Históricos do sul lutam para sobreviver entre os grandes

Vitória de Setúbal e Portimonense (e Tondela) entram no domingo em campo com a corda na garganta. Pode ser menos um clube abaixo de Lisboa num mapa futebolístico dominado por equipas do norte (dez).

Com o mapa futebolístico vincadamente a norte, a I Liga 2019-20 só tinha duas equipas (em 18) de Lisboa para baixo. O Vitória de Setúbal e o Portimonense. E são esses dois históricos do sul que estão em risco de descer de divisão. Um é mais histórico do que outro. A equipa de Setúbal, o Vitória, foi um dos fundadores da primeira divisão e é o sexto com mais presenças no escalão principal (72 e 2071 jogos), quatro troféus nacionais conquistados e um segundo lugar no campeonato, enquanto a equipa do Algarve, o Portimonense, ainda busca glórias maiores do que o quinto lugar de 1984-85 em 17 participações (541 jogos) e três troféus do segundo escalão.

Desde que regressou ao convívio entre os grandes em 2004-05, o fado do Vitória é sempre o mesmo: a luta pela permanência. Nesta época não é diferente. O empate em Alvalade na jornada passada deu alento à equipa sadina para o último jogo do campeonato, pois passou a depender só de si para ficar na I Liga. Basta para isso ganhar ao Belenenses SAD no domingo (19.30, Sport TV). Se empatar ou perder depende do resultado do Portimonense, que tem menos um ponto (30) e recebe à mesma hora o já despromovido Desportivo das Aves. Isto se houver jogo, uma vez que a equipa da Vila das Aves vive uma crise sem precedentes e pode nem ir a jogo, o que daria um triunfo por falta de comparência aos algarvios. Há ainda que contar com o Tondela (33 pontos) para estas contas. Se vencer a equipa da zona de Viseu safa-se.

O jogo de bastidores já começou. O Portimonense acusou os sadinos de andarem a ligar aos jogadores do Aves, sem revelar qual o pressuposto disso. A equipa de Portimão é a que está em pior situação e a única que não depende só de si para se manter na I Liga pelo quarto ano seguido. Com 17 participações na Liga (13 delas de 1976 a 1990), os alvinegros marafados já desceram três vezes (1977-78, 1989-90, 2010-11) e querem evitar a quarta.

Já o Vitória desceu por sete vezes (1950-51, 1959-60, 1985-86, 1990-91, 1994-95, 1999-2000, 2002-03) e, desde que subiu pela última vez há 16 anos, safou-se na última jornada por cinco vezes (2006-07, 2008-09, 2012-13, 2015-16 e 2017-18). E mesmo que garanta a manutenção não é líquido que fique na I Liga, uma vez que está em risco de falhar os pressupostos financeiros. Quem descer vai estar atento a isso para lutar na secretaria.

Se for a equipa de Setúbal, significa que o Algarve volta a ter duas equipas na I Liga, uma vez que o Farense subiu , na secretaria, depois de a pandemia obrigar a parar a II Liga, e voltará a jogar na primeira divisão 20 anos depois. Já em 1988-89 a equipa de Faro e o Portimonense estiveram juntas no escalão principal. Isso significa que haverá um deserto futebolístico de Lisboa até ao Algarve, uma vez que o Alentejo há muito que não tem equipas no principal escalão nacional.

O sobe e desce desde o nascimento

O país chama-lhe "Setúbal", mas "eles" abrem a boca para dizer que são o "Vitória". Um clube com 110 anos de história. As três Taças de Portugal (1964-65, 1966-67, 2004-05) e a Taça da Liga ((2007-08) fazem dos sadinos o sétimo grande do futebol português. O museu do clube que persiste debaixo das bancadas do estádio do Bonfim tem ainda um troféu inédito: a Taça Recompensa. Troféu que a população mandou fazer numa ourivesaria da cidade para oferecer ao clube, após a derrota com o Sporting na final da Taça de Portugal, em 1954. Ainda hoje se queixam de terem sido prejudicados.

Com o corvineiro (espécie de golfinho que habita no rio Sado) como mascote, o clube tem adeptos fiéis e um lema na ponta da língua: "Vitória não é grande, é enorme."" Mas até os mais fiéis têm um limite. E dos 20 mil sócios que chegou a ter, sobram cerca de nove mil. Um deles é o treinador José Mourinho, que ainda há dias manifestou o amor pelo clube de Setúbal.

Nascido a 20 de novembro de 1910, por iniciativa de três dissidentes do Bonfim Football Club - um dos clubes onde se praticava essa nova modalidade importada das ilhas britânicas chamada futebol -, recebeu o nome de Sport Vitória. A 5 de maio de 1911, passou a ser Vitória Football Club e dez dias depois fez o primeiro jogo de futebol. Perdeu por 7-0. A primeira vitória chegou mais de um ano depois, a 21 de junho de 1912, frente ao Lisboa Futebol Clube (1-0), num jogo que ficou marcado pela estreia das camisolas verde e brancas listadas, herdadas do Setubalense Sporting Clube e que jamais deixou de usar.

Foi um dos oito clubes fundadores do Campeonato Nacional da Primeira Divisão (hoje I Liga) em 1934-35, tendo ficado logo na primeira temporada em quinto lugar. Em 1942-43, consegue chegar à final da Taça de Portugal pela primeira vez depois de golear o FC Porto (7-0), mas perdeu com o Benfica (5-1). Seria a primeira de sete finais perdidas. Para a história ficou a invasão de cerca de dez mil vitorianos no Campo da Salésias, sinal de vitalidade do clube, que depois se estabeleceu na primeira divisão.

Com alguns dos melhores jogadores da história, a década de 60 foi gloriosa. Já depois de inaugurado o Estádio do Bonfim, a equipa foi quatro vezes seguidas à final da Taça, tendo ganho duas. Eram tempos do "Super-Vitória", como escrevia o DN da altura, e em 1971-72 quase chegou ao título com José Maria Pedroto no banco e Jacinto João, Félix Mourinho e José Torres em campo. O Vitória lutou pelo título com o Benfica, mas acabou em segundo lugar, naquela que é a melhor classificação de sempre do clube na primeira divisão. Seguiram-se jogos históricos com as melhores equipas da Europa em 11 participações nas competições da UEFA.

Sem se perceber muito bem porquê, o clube de Setúbal perdeu vigor depois do 25 de Abril. A liberdade de transferência roubou muitos dos bons jogadores ao clube, passando a jogar nos clubes que pagavam melhor. As décadas de 80 e 90 são de sobe de desce. O efeito ioiô só parou no início do século XX. Em 2007-08, os sadinos liderados por Carlos Carvalhal voltaram a saborear os bons tempos, ficando em sexto lugar, indo à final da Taça (perderam com o FC Porto) e conquistando a Taça da Liga frente ao Sporting. Desde então que sobrevivem...



Já o Portimonense Sporting Clube tem uma história muito diferente e muito menos rica. Nasceu numa casa onde se reparava calçado, a loja do senhor Amadeu Figueiras d"Andrade (sócio n.º 1 desde a fundação e até à sua morte), a 14 de agosto de 1914. Nessa altura, um grupo de amigos resolveu fundar um clube que equiparia de preto e branco listado, fascinados pelo jogo com uma bola importado para o Algarve por José Pearce d"Azevedo, filho de mãe inglesa que estudava em Inglaterra e que trouxe consigo uma bola e umas chuteiras, com biqueira de aço e forradas a cabedal.

Os primeiros jogos foram em campos emprestados e os equipamentos eram pagos por cada jogador, assim como as deslocações a vilas e cidades vizinhas em carro particular ou comboio. Em 1926, um ano depois de criar estatutos e se registar, o clube passou por uma grave crise que quase levaria à dissolução, mas sobreviveu e iniciou uma escalada rumo à primeira divisão. Apoiados pela forte indústria conserveira da zona algarvia, os alvinegros de Portimão estiveram às portas do primeiro escalão em 1947, mas falharam a subida no último jogo e perderam o apoio da indústria, passando por uma nova crise.

Em 1976-77, o clube ascendeu pela primeira vez ao escalão maior do futebol português e viveu os tempos áureos na década de 80. Acabou o campeonato em quinto lugar e chegou a jogar a Taça UEFA. O auge durou pouco e desde então a equipa anda num sobe e desce constante. Em 2013, o empresário de jogadores Teodoro Fonseca tomou conta da SAD do Portimonense, alavancando o emblema algarvio de novo. Agora, ao fim de três épocas, volta a estar em risco de despromoção.

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