o Juventus-Real Madrid que ficou marcado pelo grande golo de pontapé de bicicleta de Cristiano Ronaldo, aplaudido por vários adeptos bianconeri. "Foi um golaço, mas não aplaudi, muito sinceramente. Quem aplaudiu foi a tribuna, e o pessoal das claques até ficou chateado. Não teve lógica. Naquele momento, o nosso dever era levantar a cabeça aos nossos jogadores", vincou, desconhecendo que o momento da juventude do madeirense o poderá ter tornado simpatizante da vecchia signora. "Ele jogou no Nacional. Às tantas, como as cores são parecidas...", brincou.

Por falar em razões que a própria razão desconhece, o vimaranense também não se lembra porque se tornou adepto da Juve. "Sinceramente, não sei, não me recordo do momento, mas desde pequenino que sou. Provavelmente teve a ver com as cores, porque também sou do Vitória [de Guimarães]. Mas lembro-me que já gostava antes de o Rui Barros ir para lá, em 1988. Na altura, era raro ter um jogador português no estrangeiro, e fiquei todo contente", confessou, ainda com algumas memórias dos tempos de Michel Platini, Paolo Rossi e da tragédia de Heysel, na final da Taça dos Campeões Europeus de 1985, diante do Liverpool.

Do chão dos aeroportos às diretas para o trabalho

Questionado sobre a maior loucura que fez pela Juventus, não é capaz de destacar... apenas uma. "Todos os anos há loucuras. Todos os jogos têm a sua história. Quando fui a Madrid, saí de casa às cinco da manhã, regressei num voo charter e fui direto para o trabalho. É assim muitas vezes e, como não deixo o pessoal, dormimos no chão do aeroporto. Mas há sítios em que não o permitem. Em Atenas, por exemplo, a polícia deu-nos pontapés para sairmos de lá", confessou, salientando igualmente as longas viagens de camioneta a Berlim e a Roma. "Entre onde vivo e Roma são 2000 quilómetros de distância. Habitualmente, são dez horas só de ida, mas neste ano, para assistir à final da taça, demorámos 14 horas, porque o motorista se enganou", contou Idalécio Guimarães, que, em média, vai assistir a cerca de 35 partidas da Juventus por temporada e tem gastos anuais na ordem dos três mil euros só para acompanhar o emblema de Turim.

A devoção à vecchia signora já foi mesmo reconhecida pelos responsáveis do clube italiano, que o convidaram para aparecer num spot publicitário antes da final da Liga dos Campeões de há um ano, diante do Real Madrid. "Contactaram-me a mim e a outro rapaz português [Rui Curado]. Não pude ir a Turim gravar, então combinámos em Milão, porque era mais perto para mim", explicou, antes enumerar os principais ídolos que viu com a camisola bianconera vestida: "Tacconi, Scirea, Platini, Ravanelli, Vialli, Roberto Baggio Buffon, Del Piero, Nedved, Camoranesi, Trezeguet e Pessotto. Enfim, todos aqueles antes da descida à II Liga [devido ao escândalo de corrupção Calciocaos]. Hoje só há mercenários. Fiquei muito triste com a ida de Buffon para o PSG", lamentou o minhoto.

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