Mário Veríssimo. Uma vida dedicada a cuidar dos outros como enfermeiro e massagista

Amigo de Jorge Jesus foi enfermeiro e massagista no Estrela da Amadora durante mais de trinta anos e chegou à seleção nacional, na década de 80. Marques Pedrosa e Rebelo recordam o homem alegre e extrovertido para quem uma lesão nunca era incurável.

Jorge Jesus antecipou-lhe a morte sem querer. Há dias, após um jogo do Flamengo, o treinador português lamentou a perda de um amigo por causa do coronavírus. Referia-se a Mário Veríssimo, antigo enfermeiro e massagista do Estrela da Amadora, agora conhecido como "o amigo de Jorge Jesus", que ficará na história como a primeira vítima da pandemia em Portugal. Tinha 80 anos.

Chegou a jogar futebol no Odivelas, mas foi a tratar dos outros que fez carreira no futebol e na vida. Era enfermeiro na ortopedia do Hospital de Santa Maria quando foi convidado a ir para o Estrela da Amadora em 1976. Só de lá saiu quando o clube acabou, em 2009. Foi massagista principal e auxiliar dos médicos que passaram pelo clube durante mais de três décadas. "Era um massagista que sabia fazer tudo. Os médicos quando um jogador se lesionava mandava-os ao Veríssimo perguntar qual era a opinião dele e só depois ir ter com ele. Isso diz bem como era estimado pessoa e profissionalmente", contou ao DN "o amigo de 40 anos" Marques Pedrosa.

"Era um homem alegre, extrovertido e sem filtro", segundo o antigo diretor desportivo do Estrela. "Era o único com autorização para nos tratar mal. Era o nosso amigo mais mal criado, entre aspas. Dizia o que queria, mesmo ao Jorge Jesus. Ele dizia-lhe o que queria fosse sobre que assunto fosse e o Jorge calava-se", recordou Marques Pedrosa, revelando que foi ele que mandou a mensagem ao treinador do Flamengo a informar que do estado do amigo Veríssimo e que gerou aquela gaffe da morte antecipada.

Viu passar uns 20 treinadores pelo clube da zona Amadora, entre eles Cabrita, José Torres, Medeiros, Jesualdo Ferreira, Fernando Santos e Jorge Jesus. "Eles passavam e ele e as amizades ficavam. O nosso grupo de amigos que todas as quartas feiras se encontrava para um cozido à portuguesa chegou a ter quatro ex-treinadores do Estrela para ver como as ligações eram fortes", contou o antigo dirigente dos tricolores, sem esquecer os diálogos que o antigo massagista tinha com Quinito: "Ninguém percebia nada do que eles diziam, só eles."

Mário só abandonou o Estádio José Gomes quando o clube foi declarado insolvente por um tribunal, a 29 de setembro de 2009. Mas as ligações ficaram. A equipa de veteranos do clube desafiava-o muitas vezes para ir com eles aos jogos. A resposta era sempre a mesma: "Está bem. Pagam o almocinho e eu vou."

Chegou a integrar a equipa médica da seleção nacional, na década de 80, levado para a Federação Portuguesa de Futebol por António Malva, antigo dirigente da FPF que também tinha estado no clube da Reboleira. Privou com jogadores como Bento, Chalana, Nené, Jordão, Fernando Gomes, Carlos Manuel, entre muitos outros futebolistas de uma das maiores gerações do futebol português.

Marques Pedrosa é um manancial de histórias do amigo Veríssimo, que certa vez foi confrontado com uma lesão "arrepiante", quando o Estrela foi jogar à Suíça. "Um jogador do Neuchâtel teve uma entrada mais dura sobre o Baroti e rasgou-lhe a barriga da perna com o piton de alumínio. O Manuel Fernandes avisa-o e ele chegou ao campo, retirou o Baroti para trás da baliza e cozeu-lhe a perna a sangue frio, deu-lhe um pontapé no rabo e mandou-o para dentro de campo", recordou o amigo.

Outra vez, Rui Neves numa disputa de bola num jogo com o Vit. Guimarães levou uma cabeçada e cortou a língua: "Ele chegou lá, tirou a língua para fora e disse-lhe que eram só três ou quatro pontos, dei-lhe seis pontos e mandou-o outra vez para dentro do campo, era assim ele, rijo e realista. Dizia que os homens de barba rija não choravam e que o jogador de futebol não podia ser maricas, tinha de ser homem, era a linguagem dele, prontos..."

A linguagem pode parecer arcaica e até desajustada e os métodos algo rudes, mas Veríssimo "era assim" e "estimava" os jogadores que lhe passavam pelas mãos. Rebelo, mítico capitão dos tricolores, privou com ele durante 14 anos no clube da Reboleira: "Era a nossa salvaguarda quando nos lesionávamos e precisávamos de alguém para nos tratar e curar. Tratou-me muitas vezes. Era ele que me punha bom e dava ânimo quando me lesionava. Falar do Estrela é falar do Mário Veríssimo. Era uma referência e um nome incontornável do Estrela da Amadora."

"Muito extrovertido e brincalhão, para ele não havia lesões incuráveis", recordou o antigo médio, agora com funções no Sindicato de Jogadores, lembrando que ele "tinha um à vontade" que deixava logo os jogadores menos lesionados. "Dava-nos aquela força a anímica que tanto precisávamos naquela fase que nenhum futebolista gosta, que é estar lesionado. Era a nossa boia de salvação. Ele tornava as lesões mais fáceis e mais leves. E isso para nós era um descanso de alma. Ele sabia dizer as palavras certas para nos levar a acreditar numa rápida recuperação. Dava-mos aquela esperança que precisávamos numa hora difícil", elogiou Rebelo, recordando o lema do antigo massagista: "A lesão nunca era grave, era tratável."

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