Japão. O "Milagre de Brighton" pode ter novo episódio em Tóquio

Em 2015 surpreendeu tudo e todos ao bater a África do Sul. Agora, no Mundial por si organizado, o Japão apurou-se pela primeira vez para os quartos-de-final, onde irá defrontar de novo os Springboks neste domingo. Novo milagre à vista?

Quatro anos depois do "milagre de Brighton" quando o Japão, em pleno Mundial de Inglaterra, causou a maior surpresa na história da prova ao bater a África do Sul, por 34-32, os Brave Blossoms, agora treinados pelo neozelandês (e ex-internacional all black) Jamie Joseph, apuraram-se, pela primeira vez em nove edições de Taças do Mundo, para os quartos-de-final. Os nipónicos - que subiram ao 7.º lugar do ranking, a mais alta posição de sempre - ao baterem Irlanda e Escócia (para lá de Rússia e Samoa) terão agora pela frente, de novo, a favorita África do Sul (neste domingo, 11.15, SportTV1).

Com uma rica história no râguebi - o primeiro clube, Yokohama Foot Ball Club, surgiu em 1866 - o país tinha, no final de 2018 e de acordo com os números da World Rugby, 295.940 jogadores, número só ultrapassado por Inglaterra, Estados Unidos, África do Sul, França e Austrália. Mas apesar de toda essa tradição, a modalidade sempre teve que lutar para sair da sombra de desportos coletivos como o basebol e o futebol, ou o sumo e o judo, duas autênticas religiões no país do sol nascente.

O crescimento do râguebi ficou a dever-se muito às universidades, que começaram a ter as suas próprias equipas no início do século XX. E com a feroz rivalidade surgida entre as mais importantes, os duelos entre as universidades de Waseda, Keio e Meiji adquiriram uma crescente importância, em especial a partir de 1964 quando se iniciou o campeonato universitário nipónico. Na década de oitenta do século passado os jogos decisivos atingiriam mesmo proporções épicas, como aconteceu na final de 1982, realizada no estádio nacional de Tóquio e assistida por 67 mil espetadores - e dezenas de milhares ficaram de fora após o sorteio dos bilhetes que foi necessário realizar dada a enorme procura.

Presente em todas os Mundiais desde a edição inaugural em 1987, o Japão averbaria em 1991 o primeiro triunfo - 52-8 perante o Zimbabwe (Belfast) - ao qual se seguiriam cinco edições e 24 anos sem uma nova vitória. O seu ponto mais baixo seria mesmo em 1995, quando no Mundial da África do Sul, em Bloemfontein, os Brave Blossoms sofreram o maior número de pontos da história da competição ao serem dizimados pelos All Blacks por 145-17, concedendo 21 ensaios!

A reação no país do sol nascente à mais pesada derrota em Mundiais foi muito forte e a modalidade manteve-se no limbo da exposição mediática. Mas 20 anos depois a sua seleção de râguebi voltou a ser notícia tornando-se, literalmente do dia para noite e após o surpreendente triunfo diante dos Springboks, uma sensação nacional.

Significativamente, o jogo de Brighton nem foi transmitido em direto nas televisões japonesas. Que não puderam assim acompanhar a arriscada decisão do capitão Michael Leitch (neozelandês a viver no país desde os 15 anos), quando no derradeiro lance do encontro, optou por jogar à mão uma falta que daria o espetacular ensaio de Karne Hesketh para os 34-32 finais, originando uma das maiores surpresas desportivas de sempre e dando azo a paragonas pelo mundo inteiro, com o país a ser invadido por uma incrível febre de râguebi numa onda bem cavalgada pelos media tomados por um frenesim da bola oval.

Febre nipónica pelo râguebi

O técnico responsável por essa vitória foi o australiano Eddie Jones, cujo exemplar trabalho ao serviço do Japão levou a federação inglesa a contratá-lo um mês depois do final do Mundial 2015 para render Stuart Lancaster. "Os jogadores começaram a ser chamados para participar em shows e o jogo foi repetido vezes e vezes sem conta. Surgiu uma febre de râguebi que deu origem a este crescimento da modalidade", revela o atual selecionador inglês. Nesse ano o Japão tornou-se a primeira seleção a vencer três jogos na fase de grupos de um Mundial sem conseguir apurar-se para os "quartos". O que fez crescer as esperanças japonesas em avançar um passo quatro anos depois, ainda por cima no certame por si organizado.

Claro que, para lá do interesse despertado pelo quinze nacional - num país com grande apetência por desporto, o jogo encontra-se disseminado por todo o arquipélago e é impressionante a quantidade de relvados exclusivos para râguebi que se vêm por todo o lado - a modalidade desenvolveu-se por força da forte aposta das maiores empresas nipónicas. Em especial a partir de 2003 com o arranque da Top League dominada por equipas como Toyota Verblitz, Honda Heat, Canon Eagles, Toshiba Lupus, Panasonic Wild Knights, Suntory, Yamaha Jubilo ou Kobelco Steelers, o atual campeão cuja figura de proa é o neozelandês bicampeão mundial Daniel Carter, único jogador designado por três vezes como o melhor do mundo, em 2005, 2012 e 2015.

E com os elevados montantes envolvidos, os melhores jogadores do hemisfério sul, em especial em final de carreira, acabam por confluir na Top League, fazendo subir o nível da competição. Como irá acontecer no final deste Mundial, com o anúncio de contratações milionárias de algumas estrelas neozelandesas, australianas e sul-africanas.

É verdade que dos 23 jogadores que alinharam frente aos escoceses apenas 11 nasceram de pais japoneses. Mas com a autoconfiança e força mental de atletas como Keita Inagaki, Kazuki Himeno, Michael Leitch, Yutaka Nagare, Yu Tamura (melhor marcador da prova, 48 pontos), Ryoto Nakamura, Timothy Lafaele ou os frenéticos pontas Kotaro Matsushima (um dos dois melhores marcadores de ensaios do Mundial, com cinco) e Kenki Fukuoka ("o homem do jogo" diante da Escócia e que irá abandonar a modalidade depois dos próximos Jogos Olímpicos para concretizar o sonho de ser médico), os Brave Blossoms podem continuar a surpreender. Haverá mais um milagre no râguebi nipónico? Estes samurais creem que sim. E que o novo episódio será já amanhã em Tóquio.

O impacto de uma série televisiva

Mas não foi só o râguebi universitário a ter impacto no crescimento da modalidade no Japão. Em outubro de 1984, a popular série "School Wars" daria uma inesperada projeção ao desporto da bola oval. Baseada na história verdadeira de Yoshiharu Yamaguchi, um professor e antigo jogador internacional que tomava conta da equipa de râguebi de um problemático liceu em Kyoto, e iria transformar um grupo de delinquentes numa equipa campeã nacional. O sucesso foi imediato, introduzindo milhões de espectadores com uma modalidade que nunca antes tinham conhecido.

E tal como muitos outros jovens, o atual médio de formação da seleção japonesa Fumiaki Tanaka, 34 anos, optou pelo râguebi devido à série que, aliás, só veria anos mais tarde nas suas sucessivas repetições na televisão japonesa. A série teria uma continuação em 1990 e deu igualmente origem a um filme em 2004. "Algumas das frases que eram repetidas como mantra pelo treinador na série ainda agora são um lema para mim", revelou o famoso jogador e primeiro nipónico a alinhar no famoso campeonato do hemisfério sul, o Super Rugby, no qual representou os neozelandeses Highlanders entre 2013 e 2016, tendo conquistado o título em 2015.

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