João Almeida: "Espero um dia voltar a vestir a camisola rosa"

João Almeida promete voltar a vestir a camisola cor-de-rosa. Rúben Guerreiro quer ser o melhor na Volta à França.

João Almeida alcançou neste domingo um feito para o ciclismo português ao conquistar o 4. º lugar na Volta à Itália, a melhor posição de sempre alcançada por portugueses. E espera "voltar a vestir a camisola" de líder, a rosa que usou 15 dias, naquela que foi a 103.ª edição do Giro.

O ciclista ficou em melhor posição do que José Azevedo, que detinha o anterior recorde, o 5. º lugar, e Joaquim Agostinho tinha ficado em sétimo.

Mas o Giro não foi apenas feliz para João Almeida, a quem chamam o "pantera das Caldas da Rainha" - nasceu numa freguesia do concelho, em A-dos-Francos. Outro português, Rúben Guerreiro, conquistou o prémio de melhor trepador, que tecnicamente já era seu, e neste domingo confirmou-o É o cowboy de Pegões Velhos, Montijo, que se tornou o rei da montanha, título que nenhum português tinha conquistado.

O primeiro-ministro felicitou os dois ciclistas na rede social Twitter. "As minhas felicitações a João Almeida, pelo resultado histórico, e a Rúben Guerreiro, pela conquista da camisola azul. Dia histórico, de orgulho para o ciclismo português. Parabéns!", escreveu António Costa.

Mais tarde foi a vez de Marcelo Rebelo de Sousa elogiar os dois ciclistas. "João Almeida e Rúben Guerreiro fizeram história com duas prestações extraordinárias que durante as últimas três semanas empolgaram todos os portugueses", lê-se numa nota da Presidência da República.

Estes registos "fizeram jus à história do ciclismo nacional, honraram o nome de Portugal e merecem o reconhecimento do Presidente da República", sublinha.

Rúben Guerreiro festejou o 4.º lugar do Giro d'Itália já a pensar em próximos triunfos. Na mira, a conquista de uma etapa de melhor trepador na Volta à França, comentou neste domingo no final do contrarrelógio, em Milão. "O meu sonho era ganhar uma etapa nas três grandes voltas. Estive perto de o conquistar na Volta à Espanha, consegui na Volta à Itália, a próxima é a Volta à França", confessou.

E João Almeida, em declarações aos jornalistas após a 21.ª e última etapa, um contrarrelógio até Milão, disse que "até ao final, era preciso lutar e sofrer. Foi um dia duro, com 15 quilómetros a top. Estou muito feliz".

O português, 22 anos, liderou a corrida durante 15 dias, ficando em 5.º lugar no dia (quarta-feira) em que a perdeu. Aproximou-se, entretanto, da quarta posição e, na última etapa, ultrapassou o espanhol Pello Bilbao (Bahrain-McLaren), que seguia em quarto.

"O meu objetivo era o top 10, e já era muito ambicioso. Terminar em quarto é um sonho. Estou muito grato a toda a minha equipa pelo que fizeram, staff, colegas de equipa, tudo", afirmou.

Para 2021, não avança objetivos, mas faz um balanço positivo da primeira grande volta da carreira, mesmo que o entusiasmo tenha sido "bastante" e se queira "sempre mais e mais".

"Quinze dias de rosa é uma coisa impressionante e espero um dia voltar a vestir a camisola", confessou.

Promete continuar a "lutar pela geral" em "grandes voltas", ainda que hesite em classificar-se, já, como campeão. Almeida descreveu o que conseguiu como "um bom feito" e vai manter "o foco na geral e em corridas de uma semana".

"É bom levar a bandeira portuguesa numa grande Volta, e é impressionante estar à altura do José Azevedo", explicou.

A Unieuro foi a primeira equipa internacional de João Almeida, que já havia brilhado nos escalões mais jovens em Portugal, no Clube de Ciclismo José Maria Nicolau e no Clube de Ciclismo da Bairrada. Neste domingo conquistou o 4.º lugar pela Deceuninck-Quick Step.

Foi nesta formação que conseguiu as primeiras vitórias como sub-23, três, metade das que a equipa alcançou no ano todo, e onde conheceu o espanhol Dani Viejo, que se retirou neste ano, aos 22 anos, após ter corrido na Euskadi-Murias em 2019.

"Conheci o João em novembro de 2016, quando fomos fazer o reconhecimento médico. Gostei muito dele, e depois vivemos e competimos quase sempre juntos naquele ano todo", conta à Lusa o antigo ciclista de Oviedo.

"Tem um espírito competitivo muito forte. Esse espírito competitivo é tão forte que, quando não atinge o objetivo a que se propõe, penaliza-se a ele mesmo", conta à Lusa o antigo ciclista José Azevedo, que o dirigiu na Katusha-Alpecin em 2019 e a quem João Almeida "roubou" o lugar de melhor português na Volta à Itália.

Futebol, o primeiro amor

João Almeida e Rúben Guerreiro começaram no futebol, Almeida também andou pela natação e Guerreiro pela BTT, até chegarem às competições em ciclismo de estrada. Nas últimas três semanas juntaram-se na conquista de provas no Giro. João vestiu durante 15 dias a camisola rosa (a de líder) e Rúben ganhou a nona etapa, a de montanha, o direito a envergar a camisola azul para o melhor trepador.

E levaram os habitantes de A-dos-Fancos e de Pegões Velhos a vestirem-se de rosa e de azul, respetivamente, homenageando os ciclistas da terra.

Rúben Guerreiro, 26 anos, é caracterizado por um corredor "muito explosivo". Ganhou a maglia azzurra (camisola azul), depois do contrarrelógio deste domingo, em Milão, no ano de estreia pela Education First, a terceira equipa norte-americana participante no Giro.

Rúben Guerreiro começou na BTT, mas foi na estrada que se afirmou como campeão nacional de juniores em 2012. Em 2014, vence a Volta a Portugal do Futuro, conseguindo o bilhete de viagem para os Estados Unidos e para a Hagens Berman Axeon.

Correu pela "fábrica de talentos" dois anos, e, logo no primeiro, venceu o Grande Prémio Liberty Seguros, explodindo em 2016 com o triunfo no Grande Prémio Palio del Recioto, em Itália, como terceiro melhor jovem na Volta à Califórnia, com bons resultados na Volta à Saboia e como campeão nacional sub-23.

Rúben Guerreiro criou assim um movimento que se viria a tornar regular de ciclistas portugueses na equipa destinada a desenvolver jovens talentos, criada por Axel Merckx, e pela qual passou também João Almeida.

"Fico feliz pelo Rúben, porque sei que tem muito talento e tem apenas de cristalizar essa energia na direção certa. Acho que o fez na etapa que ganhou. Ainda tem muito potencial para ganhar mais", disse o filho de Eddy Merckx, também antigo ciclista e diretor da Hagens Berman Axeon.

Neste domingo, em Itália, disse estar muito orgulhoso. "É um sentimento que nunca mais esquecerei, conseguir vencer uma etapa e conquistar a camisola azul. Cumpri um dos meus objetivos."

A 103.ª edição da Volta à Itália em bicicleta terminou com a vitória do britânico Tao Geoghegan Hart (INEOS), após a conclusão do contrarrelógio individual da 21.ª etapa, em Milão. Hart ganhou duas etapas e nunca tinha vestido a camisola rosa durante a competição.

O vencedor do Giro 20202 terminou o contrarrelógio em 13.º lugar, 15,7 km conquistados pelo italiano Filippo Ganna (INEOS), dando-lhe o segundo lugar. Bateu o australiano Jai Hindley (Sunweb), que chegou ao último dia na liderança com menos de um segundo de vantagem para o adversário.

Em terceiro lugar ficou o holandês Wilco Kerlderman (Sunweb).

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