Memórias da Taça. Cláudio Oeiras, "o gajo que eliminou o FC Porto nas Antas em 1999"

Jogador marcou o golo do Torreense (1-0) nas Antas que eliminou o FC Porto em fevereiro de 1999. Como viveu esse momento e o que mudou na carreira são temas de uma conversa com o DN antes da jornada da Taça de Portugal em que os grandes entram em cena.

Foi numa terça-feira de Carnaval que a equipa de Torres Vedras se deslocou às Antas (atual Estádio do Dragão) para fazer a festa da Taça de Portugal. Um golo de Cláudio Oeiras aos 87 minutos tombou o FC Porto nos oitavos de final da edição 1998/99 e tornou o avançado num dos heróis mais recordados da história da prova. Agora, tal como há 19 anos, a luta entre pequenos e grandes continua a dar um colorido diferente à prova rainha do futebol português e o DN foi falar com o herói de 1999 para saber como foi e os conselhos que daria ao Sertanense (joga com o Benfica esta quinta-feira), Vila Real (defronta o FC Porto nesta sexta-feira) e Loures (com o Sporting no sábado).

Resta dizer que essa equipa do FC Porto era treinada por Fernando Santos, atual selecionador nacional, que em campo estavam jogadores como Drulovic, Capucho, Peixe, Aloísio, Nélson, Fehér, entre outros.

Reveja aqui o resumo do jogo.

"Lembro-me de tudo. Tenho a recordação completa desse dia. Foi um dia fantástico, tanto para mim, como para o clube, para a cidade. Foi uma preparação normal para um jogo de Taça, sabendo que nestes jogos não é preciso grande preparação mental porque o entusiasmo e a motivação estava no máximo. Como íamos jogar fora fizemos estágio. Fomos todos. O clube na altura decidiu que estávamos todos convocados. Depois no dia, o mister escolheu os 16 que iam alinhar", recordou ao DN o antigo jogador da Torreense, hoje com 40 anos, antes de contar o filme dos acontecimentos.

Chegar ao antigo Estádio das Antas, ver as bancadas lotadas e em euforia "intimidou" um pouco. Mas "o Torreense jogava sem pressão alguma" e o desenrolar do jogo foi-lhes "dando esperança", segundo conta Cláudio Oeiras. Depois, à medida que os dragões iam ficando "mais ansiosos pelo golo que não chegava", a equipa da então II Divisão B acreditou que era possível tombar o gigante. O sonho começou a ganhar vida quando aos 75 minutos de jogo o treinador mandou Cláudio Oeiras levantar-se do banco."Eu tinha sido titular no jogo com o Académico de Viseu, no sábado anterior, mas a estratégia do mister passou por reforçar o setor defensivo e colocou-me no banco. Eu compreendi, mas fiquei triste quando soube que ia ficar de fora nesse jogo. Mas depois acabou por ser o ideal", recordou Cláudio, que marcaria o golo do apuramento em pleno Estádio das Antas aos 87 minutos.

Agora, olhando para os acontecimentos com a devida distância de quase 20 anos (!), Cláudio acredita que o filme desse dia já estava escrito e que ele se limitou a seguir o guião: "Eu tinha apenas 21 anos... aquela emoção e dramatismo de deixar de ser titular, saltar do banco para marcar o golo da vitória, a emoção dos festejos, o ser dia de Carnaval, o feriado maior em Torres Vedras... tudo. Contaram-me que quando marquei o golo o cortejo parou e ficou em suspenso até o jogo acabar. Foram minutos de sofrimento até se poder festejar."

Acabado o jogo a equipa rumou a Torres Vedras, onde o Carnaval esperava pelos novos heróis da Taça. "Quem estava a festejar o Carnaval ficou à nossa espera. Chegámos já de madrugada e estavam milhares de pessoas à nossa espera. Foi um segundo cortejo depois. Foi um dia em cheio para a cidade".

Nos dias a seguir foi uma festa. "Parecia uma estrela. Fui convidado a ir a programas de televisão, rádio, entrevistas, convites para eventos, todos queriam que eu estivesse presente em alguma coisa", contou, revelando que foi assim durante "um mês, mais coisa menos coisa". Depois tudo voltou ao normal e houve promessas que ficaram por pagar. O amigo Edgar, dono do café-restaurante Fangio, em Negrais (Sintra), que "é todo benfiquista", na véspera do futebolista do Torreense ir jogar com o FC Porto para a Taça de Portugal, fez-lhe uma promessa: "Se marcares o golo da vitória nas Antas, podes almoçar à borla um ano inteiro". E depois pagou? "Sempre que eu lá ia pagava, mas eu também não ia lá só para comer à borla", respondeu o antigo avançado.

"Parecia uma estrela. Fui convidado a ir a programas de televisão, rádio, entrevistas, convites para eventos, todos queriam que eu estivesse presente em alguma coisa"

Garantido um lugar nos quartos-de-final da Taça de Portugal 1998/99, o Torreense e Cláudio Oeiras estiveram perto de fazer história novamente. Depois de eliminarem Chaves e FC Porto, a equipa de Torres Vedras jogou com o Vitória de Setúbal. E nessa eliminatória o jovem avançado de 21 anos ainda marcou, já no prolongamento, mas o árbitro invalidou o golo por fora de jogo posicional de um colega e o jogo acabou 0-0. Na altura havia segunda volta e foram depois a Setúbal perder 3-0: "Mas estive perto de fazer história novamente."

Golo abriu portas do Benfica

O golo ao FC Porto acabaria por ser "o mais importante" da carreira: "Não o trocava por nada. Sinto muito orgulho de ver que sempre que há Taça alguém se lembra do gajo que eliminou o FC Porto nas Antas em 1999."

Mas o que mudou na vida e na carreira depois desse golo? "Não mudou muito. Simplesmente o meu nome começou a ser mais falado, fiquei sempre associado a esse jogo e a essa vitória, mas não vi grandes mudanças Quer dizer... ajudou a abrir portas". Que portas? "Nesse ano eu já tinha sido internacional, fui o melhor marcador do Torreense, e depois do golo comecei a ser mais observado pelos olheiros de clubes da II e da I Liga. E sim, pode-se dizer que abriu algumas portas, uma delas, a do clube do meu coração, o Benfica. Se eu não tenho feito esse jogo se calhar o Benfica não me tinha ido observar"

Mas sem ilusões. "Sempre soube que ia para a equipa B do Benfica", embora tenha treinado muitas vezes com a equipa principal do José Mourinho e do Jupp Heynckes. "Além disso eu tinha 21 anos e não era fácil naquela altura um clube apostar num jovem avançado português de com essa idade. Quase nem havia avançados portugueses na I Liga na altura, a maior parte não apostava em avançados portugueses e no Benfica a concorrência era forte. Toy, Jorge Cordeiro, Pepa e Mawete Júnior nos B, e van Hooijdonk, Nuno Gomes e o João Tomás, na equipa principal...era essa a concorrência..."

Apesar da forte concorrência acabou a primeira época no Benfica com 26 golos pela equipa B. E garante que nem a fama nem o estatuto de jogador do Benfica fizeram dele um deslumbrado: "Sempre fui uma pessoa calma, tranquila, sempre com os pés assentes na terra, vivi alguns períodos de euforia consentida. Jogar com os grandes jogadores já não era novidade para mim, já tinha ido várias vezes às seleções jovens, jogado em ambientes fortes e com jogos televisionados, por isso talvez não me tenha deslumbrado. "

Sem oportunidades e com forte concorrência no Benfica, acabou por ir jogar para a Alemanha, a convite de José Morais que o tinha treinado no Benfica.

Mensagens para Sertanense, Loures e Vila Real

Em 2011, com 33 anos, terminou a carreira no Pêro Pinheiro e já depois de jogar pela equipa de futebol de praia do Benfica."Pode-se dizer que atingi alguns objetivos, que era ser internacional e jogar no Benfica. O único senão e única mágoa na carreira foi nunca jogar na I Liga. De resto sinto-me realizado. Tive bons desempenhos em equipas como o Torreense, Mafra ou Odivelas. Até fui o melhor marcador da II Divisão B. Foi uma carreira simpática."

Depois foi diretor desportivo. Primeiro no Torreense e depois no Sintrense. Agora trabalha numa empresa que fornece produtos hortícolas aos hipermercados da Grande Lisboa.

Hoje em dia, só quem tem "conhecimento de futebol" o reconhece na ruas, mas se disser o nome - Cláudio Oeiras - há sempre alguém que se lembra do "gajo que eliminou o FC Porto".

Por isso, se tivesse de fazer a palestra do Sertanense (joga esta quinta-feira com o Benfica), Loures (vai jogar com o Sporting) e Vila Real (vai defrontar o FC Porto) diria aos jogadores para "desfrutarem do momento": "Se calhar para a maior parte este é um jogo único na carreira, é desfrutar, defrontar um grande não é para todos, é estar tranquilo e aproveitar ao máximo." Porquê? " Porque estes jogos são montras para os bons jogadores das divisões secundárias mostrarem o seu valor e até para as vilas e cidades dos clubes pequenos, para eles a Taça é mais importante e bonito de ver", elogiou Cláudio Oeiras, aplaudindo a nova medida da FPF de por os grandes a jogar fora na primeira ronda.

"Só é pena", que fruto de outros interesses, seja de bilheteira ou por causa da televisão, os clubes pequenos procurem um estádio que não o deles para jogar com os grandes.

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