O dia em que os jornalistas fizeram de videoárbitro

Jornalistas estiveram esta sexta-feira na Cidade do Futebol para um workshop sobre a utilização da tecnologia a convite do Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol.

Desconfortante, atrofiante, stressante e confuso foram alguns dos adjetivos utilizados pelos jornalistas que esta sexta-feira estiveram na pele de vdeoárbitro (VAR) e do videoárbitro assistente (AVAR), na Cidade do Futebol, em Oeiras, para um workshop sobre a utilização da tecnologia a convite do Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol. Uma forma de instruir o público e de o sensibilizar através do veículo que é a comunicação social, na sequência de dias fervorosos para a classe, cujos desempenhos no Benfica-FC Porto e no Sp. Braga-Sporting das meias-finais da Taça da Liga foram bastante criticados.

Monitorizados pelos ex-árbitros João Ferreira e Bertino Miranda, atualmente vice-presidente e vogal do CA da FPF, e pelos árbitros no ativo Artur Soares Dias, João Capela, Hugo Miguel, Tiago Martins e João Pinheiro, cerca de 20 repórteres tiveram a oportunidade de entrar no Centro de Video-Árbitro, sentarem-se à frente do ecrã, colocar os auscultadores nos ouvidos e ajudar Soares Dias - bastante criativo a inventar decisões - num jogo particularmente recheado de casos entre elementos da equipa de sub-23 do Belenenses SAD, que estava a decorrer num dos campos da Cidade do Futebol.

De facto, não é tão fácil como parece. Sob a pressão do relógio, o encontro proporcionou lances como possíveis grandes penalidades precedidas de possíveis fora de jogo, através de imagens fornecidas por seis câmaras, e depois comunicá-las ao juiz da AF Porto, apesar do ambiente de boa disposição e descontração. Porém, a incerteza na tomada de decisão levou várias vezes quase ao mesmo desfecho: chamar o árbitro para visualizar as imagens.

Até mesmo quando parecia óbvio que não tinha havido contacto entre braço e bola ou quando era claro que tinha havido falta, surgiu algum stress e foi necessário informar Soares Dias o mais rápido possível. Escolher o melhor ângulo, os frames certos, rever todo o lance de ataque para validar um golo num curto espaço de tempo e comunicar de forma sucinta com o árbitro foram outras das dificuldades. Se aqueles 15 minutos na sala de video-árbitro foram atrofiantes, imagine-se se fosse um jogo inteiro.

Ao lado de cada VAR jornalista, estava um AVAR jornalista com a missão de continuar a olhar para o jogo em direto, mas sempre com a tentação de ajudar o VAR na análise dos lances - e foram várias as vezes em que enquanto o AVAR desviava os olhos haviam desentendimentos entre jogadores e até agressões, isto na brincadeira, claro. Os jovens jogadores do Belenenses SAD, orientados por Neca, não se pouparam a criar dificuldades, revelando-se ótimos atores sempre à procura de choques sem bola, situações de fora de jogo no limite ou de puxões na área.

Ver um árbitro a fazer sinal de videoárbitro e correr para ver com os próprios olhos as imagens, já se percebeu, é um ato que causa muito boa impressão na crítica, contudo, nem sempre pode ser assim, conforme reforçaram os árbitros ao longo da ação de formação. Depois de uma decisão inicial, os juízes não poderão consultar as imagens para tirar dúvidas por livre e espontânea vontade. Terão de estar firmes da decisão e só depois de ouvir uma opinião distante por parte do VAR ou a recomendação para a visualização das imagens é que o deverão fazer.

O protocolo foi revisitado e a dinâmica do funcionamento do VAR explicada através da observação de lances em que foi possível ouvir as comunicações entre a equipa de arbitragem no terreno e o video-árbitro, havendo ainda espaço para um videoteste em que foram analisadas 20 situações sob o ponto de vista técnico (livre direto, livre indireto, penálti ou nada) e disciplinar (cartão amarelo, cartão vermelho direto, segundo amarelo ou nada) e um teste escrito de escolha múltipla com 10 perguntas. Ambos deram origem a notas muito modestas.

Encontrar as sanções disciplinares mais adequadas para cada situação e o local do recomeço do encontro após uma infração fora do terreno de jogo, com algumas rasteiras pelo meio, foram questões que deram dores de cabeça aos repórteres no teste escrito. E o que dizer de um lance de um golo que incluiu um fora de jogo e uma mão na área no videoteste? Entre tantas dúvidas, realçou-se uma certeza para a classe da arbitragem: o princípio fundamental da utilização do videoárbitro é alterar uma decisão que foi claramente errada, em situações de legalidade de golos, grandes penalidades, cartões vermelhos diretos e identificação do jogador advertido ou expulso.

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